A dieta genética

Médicos e nutricionistas estudam qual é a alimentação mais adequada para cada indivíduo de acordo com o resultado do seu exame genético

Imagine entrar no consultório do pediatra e descobrir depois de um simples exame de DNA que seu bebê tem um dos genes associados à obesidade. Com essa informação, um nutricionista poderia receitar o cardápio genético personalizado para prevenir o ganho de peso na criança. Parece ficção científica, mas esse futuro está muito próximo. Cientistas estão pesquisando de que forma a combinação dieta-gene interfere na saúde.

Estudos mostram que pelo menos 33% dos casos de câncer de mama, e 66% dos registros de tumores de cólon e reto, no Brasil, poderiam ser prevenidos com dieta saudável. E os médicos já sabem que a maioria dos cânceres não é causada apenas por mutações genéticas, mas sim por uma série de fatores, incluindo estilo de vida e ambiente. O que eles querem é usar os alimentos como antídotos

Personalizada – Na prática, é possível seguir dietas para controlar ou aumentar a proteção contra doenças vasculares, diabetes, osteoporose, obesidade, entre outros problemas de saúde. O que os cientistas dedicados ao estudo da nutrigenômica – área da ciência que estuda a interação entre a nutrição e os genes – querem é se antecipar à doença. Isso significa citar um cardápio personalizado a partir da identidade genética de cada individuo  Para especialistas do Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, a nutrigenômica é o futuro na prevenção das doenças.

“Há evidências de que certos nutrientes tem efeito mais protetor contra o câncer do que outros. Provavelmente, nos cinco anos ou mais, dietas serão elaboradas com esses objetivos  Muitas pessoas sabem que as frutas, as fibras e outros vegetais fazem bem à saúde. A nutrigenômica determinará quais os alimentos mais adequados a cada pessoa”, explica o médico John Milner, chefe do Departamento de Nutrição e Pesquisa na Prevenção de Câncer do Instituto.

Para o clínico Richard Shames, especialista em medicina holística, as pesquisas sobre a interação entre dieta e genes são tão importantes quanto a descoberta da penicilina. “Dependendo do exame genético, talvez uma pessoa tenha que comer mais brócolis do que tomates para prevenir ou tratar uma mesma doença”, diz. Shames.

O cientista Wim van Dokkum do Instituto de Pesquisa em Nutrição e Alimentos da Holanda, acha que a ideia da dieta genética só traz vantagens. Quando uma criança nascer, um exame de DNA poderá mostrar, por exemplo, a ausência de um gene específico essencial para a produção de uma enzima capaz de digerir a lactose dos produtos lácteos. Assim, os pais serão orientados a não oferecer leite a ela. A nutrigenômica identificará a suscetibilidade, as disfunções metabólicas e a dieta adequada para redução dos fatores de risco.”, diz Dokkum.

As pesquisas mostram que há mais de quatro mil doenças associadas a defeitos genéticos. Nos melhores laboratórios especializados em medicina genética já é possível  a partir de uma única amostra de sangue, saber se a pessoa tem propensão para desenvolver doenças como rim policístico, aterosclerose, câncer e outras alterações em que há forte influência hereditária.

E o que é melhor: os exames de probabilidade podem ser feitos ainda na infância, antes que a doença tenha se manifestado, aumentando a chance de controle. Esse tipo de análise custa cerca de R$ 300, quase metade do preço do teste de paternidade. Mas até que ponto uma dieta genética personalizada seria útil ainda é uma incógnita.

“É preciso levar em conta vários aspectos como fatores ambientais. Ainda não dá para afirmar se uma dieta personalizada impediaria o aparecimento de doenças como câncer ou demência”, afirma o bioquímico Martin Wittle do laboratório Genomic.

Segundo o pesquisador Décio Brunoni, professor de genética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), não há dúvidas de que os genes que regulam o metabolismo serão todos conhecidos. Isso não significa que as pessoas irão mudar seus hábitos.

“Os estudos sobre as interações entre dieta e genes já permitem um aconselhamento dietético para prevenir doenças. Por exemplo, o consumo de ácido fólico por gestantes, com uma deficiência específica, reduz o risco de terem bebês com deformidade no crânio”, disse.

Batatas e aminoácidos – O geneticista Mariano Zalis, professor adjunto do Programa de Biologia Molecular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRG), explica que a nutrigenômica investiga como geneticamente reagimos ao entrarmos em contato com um alimento, no que diz respeito ao metabolismo e à tolerância imunológica.

“Se colocarmos as células do fígado de uma pessoa em contato com determinado tipo de gordura, muitos genes serão ativados genes que até não conhecemos. A resposta dependera da carga genética”, explica.

Zalis acrescenta que a nutrigenômica poderá, por exemplo, contribuir com o desenvolvimento de alimentos mais nutritivos. Na Holanda, pesquisadores criaram batatas, milho e ervilhas mais nutritivas e que produzem mais aminoácidos essenciais como tiotina, cisteína e lisina, sem afetar o ambiente. Outros cientistas estão desenvolvendo alimentos que possam aumentar a resistência à bactérias que causam envenenamento, como salmonela e botulismo. Existe ainda a possibilídade de alimentos com vacinas.

Carne Vermelha – A nutricionista Beatriz Jardim, do lnstituto Nacional de Câncer (INCa), acredita que se os pesquisadores conseguirem mesmo descobrir de que forma todos os alimentos interagem como os genes, a dieta será mais adequada. Estudos estimam que 30% a 40% dos casos de câncer no mundo poderiam ser prevenidos com medidas dietéticas, sobretudo tumores de esôfago, estômago, cólon, reto, pulmão, mama e próstata.

“Sabemos que alimentos como alho, cítricos, soja, repolho, tomate e brócolis têm efeito protetor. Por outro lado, a dieta rica em gordura saturada, latícinios integrais, produtos defumados ou embutidos e carne vermelha contribui para a formação de tumores. Até a forma como preparamos e acondicionamos os alimentos tem influência. Por enquanto, não temos como receitar a dieta mais adequada de acordo com o perfil genético”, diz.

Também o nutricionista Nivaldo Barrosos Pinho, do INCa, diz que ainda é cedo para pensar na hipótese de dieta baseada no estudo de DNA. “Esses estudos ainda são especulativos. É preciso levar em conta fatores ambientais, sociais e culturais.

A nutricionista Joyce do Valle, professora da Universidade FederaI Fluminense (UFF-RJ) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), conta que a primeira Conferência Internacional sobre o tema foi em 2001. Ela afirma que as pesquisas estão progredindo. “A perspectiva é de uma ação preventiva e uma possibilidade de maior certeza no diagnóstico evitará problemas como desnutrição obesidade, diabetes tipo 2 e alterações no sangue. A vantagem da nova dieta é a adoção precoce de alimentação adequada às possíveis doenças que as pessoa possam vir ter.”

 

 Fonte: Jornal do Comércio /Recife /PE

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