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O PREÇO DA CARNE

O PREÇO DA CARNE
Fonte: Revista Superinteressante – março de 2004
– Dagomir Marquezi, jornalista

“Se não reduzirmos o consumo de carne,
teremos epidemias cada vez piores”

Chineses costumam encarar qualquer coisa
que se mova como um alimento à sua disposição. Eles
consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor
e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os
piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia
onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada
religião do mundo no trato com os animais.

Nos tristemente famosos “mercados de vida
selvagem” asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis,
insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e
lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses
mercados é um permanente festival de sangue, urina e
fezes. Há mais do que chei­ro ruim no ar: existe medo.
E-vírus de diferentes espécies novas se combinando uns
com os outros.

As imagens mais chocantes registram o que
esses mercados destinam aos cães.
Os mesmos cães que aqui viram membros da
família, ajudam cegos ou orientam equipes de
salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe
enganar: esses mercados chineses não existem para
“matar a fome do povo”.
Chineses pobres comem frango e peixe. Os
cães são “iguarias” caras, assim como gatos,
nescorpiões, cobras, enguias etc.
Eu tive a chance de ver fotos e vídeos
desses mercados. Os cozinheiros acreditam que a
adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto
mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa
carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até
a morte. Eu já via foto de um pastor alemão
sendo enforcado na viga de uma cozinha,
sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um
vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás
do corpo e desisti de imaginar o tamanho de
sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi
mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele
inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo
junto à panela onde foi cozido em vida.

A pergunta básica é: nós, humanos, temos
direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o
direito de jogar uma lagosta viva na água fervente?
Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo
no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de
prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por
toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é
tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor
diferente em nossas bocas justifica tudo?

A questão ultrapassa a esfera da ética e
da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos
mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente
ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando
obrigamos o gado a se canibalizar.
O terrível ebola se espalha com cada homem
africano que devora nossos primos biológicos, gorilas
e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves
para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a
revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das
doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm
origem em outras espécies animais. Tony McMichael,
pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é
bastante claro: “Vivemos num mundo de micróbios.
Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como
manejamos o mundo ao nosso redor.”

Mercados chineses e churrascos africanos
parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua
dependendo demais de alimentação animal. Temos uma
churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12
milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos
dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um
lobby querendo ampliar a oferta de animais nas
geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo
criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova
espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de
vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.

Para tentar controlar essas doenças,
cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves
vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de
desinfetante.
Provocamos o desastre e massacramos as
vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar,
humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de
animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí,
todos nós pagaremos opreço.

Quando uma borboleta bate as asas na
Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A
Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá.
A gripe aviária já se espalhou por diversos países
asiáticos e ameaçam lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num
mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um
cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio
de alguma nova e tenebrosa sigla.

* Dagomir Marquezi, jornalista, é editor
sênior da revista Playboy

Postagem de Arnaldo V. Carvalho no grupo do yahoo Aromaterapia e Óleos Essenciais, em janeiro de 2005.

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