Embrapa esclarece sobre a instituição após lamentáveis afirmações de Drauzio Varella

Esclarecimento (18/08/2010)

Em resposta à entrevista concedida pelo médico Drauzio Varella à Revista Época, a Embrapa vem a público esclarecer que:

A Embrapa Amazônia Oriental, Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, vem trabalhando, ao longo dos seus 70 anos de história, na geração, adaptação e validação de conhecimentos e tecnologias, respeitando os saberes e tradições do povo brasileiro.

Como instituição de referência na pesquisa com Plantas Medicinais, a Unidade da Embrapa, sediada em Belém-Pará, possui uma linha de pesquisa que trata de recursos genéticos, com trabalhos científicos nas áreas de etnobotânica e biotecnologia voltados às plantas medicinais. Esses estudos envolvem a coleta de material genético e formação de bancos de germoplasma; caracterização fitoquímica de plantas; conservação in situ e ex situ; identificação botânica; e melhoramento genético.

O Horto de Plantas Medicinais da instituição é uma coleção de plantas (banco de germoplasma) utilizada para o desenvolvimento de pesquisas e transferência de tecnologias para preservar a variabilidade genética das plantas amazônicas; caracterizar as espécies de plantas; garantir a sua identificação correta; e assegurar seu cultivo e manipulação adequados por parte das comunidades amazônicas. Não se trata, portanto, de uma farmácia viva.

O trabalho coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental e apresentado ao médico Drauzio Varella, em Belém-PA, faz parte de projeto que envolve uma equipe multidisciplinar de médicos, engenheiros agrônomos, farmacêuticos, fisioterapeutas, biólogos e bioquímicos da Embrapa, Universidade Federal do Pará, Universidade Federal de Lavras e Centro Universitário do Pará. Não há ideologia, o trabalho é pautado no conhecimento científico aliado ao conhecimento tradicional.

O engenheiro agrônomo citado na entrevista do médico possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia, mestrado em Agronomia (Fitotecnia) pela Universidade Federal de Lavras, Especialização em Biotecnologia de Plantas pela JICA-Japão e doutorado em Agronomia (Fitotecnia-Biotecnologia de Plantas) pela Universidade Federal de Lavras (MG), já tendo recebido três Prêmios Finep de Inovação Tecnológica em diferentes categorias. Tem larga experiência na área de Fitotecnia, Recursos Genéticos e Biotecnologia, com ênfase em Biologia Celular e Propagação de Plantas, atuando principalmente nos seguintes temas: micropropagação, plantas medicinais, cultura de tecidos vegetal e conservação genética. É professor do curso de doutorado em Agroecossistemas da Amazônia, da Universidade Federal Rural da Amazônia, do curso de especialização lato sensu Cultivo, Manejo e Manipulação de Plantas Medicinais da Universidade Federal de Lavras.

O pesquisador trabalha há 18 anos com plantas medicinais e, entre suas diversas publicações, lançou recentemente a obra “Plantas Medicinais: do cultivo, manipulação e uso à recomendação popular”, em parceria com a Universidade Federal de Lavras. A obra é uma reunião de informações científicas atuais, balizadas no conhecimento de várias áreas do conhecimento (medicina, fisioterapia, farmácia e bioquímica, biologia e agronomia), aliadas à sabedoria popular relacionada à tradição de agricultores, caboclos e índios da Amazônia.

As informações apresentadas ao médico Drauzio Varella por ocasião de sua vinda à sede da Embrapa em Belém, não se tratam portanto de informações sem pesquisa, sem conhecimento, sem ciência. Elas são fruto de um trabalho desenvolvido em uma das mais antigas instituições de pesquisa do Brasil, protagonista da produção de Ciência e Tecnologia em prol da sociedade brasileira.

 

Área de Comunicação Empresarial

Embrapa Amazônia Oriental

Contatos: (91) 3204-1152 / 9112-4688

ace@cpatu.embrapa.br

O TEXTO ACIMA É DE USO E RESPONSABILIDADE DA ÁREA DE COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL DA EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL.


Dráuzio Varella e a Fitoterapia no Brasil II

Dráuzio Varella e a Fitoterapia no Brasil II

“Não há porque envergonhar-se de tomar do povo o que pode ser útil à arte de curar.”

Hipócrates (460-380  a.C.)

Há muito tempo a Antropologia se recusa a utilizar categorias inadequadas para estudar e compreender o pensamento popular à respeito da saúde e da medicina. Os folcloristas no passado se referiam à medicina popular como superstições, crendices, práticas consideradas abomináveis por médicos ou pessoas de formação acadêmica. Esta rejeição pejorativa do pensamento popular ocorre sem nenhuma análise de sua função social, já que as práticas da medicina popular necessitam melhores observações e não podemos destacá-las pura e simplesmente sem estudar o seu contexto cultural, sem participar da vida, da interação com aqueles que nos deram os informes, geralmente extraídos e exibidos em função de sua estranheza ou seu exotismo. (1)

Muitas práticas consideradas crendices no passado, atualmente são plenamente explicáveis cientificamente. O uso da laranja mofada ou do queijo embolorado, por exemplo, para tratar feridas tem sido uma prática muito mais antiga do que a descoberta da penicilina por Alexander Fleming (1881-1955)  em 1932. Atualmente sabemos que a laranja abandonada no fundo do quintal, quando apodrece é atacada por um fungo do mesmo gênero (*) do bolor utilizado por Fleming para produzir o primeiro antibiótico. E o raizeiro raspa a casca da laranja onde estava o bolor e passa externamente nas feridas crônicas. Em pouco tempo a inflamação cede e começa o processo de recuperação do paciente. Da mesma forma, em Cesárea, antiga cidade fundada pelos romanos, os armênios tratavam as feridas atônicas, cobrindo-as com queijo mofado, também produzido por um bolor semelhante ao bolor que deu origem à penicilina. (2)

A vacinação anti-variólica, descoberta por Edward Jenner (1749-1823) em 1798, responsável pela erradicação da varíola em todo o mundo, uma doença extremamente virulenta e mortal, somente foi possível graças aos próprios camponeses na Inglaterra que, pelo menos, a partir de 1675, se vacinavam, inoculando em si mesmos as secreções do gado atingido pela varíola bovina. Isto porque eles sabiam que a cow-pox (varíola bovina) era benigna e não matava como a varíola humana. Inclusive o próprio Jenner, médico que, ao atender uma camponesa, e suspeitar de que estivesse com varíola humana, obteve como resposta, e com extrema segurança, o seguinte: “ Não posso ter varíola, porque já tive cow-pox.” Esta foi a informação que Jenner necessitava para descobrir o princípio da vacina e iniciar o combate a esta terrível doença de maneira rigorosamente científica. Graças à uma crendice de origem popular, Dr. Dráuzio Varella!

Mas não somente os camponeses ingleses conheciam esta técnica. A inoculação da varíola a fim de provocar uma forma atenuada da mesma era conhecida secularmente na China. A crosta de uma  pústula era pulverizada e introduzida no nariz ou insuflada por meio de um tubo de bambu até que se formasse uma erupção local. Os armênios também se vacinavam muitos séculos antes de Jenner. O padre Lucas Indjidjian, em seu livro “Darap atum” (História dos Séculos), publicado em 1827, descreve as minúcias do método nos seguintes termos: “Os armênios praticavam, há muito tempo, a vacinação contra a varíola, de modo empírico. Consistia seu método em recolher as crostas das pústulas de varíola na fase de descamação e conservá-las nos resíduos de passas de uvas. No momento oportuno, administravam-se essas passas às pessoas que se pretendia preservar da varíola. Mais tarde, os armênios puseram em prática o método de inoculação por incisão ou fricção, procurando levar o agente portador da varíola por baixo da pele do indivíduo são. Este método profilático foi introduzido em Constantinopla por emigrantes armênios no ano de 1718. Lady Montague, esposa do embaixador inglês junto ao sultão, experimentou sua utilidade em seu próprio filho”. (2)

Assim os exemplos são inumeráveis de supostas crendices populares que, com o desenvolvimento da ciência, e a superação dos preconceitos por parte dos cientistas, acabam sendo esclarecidas e enaltecendo a grandeza do pensamento médico popular. O próprio Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) afirmava que “sábios tem menos preconceitos do que os ignorantes, porém ficam mais presos aos que possuem.” Por isso é muito difícil convencer um médico preconceituoso e limitado como Dráuzio Varella. O paradigma cartesiano está tão profundamente arraigado e internalizado em seu pensamento que o torna obcecado pelas suas convicções pseudo-científicas.

Sabemos hoje que inúmeras plantas medicinais tiveram suas propriedades medicinais descobertas em ambiente não-científico. A planta chinesa ma huang (**) que contém efedrina (alcalóide utilizado como agente cardiovascular) foi empregada empiricamente pelos médicos nativos, hoje em dia, chamados de médicos de pés-descalços, durante mais de 5.000 anos! O receituário chinês menciona que a planta é útil como antipirética, sudorífica, estimulante circulatório e sedativo da tosse. E eu pergunto, isto também era uma crendice, Dr. Dráuzio Varella?

Na Inglaterra, as folhas da dedaleira (***) era utilizada sob a forma de infusão para o tratamento da hidropisia (ascite) provocada pela insuficiência cardíaca. Esta prática popular foi recolhida pelo médico inglês William Withering (1741-1799) em 1771, que documentou toda esta experiência em livro publicado na época. Entretanto somente em 1910 a ação da digitalina (hoje digoxina), glicóside contido na planta, sobre o músculo cardíaco foi   explicada de forma científica e até hoje vem sendo aplicada com grande aceitação pela medicina científica e até mesmo pelo médico Dráuzio Varella.

O isolamento da vitamina C e a definitiva explicação das causas do escorbuto são atribuídas a Albert Szent-Gyorgi (1893-1986) e Charles King (1896-1988)  em 1932. Entretanto, o tratamento do escorbuto com cítricos era conhecido desde 1498, quando os marinheiros de Colombo foram acometidos de escorbuto, os homens quase moribundos, pediram para serem deixados numa ilha. Quando meses depois, Colombo retornou à ilha, encontrou seus homens vivos e saudáveis. Durante o período tinham se alimentado de frutos tropicais existentes na ilha e por isso a ilha passou a ser chamada de “Curaçao”. Em 1593, Pietro Mathiolus (1501-1577) publicou, na Europa, uma receita em que preconiza o emprego dos frutos da rosa silvestre (****) contra as hemorragias dentárias, assegurando que o pó dentifrício de rosa silvestre fortalece as gengivas. Hoje sabemos que o fruto da rosa silvestre possui altos teores de vitamina C (900 mg). Portanto uma crendice fitoterápica perfeitamente esclarecida.

Um fitoquímico brasileiro, Prof. Walter Mors, inclusive, reconheceu que na verdade só podemos admirar a experiência milenar de povos primitivos que, muito antes do surgimento da ciência moderna, descobriram, por exemplo, todas as plantas portadoras de cafeína: o chá na Ásia, o café e a noz-de-cola na África, o guaraná e o  mate na América. E o efeito estimulante da cafeína nem é tão flagrante que possa ser reconhecido num simples mascar de folhas ou sementes. (3)

Segundo Jan Muszynski, atualmente conhecemos 12.000 espécies de plantas medicinais que são usadas por diferentes povos em todo o mundo. Convém acrescentar que essas espécies são as selecionadas por diversos povos durante milhares de anos. A ciência moderna não descobriu nenhuma planta nova medicinal ou comestível, mas somente estuda e introduz as já conhecidas popularmente. (4)

Apesar de tudo, o menosprezo pelo saber popular permanece. Para a ciência cartesiana, o único saber válido que existe é apenas o pensamento científico e com isso os demais saberes são na verdade não-ciência, e se um raizeiro descobre alguma propriedade medicinal em uma planta com que convive há anos, este conhecimento faz parte da biodiversidade na qual está inserido, portanto passível de expropriação por quem possua direitos sobre a área. Tal como no período dos grandes descobrimentos, os direitos são concedidos muito antes da conquista efetiva através da ocupação do território. (5)

Entretanto a história da ciência tem mostrado que as grandes descobertas científicas ocorrem fora do espaço teórico-científico ou acadêmico. No século XIX, todos os historiadores da química reconheceram o furor experimental dos alquimistas e acabaram rendendo homenagem a alguns descobrimentos positivos, tais como o ácido sulfúrico e o oxigênio, ainda que para eles não fosse uma descoberta. René Dubos, inclusive, talvez o  mais importante biólogo e cientista do século XX, afirma que as principais invenções que deram impulso surpreendente à ciência foi promovida por mecânicos, curiosos, bricoleurs, inventores, etc. (6)

No livro “O Pensamento Selvagem”, Claude Lévi-Strauss reconhece a legitimidade e a grandeza do saber indígena e popular.  Segundo ele, o pensamento selvagem não é uma estréia, um começo, um esboço, parte de um todo não realizado; na verdade forma um sistema bem articulado; independente, neste ponto, desse outro sistema que constituirá a ciência (cartesiana). Cada uma dessas técnicas, muitas delas oriundas do período neolítico, a cerâmica, a tecelagem, agricultura, o tratamento de doenças com plantas  e a domesticação de animais supõe séculos de observação ativa e metódica, hipóteses ousadas e controladas, para serem rejeitadas ou comprovadas por meio de experiências incansavelmente repetidas. Por isso foi preciso, não duvidamos, uma atitude de espírito verdadeiramente científica, uma curiosidade assídua e sempre desperta, uma vontade de conhecer pelo prazer de conhecer, porque uma pequena fração apenas das observações e das experiências poderia dar resultados práticos e imediatamente utilizáveis. As diferenças entre o saber científico e o saber selvagem ou popular se situam não ao nível dos resultados, mas sim quanto à estratégia para chegar ao conhecimento, o saber popular muito perto da intuição sensível e o outro mais afastado. (7)

E com isso toda a criatividade desenvolvida por raizeiros, parteiras, mateiros, pajés, pais-de-santo, rezadores, curadores de cobra, ao longo de uma vivência pessoal acumulada através dos anos, sem nenhum apoio externo institucional, agora está sendo valorizada e expropriada com tenacidade pelos grandes laboratórios. Afinal de contas, uma tradição não expressa senão a longa e penosa experiência de um povo. Nasce da batalha travada para manter a sua integridade ou, para dizê-lo com mais simplicidade, da sua luta para sobreviver, buscando na Natureza remédio para seus males.

Com certeza o aumento da longevidade ocidental e oriental se deve ao avanço da ciência e do conhecimento, mas não apenas dos medicamentos farmacêuticos, pois os recursos terapêuticos da medicina alopática tiveram um papel muito pequeno nos resultados obtidos. O conjunto dos atos médicos modernos é impotente para reduzir a morbidade global. (8)

Na verdade, as moléstias infecciosas, tais como, tuberculose, disenteria, tifo que dominaram o nascimento da era industrial vinham gradativamente reduzindo sua incidência, depois da Segunda Guerra  Mundial, antes do emprego dos antibióticos.  Quando a etiologia dessas moléstias foi compreendida e lhes foi aplicada uma terapêutica específica, elas já tinham perdido muito de sua atualidade. É possível que a explicação se deva em parte à queda natural de virulência dos microrganismos e à melhoria das condições de habitação e da disseminação de redes de esgoto e de água tratada, mas ela reside, sobretudo, e de maneira muito nítida, numa maior resistência individual, devida à melhoria da nutrição e conseqüentemente do fortalecimento do sistema imunológico humano.

Portanto o Dr. Dráuzio Varella se equivoca quando atribui a maior expectativa dos povos orientais aos avanços da medicina e aos antibióticos. As estatísticas mostram que  os índices de morbidade dos povos orientais  são bastante inferiores aos padrões ocidentais. A diferença fundamental reconhecida mundialmente está no regime alimentar e no estilo de vida e principalmente no consumo maior de proteínas de origem vegetal.

Por outro lado, é necessário reconhecer os grandes avanços tecnológicos obtidos pela biomedicina no mundo inteiro. Porém sabemos todos, que as pesquisas e os investimentos são realizados por grandes empresas que monopolizam o mercado mundial e, como tem propósitos lucrativos, somente investem no tratamento de doenças que lhes permitam elevada lucratividade. Por isso as doenças mais comuns dos países do terceiro mundo recebem pouca atenção e pesquisas no sentido de produzir novos medicamentos eficazes para combatê-las. Na verdade os medicamentos utilizados no tratamento de doenças degenerativas, como o câncer, o diabetes, as doenças cardio-vasculares, e os equipamentos eletrônicos de monitoramento de pacientes terminais são o grande foco da indústria farmacêutica e médica.  E o raciocínio de seus dirigentes chega a ser bastante simplório, tal como a declaração de um financista da indústria farmacêutica, numa entrevista ao jornal Herald Tribune (01/03/2003): “O primeiro desastre é se você mata pessoas. O segundo desastre é se as cura. As boas drogas de verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo.” Sem comentários. (9)

Com relação à avaliação da eficácia dos medicamentos fitoterápicos promovida pelo quadro “É Bom pra Quê?” do Fantástico, é realmente lamentável que um médico como Dráuzio Varella não saiba que em epidemiologia é necessário analisar uma grande quantidade de resultados para se chegar a uma conclusão. Inclusive, sabemos todos, que uma clínica não pode ser avaliada pelo número absoluto de óbitos.  Deve-se comparar os resultados com o número médio de óbitos mensal para saber se  alguma anormalidade  está ocorrendo. Apenas quando o número de óbitos está muito acima da média, as autoridades médicas acionam o alarme e começam a investigar os motivos que extrapolaram à média esperada.

Trata-se de desonestidade intelectual condenar o uso da babosa (Aloe Vera) no tratamento do câncer utilizando um caso negativo isolado. Medicina não é matemática. Para obter uma avaliação válida do uso da babosa no tratamento de câncer, o médico/repórter Dráuzio Varella deveria buscar os resultados médios obtidos nos diferentes postos de saúde que a utilizam ou até mesmo na extensa bibliografia existente não somente no Brasil, mas no mundo inteiro.

Se fosse necessário avaliar os resultados do tratamento de uma doença por um medicamento sintético teríamos, no campo da ciência, de agir desta maneira. Porque no caso da fitoterapia é diferente? Dois pesos e duas medidas.

Com relação à necessidade de pesquisas com as plantas medicinais a Universidade Brasileira desenvolve, há vários anos, padrões de avaliação científica das plantas medicinais. Desde a realização do 1o Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil em 1967, quando foram apresentados 22 trabalhos científicos até o XVII o Simpósio em Cuiabá em 2002, que recebeu 870 trabalhos científicos, houve um incremento de 3800 % (10). Talvez ainda seja muito pouco, para um país com as dimensões do Brasil. Mas estamos buscando um caminho, com dificuldades, é claro. Portanto são inúmeros os pesquisadores no Brasil habilitados para elaborar projetos e pesquisas sobre plantas medicinais. E nós não necessitamos da ajuda do Dr. Drauzio e muito menos do Fantástico para fazer esse trabalho de avaliação. E, além disso, o Dr. Dráuzio é um simples médico/repórter sem experiência e habilitação para fazer esse tipo de trabalho, inclusive sem título de mestrado. Na verdade sua formação de médico não lhe permite isso. A pesquisa nesta área é fundamentalmente multidisciplinar e o Dr. Dráuzio teria com certeza um espaço para atuar na equipe, se tivesse alguma especialização na área, e se examinarmos seu currículo Lattes, verificamos uma escassa experiência de pesquisas com plantas medicinais. Sua alegação de que pesquisa há 15 anos na Amazônia, não lhe garante direito algum para decidir o que deve ser feito. E porque estas pesquisas não são publicadas? Por isso as posições do Dr. Dráuzio são ridículas.

Qualquer pesquisador da área reconhece a necessidade de várias etapas de pesquisa para validar a ação medicinal de uma planta. Mas quem vai decidir sobre a metodologia adequada para sua validação não pode ser o Dr. Dráuzio. Trata-se de uma inversão de valores e de interesses escusos.

A enorme quantidade de críticas surgidas após a entrevista do Dr. Dráuzio à revista Época de 13/08/2010 explicitam a indignação de pacientes e profissionais da área de pesquisa de plantas medicinais no Brasil.

Como a motivação pela pesquisa de plantas medicinais e sua defesa é muito grande devemos reconhecer que todos objetivam encontrar uma alternativa válida para cuidar de nossa saúde. E diga-se a verdade, não somente com plantas medicinais, mas também buscando técnicas terapêuticas milenares, como a acupuntura, o shiatsu, a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica, a auto-hemoterapia, a iridologia, a homeopatia,  a antroposofia, o psicodrama, o naturismo, a aromaterapia, a musicoterapia, a meditação transcendental, a yoga, a biodança e inúmeras outras terapias.  E essa procura não ocorre por acaso, não é mesmo?

Trata-se apenas da busca desesperada de uma nova filosofia médica que compreenda o ser humano de maneira integral.

As pessoas não suportam mais serem fragmentadas e segmentadas tal como  as inúmeras peças de um quebra-cabeça. Segundo a Organização Mundial da Saúde a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças. Eu complementaria acrescentando ao texto o bem estar cultural e espiritual.

E a biomedicina alopática ou convencional ao invés de atender a estas necessidades fundamentais do ser humano fragmenta ainda mais, criando novas especialidades médicas apenas para atender às necessidades do médico e nunca as do paciente e, com isso,  a cada dia existem mais médicos que sabem muito sobre muito poucas coisas e que acabam por perder de vista o todo, o homem enfermo. Poder-se-ia chamar isso de fragmentação da responsabilidade frente ao paciente. (11) Com isso estabelecem um campo cirúrgico no corpo do paciente e esquecem todo o resto. O paciente é apenas um objeto que carrega uma enfermidade.

Quando alguém adoece, seu sistema imunológico está em baixa, com pouca resistência aos micróbios ou germes invasores de seu corpo que se aproveitam da fragilidade para se reproduzir e com isso gerando os sintomas da doença.  Como consequência a doença depende do que Louis Pasteur (1822-1895) definia, pouco antes de falecer, das condições do “terreno”, favorável ou não ao desenvolvimento das colônias microbianas.

A partir desta noção, aceita pelos que defendem as medicinas integrais, o paciente necessita urgentemente nesse momento de buscar a restauração do equilíbrio de todo o organismo e não apenas da supressão de sintomas incômodos, aparentemente o mais afetado pela enfermidade. E é por isso que não basta suprimir sintomas, combater as dores ou a febre com analgésicos, levantar o paciente da cama, ou no jargão economicista, restaurar apenas a força de trabalho, característica fundamental da terapêutica alopática. ´

É necessário buscar terapêuticas que ajudem a recuperar o sistema imunológico. E as medicinas integrais caminham neste sentido e, com certeza, serão a medicina do futuro, que cada vez fica mais próximo. Quem viver, verá.

Prof. Douglas Carrara

Antropólogo, Professor, Pesquisador de medicina popular e fitoterapia no Brasil

www.bchicomendes.com

djcarrara@hotmail.com

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Bibliografia Consultada:

(1) ARAUJO, Alceu Maynard (1913-1974):

1979 – Medicina Rústica – Cia. Ed. Nacional – São Paulo – 301 p.

(2) MISSAKIAN, B.:

1951 – A Medicina Popular Armênia – in Actas Ciba – Ano XVIII – N. 1 – ABR/1951 – pp. 33-38

(3) MORS, Walter (1920-2008):

1982 – Plantas Medicinais – in Ciência Hoje – n. 3 – NOV/DEZ/1982 – Rio – pp. 14-19.

(4) MUSZYNSKI, Jan:

1948 – Volta à Fitoterapia na Terapêutica Moderna – in Revista da Flora Medicinal – Ano XV – n. 9 – SET/1948 – Rio – pp. 363/384.

(5) SHIVA, Vandana:

2001 – Biopirataria – A Pilhagem da Natureza e do Conhecimento – Ed. Vozes – Petrópolis – 152 p.

(6) DUBOS, René (1901-1982):

1972 – O Despertar da Razão – Ed. Melhoramentos/Edusp – São Paulo – 194 p.

(7) LÉVI-STRAUSS, Claude (1908-2009):

1970 – O Pensamento Selvagem – Cia. Ed. Nacional – São Paulo – 331 p.

(8) ILLICH, Ivan (1926-2002):

1975 – A Expropriação da Saúde – Nêmesis da Medicina – Ed. Nova Fronteira – Rio – 196 p.

(9) ALMEIDA, Eduardo & Luís PEAZÊ:

2007 – O Elo Perdido da Medicina – Ed. Imago – Rio – 250 p.

(10) FERNANDES, Tânia Maria:

2004 – Plantas Medicinais – Memória da Ciência no Brasil – Fiocruz – Rio de Janeiro – 260 p.

(11) JORES, Arthur (1901-1982):

1967 – La Medicina em la Crisis de Nuestro Tiempo – XXI Ed. – México – 80 p.

CARRARA, Douglas:

1995 – Possangaba – O Pensamento Médico Popular – Ribro Soft – Maricá – 260 p.

DIEPGEN, Paul:

1932 – Historia de la Medicina – Ed. Labor – Barcelona – 435 p.

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(*) Penicillium digitatum

(**) Ephedra vulgaris

(***) Digitalis purpurea

(****) Rosa canina

Palestra sobre plantas medicinais com Prof. Douglas Carrara no Rio de Janeiro

Dia 20/09/2010 ( 2ª feira ) as 19:00 horas na Estação Paraíso – Centro de Qualidade de Vida.
Venha assistir a palestra sobre ervas medicinais com o antropologo, botanico e fitoterapeuta Douglas Carrara.
Nesse dia estaremos formalizando as inscrições para o curso sobre ervas medicinais e conhecimentos de botanica que inicializara em outubro.
Durante a palestra passaremos todos os detalhes do curso.
Entre em contato e reserve seu lugar ( são poucas vagas ).
Veja o folder da palestra ( anexo )
Muito Obrigado,
Fabiano De Pietroluongo
tel. 21.3278-6116 fixo oi / 9712-9664 vivo / 8792-1983 oi
Quem não tem tempo para cuidar da saúde, com certeza terá que encontrar tempo para cuidar da doença”

PALESTRA GRATUITA
Como Melhorar sua Saúde com as Plantas Medicinais
Prof. Douglas Carrara
Atualmente todos nós gostaríamos de evitar o mundo agitado em que vivemos e que produz efeitos danosos a nossa saúde. E por isso temos saudade do tempo de nossos avós que nos tratavam com chás de ervas colhidas no fundo do quintal.  Isso ainda é possível. Basta querer e resgatar o saber de nossos antepassados que sabiam em profundidade o segredo do uso correto das plantas medicinais.
Quem estiver interessado em saber um pouco sobre esses segredos basta comparecer na Estação Paraíso, Centro de Qualidade de Vida, no dia 20 de Setembro , às 19 horas, na Rua Francisco Bernardino, 68 – Riachuelo – Rio de Janeiro, para assistir à palestra do Prof. Douglas Carrara, que há vários anos se dedica a ensinar fitoterapia para profissionais da área da saúde e também para leigos, interessados no assunto. Entretanto é necessário se inscrever para garantir sua vaga, já que o espaço possui apenas 40 cadeiras.  Inscrições: Telefone: (21) 3278-6116

Drauzio Varella e a Graviola – Por Douglas Carrara

Dráuzio Varella e a Graviola  – Annona muricata L. (1753)

A medicina moderna tem muito que aprender com o apanhador de ervas.

Halfdan Mahler

Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde (1973-1988)

A graviola é uma árvore que cresce até 10 m. de altura, quase sempre apenas a metade ou ainda menos, dependendo da região e do clima.  A casca do caule é aromática, as folhas são alternas e crescem até 15 cm de comprimento por 7 cm de largura, verdes e vernicosas na página superior e com bolsas na axila das nervuras laterais na página inferior, ligeiramente tomentosas. Inflorescência cauliflora, brotando da casca velha do caule e dos ramos. Pedúnculos robustos. Cálice com lobos triangulares e agudos. Flores axilares, solitárias, sub-globosas, amareladas com seis pétalas grossas e carnosas. O fruto é uma baga de forma irregular, mais ou menos ovóide, até 30 cm de comprimento e 12 cm de largura, com epiderme verde escura, espessa, areolada (carpelos soldados), cada aréola ou saliência cônica tendo no ápice um espinho comprido, mole e recurvado, verde, enquanto jovem, depois castâneo-ferrugíneo e com as extremidades quase pretas. O fruto pode atingir grandes dimensões, mas raramente excede 2 kg. (1)

Esta planta, que é a espécie típica do gênero, porquanto foi a primeira descrita e desenhada, já era objeto de cultura antes das chegada dos europeus, no processo de conquista e colonização do Brasil. Numerosos autores asseguram que ainda hoje é encontrada silvestre nas matas de várias ilhas antilhanas (Cuba, Haiti, Jamaica, Porto Rico), na América Central e até na Venezuela, sendo levada para outras regiões da terra, como África, Ásia, inclusive o Brasil, que provavelmente recebeu as primeiras mudas em 1750, procedentes da Jamaica e introduzida no Pará por iniciativa de Manuel Mota de Siqueira. Entretanto Gabriel Soares de Sousa já fazia referência à existência desta excelente fruteira na Bahia em 1587, com o nome de araticu. (2) Em outros países onde foi introduzida tornou-se subespontânea (inclusive na Amazônia) e em todo o mundo é mais ou menos cultivada, sempre frutificando desde o terceiro ano de idade.

No Brasil é mais conhecida com o nome de graviola. Na Bahia é chamada também de curaçau e ata- de-lima ou jaca-de-pobre em Camamu, assim como araticum. Em Minas Gerais é chamada de ata, coração-de-rainha, jaqueira-mole.  No Haiti é conhecida como anon, em Cuba e no México como guanábana. Na África, onde também foi introduzida é conhecida como sap-sap. Na ilha de São Tomé é conhecida como coração-da-Índia ou coração-de-preto (1) (3) (4) (5)

Os frutos, em estado verde são usados para combater a disenteria e úteis contra as aftas das crianças (sapinhos). No Brasil, come-se como legume, cozidos, assados no forno ou fritos em fatias. Depois de maduros, a polpa tem um aroma agradabilíssimo, misto de maçã e de pêra, e o sabor, ligeiramente ácido, lembra o perfume do abacaxi e do morango. Quem conhece o fruto corta-o no sentido vertical, tira-lhe a polpa e abandona a parte externa, que é fedorenta, dura e coriácea, tendo paladar amargo e desagradável, terebintáceo. Essa polpa, parecendo algodão em rama molhado e tendo consistência semelhante à manteiga, é comestível, porém constituída por celulose quase pura e de difícil digestão e por isso o seu melhor aproveitamento consiste em extrair o suco, para o preparo de bebidas refrigerantes e sorvetes, reconhecidamente deliciosos, bem como para geléias e marmeladas, consideradas peitorais, antiescorbúticas, diuréticas e febrífugas. (1) O óleo essencial extraído das folhas e dos frutos verdes tem cheiro pouco agradável, mas misturado ao óleo de amêndoas ou de amendoim, é indicado em fricções nos casos de nevralgias e reumatismo. (9)

Segundo Theodoro Peckolt, o pioneiro fitoquímico de origem alemã, que estudou as plantas medicinais no Brasil, as folhas contusas e misturadas com azeite quente servem para resolver os furúnculos e abcessos. A casca da raiz é indicada como tinguijante de peixes. Os frutos verdes, externamente, reduzidos à consistência pastosa servem para curar as aftas de crianças (sapinhos). (10)

Em levantamente etnobotânico realizado pela Prof. Maria Elisabet van den Berg no Pará, a graviola foi indicada para o tratamento de diabetes, e como calmante e anti-espasmódico. (19)

Hoehne também reconhece que as folhas são prescritas para eliminar vermes intestinais e em forma de decocção para resolver abcessos.  Frederico Carlos Hoehne, grande botânico brasileiro, reconhecido internacionalmente, não tinha formação acadêmica. Quando acompanhou a Comissão Rondon em 1908, Hoehne foi nomeado apenas como ajudante de botânica, numa comissão que não possuía nenhum botânico, quando na verdade era apenas jardineiro-chefe do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Todo o trabalho de botânica da primeira expedição foi realizado exclusivamente por Hoehne! Pois bem, Hoehne é um dos mais prolíficos autores botânicos brasileiros, produzindo desde 1910 até sua morte em 1959, 478 títulos bibliográficos, artigos e livros, produzindo um total de 11.000 páginas! Do herbário da Comissão Rondon foi responsável pela coleta de 10.000 exsicatas. Hoehne descobriu novos gêneros e novas espécies ao longo de toda a sua carreira, sendo responsável pela identificação de aproximadamente 400 novas espécies.  (11) (18)

Narciso Soares da Cunha, farmacêutico e doutor em medicina,  afirmava em 1941 que as folhas da graviola eram indicadas para combater a glicosúria e o diabetes. (12) Também o Dr. Flavio Rotman reconhece que a infusão das folhas da graviola são muito utilizadas pelos diabéticos para baixar a glicose sanguínea elevada. (14)

O botânico Caminhoá, no século XIX, reconhece que os frutos verdes são adstringentes e úteis contra a disenteria, assim como contra as aftas e que as folhas, fritas com óleo ou fervidas são úteis no tratamento do reumatismo.

O Prof. Dias da Rocha, reconhece em seu formulário editado pela primeira vez em 1919, que as folhas da graviola são sudoríficas e peitorais. Indica nesses casos a infusão das folhas, 3 g. para 200 ml. de água fervente, na tosse e em todas as suas manifestações, durante uma semana.  Apesar de não ser médico, como naturalista autodidata, coletava exemplares da flora, fauna, rochas, minerais e peças indígenas do Ceará e, além disso, como homeopata atendia em sua residência vasta clientela, composta de gente pobre, para quem receitava gratuitamente e às vezes fornecia o remédio. A sua especialidade era tratar de crianças. Hoje em dia todo o seu acervo constitui o Museu Dias da Rocha em Fortaleza.

Em análises de plantas oriundas da República Dominicana foi verificada a existência de ácido cianídrico na raiz, no fruto verde, nas folhas e nas flores. (1)  Outros autores também confirmam estas análises, já que na África a casca da raiz contém ácido cianídrico e por isso são usados como venenos para pescar. (6)

Os índios Waimiri Atroari cultivam também a árvore.  A infusão das folhas é usada para reduzir os níveis de glicose no sangue e na Guiana Francesa são usadas como sedativo. Na República Dominicana os frutos são usados como cataplasma para estimular lactação nas mulheres que estão amamentando. Extratos das folhas tem poderoso efeito hipotensor em cobaias.   (6) (7)

A decocção dos rebentos novos das folhas é usada em Cuba contra a tosse para desobstruir os brônquios ou em fomentos contra as inflamações externas e para lavar os pés inchados. O refresco do fruto é indicado para hematúria (sangue na urina), assim como facilita a secreção urinária e alivia a uretrite. A infusão das folhas é considerada sudorífica. No eczema, coloca-se as folhas sob a forma de emplastro e se cobre com um pano.  Segundo Grousourdy, em Cuba, as folhas e os brotos tem propriedades antiespasmódicas e estomáquicas e constituem um remédio popular muito útil contra as indigestões, já que facilitam as digestões difíceis. Os nativos, segundo Groussourdy, utilizam as folhas tenras molhadas com saliva nas carnosidades que aparecem no entorno das cauterizações, eliminando-as em muito pouco tempo e sem dor, não deixando cicatrizes. A polpa do fruto aplicada como cataplasma, durante 3 dias, sem trocar, nas feridas provocadas pelos bichos-do-pé (Tunga penetrans) elimina-os. Ao retirar a cataplasma, as chagas apresentam melhor aspecto e curam com maior facilidade. O pó das sementes trituradas é eficaz para matar piolhos. A tintura macerada com as sementes trituradas em bebidas destiladas tem propriedades vomitivas muito enérgicas.  (4)

Na Venezuela, segundo Pittier, a graviola é conhecida também como guanábano, e as folhas, em infusão, são usadas para combater a diarréia. (8)

Em Angola, na África, os curandeiros negros empregam, em casos de disenteria e diarréia, a decocção das sementes trituradas.   (5)

Em pesquisas mais recentes, o Prof. Edile de Medeiros Sampaio e colaboradores da Universidade Federal do Ceará (1974), reconheceram o potente efeito hipoglicemiante das folhas de graviola. (13)

No livro mais atualizado que existe no Brasil sobre plantas medicinais, o livro do Prof. Matos e de Harri Lorenzi, se reconhece os diversos usos medicinais baseados na tradição popular, registrados na literatura etnofarmacológica. Acrescenta que recentemente tem crescido muito o uso do chá das folhas como agente emagrecedor e medicação contra alguns tipos de câncer.

No citado livro, o estudo fitoquímico mostrou que as folhas contém até 1,8% de óleo essencial rico em beta-cariofileno, gama-cadineno e alfa-elemeno, enquanto que o obtido do fruto ésteres e compostos nitrogenados como substâncias responsáveis pelo seu aroma. Na composição química do fruto estão presentes açúcares, tanino, ácido ascórbico, pectinas e vitaminas A (beta-caroteno), C e do complexo B, enquanto nas folhas, casca e raiz desta planta vários alcalóides foram identificados descritos como reticulina, coreximina, coclarina e anomurina. Nas sementes, nas folhas, casca e raízes desta planta foram encontrados o ciclopeptídeo anomuricatina A e várias acetogeninas.

As acetogeninas formam uma nova classe de compostos naturais de natureza  policetídica de grande interesse para farmacologistas e químicos de produtos naturais em todo o mundo, por serem farmacologicamente muito ativas como antitumoral e inseticida, sendo a mais ativa delas a anonacina; uma outra substância desta classe mostrou intensa atividade contra o adenocarcinoma do cólon (intestino grosso), numa concentração 10.000 vezes menor do que a adriamycina, quimioterápico usado para tratamento deste tipo de tumor.  Descobertas como estas tem provocado uma grande procura por folhas de graviola, cuja negociação pelas empresas de cultivo com os laboratórios de pesquisa e de produção de fitoterápicos especialmente do exterior, alcança quantidades da ordem de toneladas. O amplo emprego desta planta nas práticas caseiras da medicina popular e seus resultados positivos, além da grande disponibilidade de material no Brasil, são motivos suficientes para sua escolha como tema de estudos químicos, farmacológicos e clínicos mais aprofundados, visando sua validação como medicamento antitumoral. (15) (16)

No XVI Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil em outubro de 2000, foi apresentado um trabalho mostrando um novo método de extração de acetogeninas das sementes da graviola, já que pelo processo clássico de extração por solventes as dificuldades são grandes em função da riqueza de ácidos graxos neutros contidos nas sementes. No entanto se obtém um índice de extração de acetogeninas de 17% através da extração por fluido supercrítico (SFE). (20) Evidentemente busca-se eficiência na extração das acetogeninas em função de sua atividade antitumoral comprovada.

Em 16 de julho de 2007 o Globo Repórter (http://www.youtube.com/watch?v=u7Z6cEUshDQ) fez uma reportagem sobre a graviola, entrevistando inicialmente a empresária e fitoterapeuta (*) Leslie Taylor que importa 400 toneladas de folhas de graviola do Brasil, do Peru e do Equador, para produzir o fitoterápico N-Tense, um composto de graviola com mais 7 plantas brasileiras. O produto é utilizado no tratamento do câncer e a empresa Raintree, com sede em Austin, distribui o medicamento para 400 médicos nos Estados Unidos, que vem obtendo bons resultados com o produto. Não podem anunciar os resultados porque a vigilância sanitária nos EUA não permite que sejam divulgados os tratamentos feitos com medicamentos oriundos de plantas medicinais. Na Alemanha, o Dr. Helmut Keller utiliza o mesmo medicamento produzido nos EUA com resultados surpreendentes. Um paciente conseguiu fazer desaparecer um câncer da bexiga em 3 semanas de tratamento! A empresária obteve as informações sobre a graviola de um grande laboratório nos Estados Unidos que desistira de patenteá-lo porque não tinha conseguido sintetizar a substância ativa, no caso, uma das acetogeninas.

Atualmente a graviola é cultivada em várias partes do mundo, desde o sul da Flórida até a China, África e Austrália. Essa extraordinária dispersão mundial da graviola é, naturalmente uma decorrência do excelente sabor e aroma de seus frutos, assim como das propriedades medicinais de diferentes partes da planta.

Pode-se observar que, analisando o mosaico de aplicações em diferentes países, as indicações são muito semelhantes a partir do levantamento etnobotânico promovido em diferentes épocas e em diferentes países.

Portanto, Dr. Dráuzio, a experiência popular com a graviola tem pelo menos 400 anos, já que em 1578 a planta e seu saboroso fruto já eram conhecidos na Bahia. Além disso os ensaios fitoquímicos e fitofarmacológicos existem há pelo menos há 35 anos! Realmente ainda são necessárias mais pesquisas para consolidar as propriedades terapêuticas da planta, mas tudo indica que a pomada de graviola produzida pelo Prof. Frazão tem fundamento e deve estar produzindo efeitos benéficos nos pacientes.

Esta é a planta que o Dr. Dráuzio Varella afirmou que não serve para nada com uma pesquisa de apenas alguns dias, com o objetivo de denegrir a imagem de um professor, que, ainda de maneira embrionária, busca com honestidade encontrar medicamentos a partir de plantas para tratar as pessoas que não possuem recursos para adquirir medicamentos sintéticos e de efeito duvidoso.

A escassa documentação protocolar da pesquisa do Prof. Frazão não invalida o seu trabalho. Se fosse assim teríamos que invalidar toda a experiência de origem indígena e popular que gera inúmeras substâncias extremamente úteis para a ciência, tais como, alcalóides e glucósides, descobertos empiricamente em experiências populares e indígenas, quase sempre anônimas. O que o Prof. Frazão necessita é de apoio financeiro e da colaboração de pesquisadores com melhor aparato cientifico para aperfeiçoar sua pesquisa feita ao longo de anos de dedicação, com o exclusivo objetivo de ajudar quem precisa. Além disso a reportagem não informou que os medicamentos preparados pelo Prof. Frazão são entregues gratuitamente aos pacientes e as entrevistas com os pacientes que foram curados com a pomada de graviola …

Agora cabe ao público escolher entre a pesquisa apressada do Dr. Dráuzio e a longa experiência popular, indígena, científica e inclusive a experiência do Prof. Frazão a respeito da graviola.

Prof. Douglas Carrara

Antropólogo, Professor, Pesquisador de medicina popular e fitoterapia no Brasil

www.bchicomendes.com

djcarrara@hotmail.com

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Bibliografia Consultada:

(1) CORRÊA, Manoel Pio (1874-1934):

1952 – Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas – Vol. III – Ministério da Agricultura – Rio  – pp. 486

(2) SOUSA, Gabriel Soares de (1540? – 1591):

1974 – Notícia do Brasil – Comentários e Notas de Varnhagen, Pirajá da Silva e Edelweiss – MEC – Rio – pp. 363

(3) CAMINHOÁ, Joaquim Monteiro (1836-1896):

1877 – Elementos de Botânica Geral e Médica – Tip. Nacional – Rio – pp. 2317

(4) MESA, Juan Tomás Roig y (1877-1971):

1988 – Plantas Medicinales, Aromáticas o Venenosas de Cuba – 2 vol. – Ed. Cientifico-Tecnica – La Habana – pp. 161

(5) FICALHO, Conde de (1837-1903):

1947 – Plantas Úteis da África Portuguesa – Agência Geral das Colônias – Lisboa – pp. 76

(6) MILLIKEN, William; Robert P. Miller; Sharon R. Pollard & Elisa V. WANDELLI:

1992 – The Ethnobotany of the Waimiri Atroari Indians of Brazil – Royal Botanic Gardens – London – pp. 50

(7) CAVALCANTE, Paulo B. (1922-2006):

1996 – Frutas Comestíveis da Amazônia – 6a. Ed. – Museu Paraense Emilio Goeldi – Belém – pp. 109.

(8) PITTIER, H.:

1926 – Manual de las Plantas Usuelles de Venezuela – Lit. Del Comercio – Caracas – pp. 245

(9) PENNA, Meira:

1946 – Dicionario Brasileiro de Plantas Medicinais – Ed. Kosmos – Rio – pp. 33

(10) PECKOLT, Theodoro (1822-1912) e Gustavo:

1914 – Historia das Plantas Medicinaes e Úteis do Brazil – Pap. Modelo – Rio – pp. 62

(11) HOEHNE, F. C.: (1882-1959):

1939 – Plantas e Substâncias Vegetais Tóxicas e Medicinais – Dpt. de Botânica de SP – S. Paulo – pp. 123

(12) CUNHA, Narciso Soares da:

1941 – De von Martius aos Ervanários da Bahia – Pap. Dois Mundos – Salvador – pp. 42

(13) BRAGANÇA, Luiz Antonio Ranzeiro de:

1996 – Plantas Medicinais Antidiabéticas – Eduff – Niterói – pp. 170.

(14) ROTMAN, Flávio:

1984 – A Cura Popular pela Comida – Ed. Record – Rio – pp. 199

(15)  LORENZI, Harri & F. J. Abreu MATOS (1924-2008):

2008 – Plantas Medicinais no Brasil Nativas e Exóticas – 2a. Ed. – Ed. Plantarum – Nova Odessa – pp. 67

(16) TAYLOR, L.:

1998 – Herbal Secrets of the Rainforest – Prima Health Publ. – Rocklin, CA, 315 p.

(17) MATOS, Francisco Jose de Abreu Matos (1924-2008):

1987 – O Formulário Fitoterápico do Professor Dias da Rocha (1869-1960) – Esam – Mossoró – pp. 208

(18) HOEHNE, F.C. (1882-1959):

1951 – Relatório Anual do Instituto de Botânica – São Paulo – 155 p

(19) BERG, Maria Elisabeth van den:

1982 – Plantas Medicinais na Amazônia – Museu Paraense Emilio Goeldi – Belém – pp. 22

(20) MAUL, Aldo Adolar et all:

2000 – Extração Supercrítica das Sementes de Graviola (Annona muricata L.), Annonaceae) in Livro de Resumos do XVI Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil – Recife – PE – Brasil. – pp. 174

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(*) Nos Estados Unidos, a profissão de naturopata é reconhecida legalmente e existem cursos de formação para quem deseja exercer a profissão.

PUBLICADO PELO PORTAL VERDE SOB AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO AUTOR

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