Açúcar e Solidão

Açúcar X Solidão 
Fonte: Revista da Folha – Folha de São Paulo – Data: 28.02.99 

Nós fomos compulsivas por doces. Nossa mãe às vezes deixava de comprar doces, mas nós tínhamos estoque de chocolate no armário. Também passávamos na padaria para comer cinco doces de uma vez” , Ana Estel Greinja Nogueira, 16, estudante (à esq.) e Ana Cláudia Greinja Nogueira, 26, ginecologista.

Atire a primeira pedra quem nunca atacou a geladeira de madrugada, devorou um litro de sorvete de chocolate em 15 minutos e se sentiu o pior da espécie logo depois.

Se serve de consolo, essa súbita vontade de comer em quantidades astronômicas atinge de maneira crônica por volta de 2% dos norte-americanos (de 1 a 2 milhões de pessoas) e, no Brasil, um terço dos obesos.

O comportamento, conhecido desde a década de 50, mas ainda pouco estudado, já tem nome científico: BED (Binge Eating Disorder, compulsão alimentar periódica -binge pode ser traduzido por farra).

As pessoas que apresentam os sintomas de BED provocam “orgias alimentares: comem grandes quantidades em pouquíssimo tempo -podem passar de 20 mil calorias (o equivalente a 80 coxinhas) em menos de duas horas. Os “ataques” acontecem pelo menos duas vezes por semana, durante um período de, no mínimo, seis meses. Outra característica da BED é que, logo depois da comilança, a pessoa se sente culpada e deprimida.

Vítima desse problema, a dentista Roseli Schultz, 29, era capaz de comer 13 pedaços de pizza rapidamente, trancava-se no banheiro para devorar bombons que escondia dentro dos rolos de papel higiênico e liquidava uma travessa de brigadeiro em 15 minutos, “até arder a garganta”. “Depois da crise, tinha raiva de mim mesma, me batia, dava socos e puxava meu próprio cabelo”, conta.

Roseli sentia vergonha de sua voracidade e tentava camuflar suas compulsões. Misturava, por exemplo, água nas garrafas de Coca-Cola para disfarçar o quanto havia bebido. “Para ninguém descobrir que tinha devorado uma caixa inteira de bombons, não jogava os papéis no lixo, escondia embaixo do sofá. Uma vez, quando o sofá foi reformado, acharam uma quantidade enorme de papéis de bombons”, lembra.

Vergonha é um sentimento comum entre as vítimas de BED, que adotam subterfúgios para esconder os abusos: comem escondidos, em horários estranhos e muito rápido.

A química Maria Eliza Zuccon, 57, não poupava esforços para esconder a quantidade de bolachas que comia durante o dia. “Colocava os pacotes vazios no fundo do lixo”, conta.

Sua compulsão fazia com que deixasse bolachas espalhadas pela casa toda. “Tinha nos bolsos, no porta-luvas do carro, em toda parte. Mas sempre levava apenas um pacote comigo, para mostrar aos outros que comia pouco. Ou punha a culpa nas crianças, dizendo que elas queriam”, diz Maria.

A “paixão” por bolachas começou quando, aos 13 anos, foi transferida para um colégio interno. “Antes, não gostava de comida, e minha mãe sofria com isso. Comecei a associar comida com aceitação. Achava que as pessoas gostariam mais de mim”, diz.

Ela só se livrou do vício aos 42 anos, quando atingiu os 80 kg e decidiu fazer um programa de reeducação alimentar. Nas refeições, na frente dos outros, quase não comia. Mas, quando tinha os ataques, era capaz de acabar com pacotes e mais pacotes de bolachas. “Gostava de colocar recheios, como leite condensado, geléias ou patês nos biscoitos salgados”, conta Maria, que está com 63 kg e consegue agora comer “apenas uma bolacha”.

Um quilo de amendoim e açucar puro

“Colocava água na garrafa de Coca-Cola para não denunciar o quanto havia bebido do refrigerante e escondia bombons dentro dos rolos de papel higiênico no banheiro. Depois sentia muita raiva de mim, me batia” ,Roseli Schultz, 29, dentista.

As causas de BED são quase sempre emocionais. “Os desencadeadores são, geralmente, sentimentos negativos, como carência, ansiedade e tristeza”, afirma a psicóloga Maria Beatriz Ferrari Borges, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

No caso da dentista Roseli Schultz, o tédio era um fator importante. Aos 20 anos, achava que já tinha alcançado os dois grandes objetivos de sua vida -estava casada e formada- e sentia-se Éfeliz, mas vazia”. “Trabalhava de manhã, mas passava as tardes em casa. A ociosidade contribuiu para os meus ataques de gula”, conta Roseli, que chegou aos 84 kg (hoje está com 59 kg) e se tratou com um grupo de reeducação alimentar.

A advogada Renata, 31, costumava levantar mais de uma vez durante a madrugada para assaltar a geladeira. “Quando não achava doce, virava o açucareiro puro. No dia seguinte, acordava com culpa e sentia tanta tristeza que não conseguia levantar da cama”, conta Renata, que não revela seu sobrenome porque participa do grupo Comedores Compulsivos Anônimos.

Ela descobriu, após um ano de tratamento no Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital São Paulo (Proata/Proad), que comia exageradamente porque queria “extravasar a raiva na comida”. “Agora, trabalho para me perdoar. Sentia falta de amor próprio, insegurança. As pessoas exigiam que eu fosse sempre a melhor, mas nem sempre conseguia”, diz Renata, que tem 1,50 m e chegou a engordar 40 kg.

O “X” da questão é descobrir o que vem primeiro: a depressão ou a compulsão. A pessoa come muito porque está triste ou fica triste porque comeu demais? “Apenas recentemente essa compulsão começou a chamar a atenção dos médicos. Notou-se que os obesos com BED tinham maior comprometimento psiquiátrico”, diz o psiquiatra Táki Cordás, coordenador-geral do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares) do HC.

Os pesquisadores começam a desconfiar de que não são apenas fatores psicológicos como ansiedade e carência que provocam a compulsão.

Os mecanismos neurofisiológicos que regulariam esse comportamento ainda são pouco conhecidos, mas há a hipótese de que as variações de serotonina podem desencadear a compulsão. Serotonina é um neurotransmissor (substância que faz a ligação entre as células nervosas) que regula, entre outras coisas, o humor, a ansiedade, o apetite e o sono.

A ingestão de carboidratos é um dos fatores que interferem na produção de serotonina. “Quando uma pessoa come carboidratos, um brigadeiro, por exemplo, o corpo libera insulina, que facilita a passagem de um tipo de aminoácido (chamado de triptofano) para o cérebro, onde ele vai induzir a produção de serotonina”, explica Cordás. Com mais serotonina, a pessoa se sente calma, satisfeita e saciada.

A hoje orientadora nutricional Adela Ramos Pares Martim, 42, conta que, quando sofria de BED, sentia compulsão por alimentos ricos em carboidratos, como pão, pizza, massas, macarrão e sorvete.

Apesar de nunca ter sido obesa (“ficava, no máximo, gordinha”), Adela sofreu crises de compulsão dos 14 aos 37 anos. Comia pizzas inteiras, muita pipoca e até 1 kg de amendoim.

Hoje, 10 kg mais magra, ela se considera uma pessoa normal, apesar de ainda sentir às vezes crises de compulsão. “De vez em quando, bate uma carência afetiva ou algum estresse, e a vontade volta. Quando me descontrolo, minha família já sabe: precisam tirar o que estou comendo da minha frente à força.” Muita pizza

O distúrbio atinge mais o sexo feminino -na proporção de três mulheres para dois homens- e aparece normalmente na adolescência. “É nessa fase que as pessoas começam a fazer regime e, se não há orientação adequada, passam a desenvolver esse comportamento compulsivo. Ele se assemelha à bulimia, mas não há vômitos e uso de laxantes”, explica a psiquiatra Susan Yanovski, do Departamento de Distúrbios Alimentares do Instituto Nacional de Saúde, dos EUA.

O estudante Leandro César Mendes, 14, foi uma exceção. Ele começou a ter ataques compulsivos muito cedo, com 9 anos. “Às vezes, sentia o cheiro de pizza e aquilo ia me dando uma vontade, um desejo muito grande. Só pensava naquilo o dia inteiro, até que ia para um restaurante e comia dez pedaços de uma só vez.”

Leandro, que só tinha compulsão por salgados (pizzas, pães, coxinhas), chegou a passar mal de tanto comer. “Mesmo depois de um ataque, chegava em casa e ainda ia almoçar”, conta.

Há um ano, pesando 114 kg, Leandro decidiu fazer uma reeducação alimentar e já conseguiu perder 42 kg. “Não consigo nem ter noção de quanto comia. Eram quantidades tão absurdas que hoje parece que era outra pessoa que comia aquilo. Eu tinha perdido totalmente o referencial.”

O garoto diz que a comida servia como forma de compensação. “Quando tinha que fazer coisas chatas, como lição-de-casa, comia depois para me dar um prêmio”, diz Leandro, que ainda quer perder 6 kg.

Embora o distúrbio seja comum entre obesos, a psiquiatra Susan Yanovski, dos EUA, não recomenda dietas nesses casos. “É preciso primeiro tratar as causas, porque um regime tende a estimular o comportamento compulsivo”, disse Susan.

Não é difícil entender. Qualquer pessoa que já fez dieta sabe que, depois de um mês sem chocolate ou pizza, é muito fácil devorar uma caixa inteira de bombons ou oito pedaços de uma só vez.

“Quando você percebe, está comendo até o estômago doer”, conta a estudante Ana Estela Greinja Scarabelo Nogueira, 16. Ana não tinha compulsão por um alimento específico, mas passava o dia inteiro comendo, indo dos salgados para os doces, e de volta para os salgados, sucessivamente. “Começou há dois anos, quando estava em uma fase difícil com os meus pais e não me sentia aceita pelos meus amigos”, diz.

A garota engordou 15 kg até decidir pedir ajuda à irmã mais velha, a médica Ana Cláudia, que já tinha tido sofrido do mesmo problema. “Eu não almoçava nem jantava, mas era capaz de acabar com três barras de chocolate tamanho família de uma vez”, conta Ana Cláudia.

Se ela tivesse uma torta na frente, comia inteira. Se fosse uma caixa de bombons, deixava só os papéis. “Só parava quando acabava.” Escondia também latas de leite condensado no armário para o caso de sua mãe proibi-la de comer doces. As irmãs conseguiram se curar no Vigilantes do Peso. Emagreceram -Ana Cláudia perdeu 20 kg, a caçula, 10kg-, mas não abandonaram a dieta. “O mais importante é cuidar da cabeça”, diz a médica. Bicicleta e chocolate

A personal trainer Mariana Vaccari, 21, 1,65 m e 55 kg, é um exemplo de magra que foi vítima da compulsão alimentar. Atleta e pregadora de hábitos saudáveis à mesa, Mariana “saía do sério” quando o assunto era chocolate. “Começava com inofensivas trufas, passando por barras e caixas de bombons”, conta.

O BED apareceu aos 17 anos, quando, em tardes ociosas, levava para casa o “fruto proibido” para comê-lo escondido. “Em meia hora, acabava com uma caixa de bombom sem perceber e continuava me sentindo vazia”, diz.

Como consequência das crises, ganhou 12 kg. “Achava que o chocolate era a única coisa que podia me dar prazer. Era uma auto-punição”, afirma.

Depois de entrar para um grupo de reeducação alimentar, Mariana conseguiu contornar as crises, conscientizando-se das causas e também reforçando os exercícios aeróbicos.

Como as causas ainda não são conhecidas, os especialistas sugerem um tratamento multidisciplinar, com terapia associada a remédios -normalmente antidepressivos- além de orientação nutricional e avaliação endocrinológica.

Os Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) acreditam que o episódio da compulsão se dê em três minutos -muitas vezes, “dá um branco” e a pessoa não registra o que está acontecendo. Controlado esse período, a crise pode ser contornada. No momento do sufoco, a advogada Renata, do grupo, diz que telefona para algum amigo para desabafar. Não resolvendo o problema, lê livros sobre compulsão e, quando “se sente totalmente impotente”, reza.

Já a assistente social Dinéia, sua colega no grupo, faz um compromisso de abstinência de uma semana (um dos métodos do CCA) e se propõe a contar a todos se comer uma mísera balinha. Para ela, também surte efeito sair para caminhar- mas, é claro, sem levar dinheiro.

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