INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZONIA parte 2 – Carlos Chagas: Ato Explícito de Pirataria

ESSA CARTA CHEGOU ENCAMINHADA AO NOSSO E-MAIL. CONSIDERAMOS A MESMA DE EXTREMA RELEVANCIA, E ASSIM RESOLVEMOS PUBLICÁ-LA AQUI, NA ÍNTEGRA.

Ato Explícito de Pirataria

por CARLOS CHAGAS

BRASÍLIA – Completam-se duas semanas desde que George Bush, em debate com Al Gore, declarou que as dívidas externas dos países em desenvolvimento, quer dizer, pobres, devem ser pagas pela venda de suas florestas tropicais. Traduzindo: o Brasil, o Equador, o Peru, a Colômbia e a Venezuela devem pagar suas dívidas entregando a Amazônia aos credores.

Para quem julgava paranoia essa história da internacionalização da região, eis mais uma evidência de que estão não apenas de olho na floresta, mas anunciando quando e como tomá-la. O adversário de Bush pensa igual. São de Al Gore, expressos há alguns anos, conceitos como o de que a Amazônia pertence à humanidade e de que a soberania brasileira é relativa.

Quem sugeriu foi Thatcher

A primeira proposta de troca de bens naturais por dívidas deveu-se a Margaret Thatcher, quando era primeira-ministra
da Inglaterra. A bruxa não fez por menos, exortando as nações do Terceiro Mundo a vender suas riquezas. De lá para cá, foi uma sucessão de pirataria explícita, da qual não escaparam os “esquerdistas” François Miterrand, da França, Felipe Gonzales, da Espanha e até Mikail Gorbachev, enquanto existia a União Soviética. Com a participação decisiva, também, de Al Gore e até de Bill Clinton, sem esquecer John Major, também da Inglaterra. Quer dizer, a rapinagem supera as ideologias.

O grave no caso Bush é que não há saída, pois tanto ele quanto o oponente pensam da mesma forma, e um dos dois, em poucas semanas, será presidente da maior potência mundial, aquela que defende seus valores e seus interesses através da utilização de mísseis, tanques, frotas e
esquadrilhas. Não se trata de imaginar os “marines” pulando de pára-quedas em Manaus logo depois do Natal, porque esses métodos só são utilizados em situações extremas. Existem outros, mais eficazes, como controlar a economia dos países pobres, cooptar suas elites e comprar seus governos.

Internacionalização visível

O processo de internacionalização da Amazônia avança a olhos vistos. Nem é preciso citar a campanha promovida por organizações não-governamentais de toda espécie, subsidiadas diretamente por Washington ou pelas multinacionais.

Acusam o Brasil de destruir o pulmão do mundo, de queimar um campo de futebol por segundo e de poluir as águas da bacia amazônica. Exigem que a floresta fique intacta, quer dizer, imobilizadas suas riquezas do subsolo e da flora. A criação de nações indígenas independentes vai de vento em popa, com a delimitação de áreas que, por pura coincidência, localizam-se nas fronteiras nacionais e contém reservas de minerais nobres.

Seria preciso que o Brasil acordasse, mas como o governo dorme em berço esplêndido, ignorando até a mais recente obscenidade proposta por George W. Bush, o remédio será alertar a sociedade. Esperar que ela se mobilize, a começar pelos militares, aqueles que conforme a doutrina globalizante “perderiam qualquer guerra, são inócuos, desimportantes e se constituem num sumidouro de recursos públicos.” O mais triste é a opção que parece restar: de um lado, o silêncio de quem deveria estar gritando, e, de outro, a conivência de quantos imaginam beneficiar-se com as migalhas caídas da mesa do banquete dos poderosos.

Tome-se, por exemplo, a equipe econômica. Alguém já ouviu alguma palavra do ministro Pedro Malan sobre a necessidade de salvaguardarmos nossa soberania?

Nosso território ? Nem dele nem do chefe dele.

Pregação no deserto

Bissextamente um general alerta o auditório qualificado da Escola Superior de Guerra ou o Itamaraty, ensaia algum tipo de reação verbal, mas, sem o apoio da mídia, as denúncias caem no vazio. Estamos caminhando para uma situação da qual não haverá retorno, iniciada com a alienação de patrimônio estratégico, a abertura de nossas fronteiras ao capital especulativo predador e a extinção de incentivos aos nossos produtos de exportação. Um belo dia acordaremos sabendo que a Amazônia não nos pertence mais, que alguns tecnocratas acabaram de vendê-la em troca de uma parte de nossa dívida externa sempre multiplicada. Que as Nações Unidas reconheceram a nação independente dos ianomâmi e que nos mapas da América Latina distribuídos pelas escolas do primeiro mundo seus pimpolhos aprendem que a Amazônia e o Pantanal pertencem “à humanidade”.

O que esperar, se o governo nada faz além dos retóricos estrilos do presidente contra as discriminações comerciais, quando vai para o Hemisfério Norte?

Valeria um grito de indignação, seguido de medidas concretas pelo menos para desenterrar da areia as cabeças dos nossos avestruzes governamentais, empresariais e até intelectuais. O que está em jogo é a soberania nacional. Em risco, a integridade territorial conquistada com tanta luta, tanto suor e tanto sangue. Fica para mais tarde imaginar como punir os vendilhões da Pátria, tornando-se prioridade absoluta impedir a venda de nossas florestas tropicais.

 

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