Filipinas de Duterte e Brasil de Bolsonaro são os países mais perigosos do mundo para ambientalistas e líderes indígenas

Resultado de imagem para perigo ambientalista

Grave.

Confira a matéria no correio Brasiliense:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2019/07/30/interna_mundo,774561/mais-de-160-ativistas-do-meio-ambiente-foram-assassinados-em-2018.shtml?fbclid=IwAR236YIZ06grvZZlTCxY9nREoRiuxOOPTJ1iU6vE_vsDxUsQWyy7XmW8_Ug

EE assista ao vídeo “Ambientalista profissão perigo”, no Youtube:

 

 

Feira Estadual da Reforma Agrária acontece a partir de segunda no Largo da Carioca — Blog do Pedlowski

Entre os dias 05, 06 e 07 de dezembro será realizada a VIII Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro. Este é um evento de exposição e comercialização de produtos da Agricultura Familiar Camponesa dos Assentamentos da Reforma Agrária, realizado pelo Movimento Sem Terra – […]

via Feira Estadual da Reforma Agrária acontece a partir de segunda no Largo da Carioca — Blog do Pedlowski

Certificados de cursos em Terapias Naturais – Perguntas e Respostas

Quais são as diferenças entre os certificados emitidos em cursos sobre terapias naturais?

Por Arnaldo V. Carvalho

A lei brasileira não legisla sobre a formação e atuação dos profissionais que atuam com terapias naturais (ou seja, não são regulamentadas), embora muitas delas sejam reconhecidas pelo Ministério do Trabalho através do CBO (Catálogo Brasileiro de Ocupações). Terapias naturais não são regulamentadas, mas existem reconhecidamente. Terapeutas recolhem impostos, possuem associações de classe e sindicatos formalmente constituídos. Dada a grande variedade de técnicas, e uma diferenciada gama de possibilidades interdisciplinares entre estas, e destas com as ciências da saúde, existem diversos tipos de certificado hoje no mercado, quais sejam:

a) A certificação de curso livre: A maioria dos cursos são de natureza livre, não sendo avalizadas pelo ministério da educação. Sua validade em currículos acadêmicos, a título de horas de estágio ou atividade complementar, por exemplo, varia de acordo com a coordenação do curso de graduação que se está fazendo. Cursos livres podem ser de natureza formativa, possuindo todos os fundamentos necessários para a pessoa atuar profissionalmente, ou de natureza vivencial, que permite a pessoa a fazer uso preventivo, pessoal e familiar de várias terapias. As carga horárias são muito variadas, dependendo da terapia, seus conteúdos, intenção de programa de estágios, etc.

b) A certificação como curso de capacitação profissional: Entidades de ensino superior podem oferecer cursos de capacitação profissional. Em geral, são os mesmos cursos livres, mas com a chancela de uma universitária. Não implica necessariamente em melhor qualidade, nem em maior carga horária, embora costume ser mais aceito no meio acadêmico em função do selo institucional.

c) A certificação como pós-graduação: Tecnicamente, qualquer curso que admita apenas alunos graduados é um curso de graduação. Na escala acadêmica, nós temos os cursos strictu sensu, voltados à academia, com grande validade e exigências acadêmicas, sendo voltados à pesquisa e à continuidade na vida universitária; e o lato-sensu, que é como um curso livre, mas com a exigência da graduação por parte do aluno, ou seja – é um curso de pós-graduação. Muitas instituições renomadas oferecem cursos de formação onde somente graduados universitários podem cursar, como é o caso da Psicanálise – cujo curso é oferecido por instituições como a Sociedade Brasileira de Psicanálise. Pós-graduações em geral possuem no mínimo 600H de carga horária.

d) Cursos Técnicos: Os cursos técnicos são regulamentados por leis estaduais, e assim variam de acordo com a secretaria de educação de cada Estado. São voltadas para a formação principalmente prática, e costumam ter em torno de 1200H de carga horária. Cursos técnicos oficialmente são válidos quando reconhecidos pelo MEC*.

* “Reconhecido pelo MEC”: Tome muito cuidado, nem todo curso reconhecido pelo MEC oferece a qualidade que se espera. Para um curso ser reconhecido, ele precisa obedecer ao que o MEC considera ser conteúdo mínimo para uma formação. Contudo, em geral esses conteúdos estão aquém do que o necessário, quando não estão propostos de forma bastante ineficiente no currículo, muitas vezes apenas para encher uma formação com horas – horas estas que poderiam ser bem melhor aproveitadas. Muitos cursos não reconhecidos pelo MEC o são POR OPÇÃO, pois o reconhecimento do MEC implica na concordância para com seus pareceres, o que muitas vezes não acontece por parte de escolas sérias com base formativa baseada em padrões internacionais, etc. Estas normalmente possuem um curriculo mais completo e condizente com a atualidade.

Transgênicos eram motivo de medo há poucos anos atrás

Em nossos arquivos encontramos um alerta que denotava a preocupação pelos trangênicos. Imprensa refletia a preocupação governamental, de ambientalistas e do povo. Não demorou muito, com o apoio do governo eles entraram com tudo no mercado, a agricultura industrial coronelada pela Monsanto ganha pedaços de fortuna por vassalagem a essa Rainha de Copas, que corta cabeças artrópodas e ameaça a agricultura orgânica, familiar, e verdadeiramente sustentável, em seus sentidos mais amplos e profundos.

Recordar e entristecer que até aqui, o Brasil só perdeu. (Arnaldo V. Carvalho)

 

CONTRABANDO DE MILHO
 
O ministério da agricultura anunciou em janeiro o resultado de análise de laboratório com 41 amostras de milho no rio grande do sul folhas, espigas e grãos.
 
Uma delas apresentou resultado positivo para transgenia, com índice de 0,43%.
 
A amostra foi coletada numa casa comercial da região de santo Ângelo e destinava-se à alimentação animal.
O ministério determinou a suspensão da venda do produto.
 
 
A Superintendência Federal de Agricultura apurava denúncia de plantio ilegal de milho geneticamente modificado, informa a agência gaúcha Carta maior.
 
Plantio e venda de milho transgênico não são autorizados no país e o infrator está sujeito à prisão de até dois anos, além de multa. Em novembro, análise de Cotegipe indicara o milho RR GA21, da Monsanto, largamente utilizado na Argentina.
 
Repete-se portanto o padrão da introdução ilegal no Brasil de soja transgênica : virou fato consumado.
 
Mas o risco de contaminação é maior agora: o milho, ao contrário da soja, tem polinização aberta e cruzada e pode se propagar por até nove quilômetros com insetos, pássaros ou correntes de vento. Nos países onde o plantio de milho transgênico foi aprovado, há áreas de refúgio como forma de proteção. O plantio anárquico põe em risco avicultura e a suinocultura gaúchas: os países importantes exigem status de produto livre de transgênico. Preocupados, 21 frigoríficos da Associação Gaúcha de Avicultura decidiram bancar testes de transgenia do milho que fornecem aos animais.
 
Mas, como no caso da soja, a questão parece irreversível. A Monsanto desenvolve pesquisas com milho transgênico em Uberlândia (MG) e a CTNbio analisará, a partir deste fevereiro, dois pedidos pela aprovação do milho Guardian e Roundup Ready.

Marcha Mundial contra a Monsanto também no Rio de Janeiro.

O próximo sábado dia 25 de Maio está sendo organizado mundialmente a Marcha Mundial contra a Monsanto.

Sabemos que a referida empresa é responsável nos últimos 40 anos pela degradação do meio ambiente e comprometimento com a saúde da população mundial.

Aqui no Rio realizaremos um ato na saída do Metrô de Botafogo, esquinas das Ruas São Clemente e Muniz Barreto repudiando as suas ações.

Neste manifesto informaremos aos cidadãos o quanto de seus malefícios contra a população brasileira. 

Contamos com sua presença e apoio na divulgação de uma causa que é de interesse coletivo.

Nos encontramos lá.

Renato Martelleto

 

LOCAL : SAÍDA DO METRÔ DE BOTAFOGO

DATA : 25 DE MAIO DE 2013

HORÁRIO : 9HS

ENDEREÇO : RUA SÃO CLEMENTE ESQUINA COM RUA MUNIZ BARRETO 

 

Fora Monsanto !!!

 Quando o assunto é degradação do meio ambiente e comprometimento com a saúde da população mundial só existe um nome : Monsanto. 

Como podemos conviver e admitir uma relação com quem arruína nossa riqueza natural e deixa uma promessa de doenças para as futuras gerações ?

São 40 anos desta empresa multinacional americana colaborando com a destruição de nossas vidas.

Se diz em prol do desenvolvimento da agricultura, da melhoria da qualidade de vida dos produtores e do bem-estar do povo brasileiro.

Porém, em sua triste e obscura história consta á fabricação de herbicidas utilizados na guerra do Vietnã, o desenvolvimento dos alimentos transgênicos e o monopólio de sementes.

Muitos moradores próximos as suas fábricas e diversos funcionários já foram vitimas de contaminação de seus produtos.

Sua atuação global mostra o quanto de seus malefícios para a Mãe Terra.

Na Índia 95% das sementes de algodão são controladas pela empresa, que possui contratos de licenciamento com 60 empresas.

Na União Européia 36% dos  tomate e 32% dos pimentões são patenteados por ela.

 Nos Estados Unidos, fornece cerca de um terço das sementes de milho e nove de cada dez campos de soja são cultivados com a tecnologia Roundup Ready.

O Brasil é hoje o segundo maior semeador de transgênicos do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos, ocupando 70 milhões de hectares  de  produção em nosso país.

Não foi por acaso que no dia 25 de maio está sendo organizado a Marcha Global contra a Monsanto.  Por que contestar uma empresa que alega que os transgênicos são mais produtivos e vão acabar com a fome do mundo?

Simplesmente por ela não ser verdadeira. Em seu currículo de malfeitorias em prol do planeta podemos destacar recente pesquisa que comprova incidência  de câncer e morte em ratos alimentados com transgênicos. Como podemos acreditar em um alimento modificado geneticamente, também conhecido como “Frankstein” ?

A natureza é sabia e nos fornece alimentos de forma natural e sem cobranças.  

As doenças provocadas com seus venenos diabólicos não são instantâneos e sim gradativos, ou seja, os sintomas aparecem ao longo da vida.

Sabemos que esses tipos de empresas estão sempre aliadas a influências governamentais que facilitam sua legalidade em cada país de atuação.

Em nosso país a fiscalização dos alimentos transgênicos é pura fantasia, onde no mínimo, a identificação nos rótulos das embalagens deveriam existir ou pelo menos serem fáceis de identificação com a letra “T”.

    Enquanto não temos uma política séria de saúde pública temos que usar as nossas iniciativas.

Evite consumir alimentos que contenham em sua matéria prima soja, milho e batata.

Esses três são os maiores recordistas em produção transgênica no Brasil.

É importante também sabermos algumas marcas que costumam usar transgênicos em seus produtos:

Cheetos, Dona Benta, Elma Chips, Fandangos, Liza, Maizena,  Quaker, Soya e Yoki.

Pior do que a Monsanto, só mesmo a Monsanto.

Renato Martelleto

“Podem morrer as pessoas, mas nunca suas idéias.” (Ernesto Che Guevara)

Vegetarianismo ético minimalista

Texto originalmente publicado em http://www.criticanarede.com.

Vegetarianismo ético minimalista

Desidério Murcho

O objectivo deste ensaio é apresentar um argumento a que chamo “minimalista” a favor de uma dieta vegetariana. Procuro mostrar que uma dieta vegetariana é uma opção eticamente mais correcta do que uma dieta não vegetariana mesmo que aceitemos as ideias dos filósofos que se opõem quer aos direitos dos animais, quer à sua importância moral intrínseca. O argumento apresentado é minimalista no sentido em que sustenta que não são necessárias razões muito fortes para que o vegetarianismo seja a dieta eticamente mais correcta. Na verdade — e caricaturalmente — tudo o que precisamos para defender o vegetarianismo é um bom livro de receitas vegetarianas, ou um bom restaurante vegetariano.

Pelo facto de a filosofia analítica ser pouquíssimo estudada em Portugal, poucas pessoas conhecem as disciplinas filosóficas com impacto na vida pública e o caso da ética aplicada é apenas mais um exemplo. Muitas pessoas não sabem por isso que mesmo os filósofos que se opõem à ideia de que os animais têm direitos, ou que sejam de qualquer outro modo objecto de consideração moral, defendem a ideia de que o modo como tratamos os animais é eticamente importante. Não há virtualmente especialistas em ética aplicada que defendam que todas e quaisquer experiências laboratoriais com animais são defensáveis, nem que o modo como são tratados pela indústria alimentar é aceitável. Sublinho este aspecto porque na filosofia — como aliás na ciência — só nos interessam os problemas em aberto e consequentemente o que ainda está em disputa. E o leitor incauto de ética aplicada pode ser levado a pensar que há um grande desacordo entre os filósofos sobre o modo como devemos tratar os animais. Que há desacordo é verdade; mas esse desacordo é muito mais de carácter académico e de pormenor do que prático e geral — na prática, a generalidade dos especialistas em ética aplicada defende que é um mal moral tratar os animais como actualmente são tratados pela indústria alimentar e pelos laboratórios que testam produtos tóxicos em animais. Um dos objectivos do meu argumento minimalista a favor do vegetarianismo é o de ser aceitável mesmo para os filósofos que defendem que os animais não têm direitos ou que defendem que os interesses dos animais não têm peso moral.

Os defensores dos animais dividem-se em dois grupos: os que defendem que os animais têm literalmente direitos, e os que defendem que não têm direitos, mas que é eticamente errado fazer os animais sofrer sem qualquer razão adequada. Os que defendem que os animais não têm direitos defendem-no por pensar que a linguagem dos direitos é enganadora e confusa; defendem que os animais não têm direitos porque, literalmente falando, ninguém tem direitos — nem os seres humanos. O que os seres têm é interesses, a satisfação dos quais deve ser garantida na máxima extensão possível.

Os filósofos que se opõem aos defensores dos animais fazem-no em geral do ponto de vista dos direitos. E o axioma básico dos que se opõem aos direitos dos animais é a ideia de que só quem tem deveres pode ter direitos. É difícil encontrar uma ideia mais lapidar que encerre o que no meu entender é um tão grande erro conceptual, e que nos conduz a labirintos argumentativos para demonstrar que um bebé, um deficiente mental profundo ou um doente terminal em coma têm ainda direitos — apesar de não terem obviamente deveres. Todavia, irei admitir a título de hipótese que estes filósofos têm razão — que os animais não têm direitos, ao passo que todos os membros da nossa espécie têm direitos.

O que temos agora de pensar é se, sob esta hipótese, estamos dispostos a torturar animais, ou a fazê-los sofrer. Filósofos como Michael Allen Fox e David Oderberg consideram que, apesar de os animais não terem direitos, não podemos dispor deles como se fossem meros objectos. A ideia é que apesar de moralmente nada devermos aos animais, não devemos no entanto ser desnecessariamente cruéis e muitas das práticas actuais da indústria alimentar, da investigação científica e do entretenimento são cruéis e como tal de abolir. Do ponto de vista do público, pouca diferença faz que estes filósofos se oponham à ideia de que os animais têm direitos, ou à ideia de que é um mal moral fazê-los sofrer, porque na realidade acabam por defender que não devemos ser cruéis para com os animais.

Ora, o que é interessante é saber se, nestas condições, temos alguma razão ética para ser vegetarianos. E a resposta que quero defender é que temos. Hoje temos acesso a um vasto leque de produtos vegetarianos que nos permitem ter uma dieta pelo menos tão saudável, variada e saborosa como uma dieta que inclua carne e peixe. De modo que o fardo da prova está muito mais do lado de quem quer continuar a comer peixe e carne. Que argumentos podemos apresentar a favor de uma dieta que inclua carne e peixe?

Razões para comer animais

Um primeiro argumento é o de que basta os animais não terem direitos ou os seus interesses não terem peso moral para que estejamos moralmente autorizados a comê-los. Mas este argumento está errado, e mesmo os filósofos que se opõem à ideia de que os animais têm direitos ou interesses com peso moral acham que este argumento está errado. O argumento está errado porque as nossas acções não são apenas moralmente boas ou más pelo mal ou bem que fazemos aos outros, mas também pelo que essas acções nos fazem a nós. Uma pessoa cujo modo de vida inclua torturar animais por prazer tem um perfil moral pior do que uma pessoa que conduza uma vida tanto quanto possível sem crueldade. A crueldade é, em si, eticamente inaceitável, ainda que o objecto da nossa crueldade não tenha direitos nem interesses com peso moral. Para os consequencialistas, a crueldade é um mal moral em virtude das consequências que é legítimo prever; para os não consequencialistas, é um mal porque a intenção de quem tortura por prazer é em si moralmente inaceitável, ainda que as suas consequências morais sejam nulas. Se multiplicarmos a crueldade, tornando-a uma indústria, como é o caso da indústria alimentar, teremos uma situação eticamente indefensável tanto para consequencialistas como para não consequencialistas.

Em resposta a este argumento, o defensor da dieta que inclua carne e peixe pode sublinhar que apesar de o modo como a indústria trata os animais ser inaceitável, em princípio poderíamos ter uma indústria mais humana, que minimizasse o sofrimento provocado aos animais; e, nesse caso, comer carne e peixe seria eticamente aceitável. Este é um dos argumentos mais usados, contra o qual se levanta o argumento minimalista a favor do vegetarianismo. Mesmo alguns defensores do igual peso moral dos interesses dos animais defendem que seria eticamente correcto comer carne e peixe desde que tal prática não provocasse sofrimento nos animais. Para apresentar o que me parece estar errado nesta posição vou recorrer a uma experiência mental.

Imagine-se que todos os meses vou passar um fim-de-semana ao campo e que ao passar por um dado caminho atropelo sempre uma raposa; por um motivo qualquer, há sempre raposas naquele caminho particular e eu conduzo sempre de maneira a não evitar atropelar as raposas. Todavia, bastar-me-ia desviar ligeiramente a trajectória do carro para não matar a raposa. Parece-me que este curso de acção é eticamente inaceitável, ainda que as raposas não tenham quaisquer direitos nem os seus interesses tenham peso moral. Se nada me custava desviar ligeiramente a minha trajectória, a minha insistência em matar todos os meses uma raposa é eticamente inaceitável.

Sustento que esta situação é análoga ao que temos hoje relativamente aos animais. Nada custa alterar muito ligeiramente o nosso estilo de vida, deixando de comer carne, peixe e produtos lácteos. Persistir em fazê-lo, ainda que os animais não tenham direitos nem interesses com peso moral, é moralmente equivalente ao atropelamento das raposas. Ora, argumentar que podemos comer carne e peixe desde que encontremos formas de eliminar o sofrimento dos animais é equivalente a dizer que é moralmente aceitável que eu atropele as raposas, desde que tome medidas para que elas morram sem sofrer. Contudo, é absurdo pensar que alguém se possa dar ao trabalho de tentar garantir que as raposas morram sem sofrimento com o atropelamento, quando é muitíssimo mais simples desviar a trajectória. O ponto importante é precisamente a facilidade com que podemos mudar de dieta, de uma semana para a outra, sem com isso perdermos a variedade, o requinte e o valor alimentar da nossa dieta. Nada custa ter um estilo de vida que exclui a crueldade para com os animais. Na verdade, é um pouco desesperante que seja tão difícil persuadir alguém a tornar-se vegetariano por motivos éticos, ao passo que é muito fácil persuadir as pessoas a tornarem-se vegetarianas por motivos exclusivamente dietéticos.

O ponto importante da minha experiência mental é que não faz sentido, moralmente falando, conceber e pôr em prática formas cada vez mais sofisticadas de criar e matar sem fazer sofrer os animais que queremos comer. Não faz sentido dado que fazer isso é muitíssimo mais trabalhoso do que o abandono puro e simples da alimentação que inclua carne, peixe e lacticínios. O aspecto que quero sublinhar torna-se talvez mais claro se pensarmos em animais com os quais mantemos uma relação especial, como os cães e gatos. Admitindo que os cães e gatos não têm quaisquer direitos nem interesses com peso moral, criar cães e gatos em boas condições para depois os matar sem sofrimento para os comer não é, todavia, eticamente aceitável; é cruel e desumano, mesmo que não façamos tais animais sofrer.

Um contra-argumento a esta ideia é o seguinte: só porque na nossa cultura temos uma relação de grande proximidade com cães e gatos é que poderemos achar eticamente inaceitável matá-los para comer. Noutras culturas é comum criar cães, por exemplo, para comer.

A resposta a este contra-argumento é a seguinte: o facto de estarmos mais próximos de cães e gatos mostra precisamente que se dermos atenção aos animais que nos dispomos a matar para comer, ao invés de pensarmos neles apenas como um produto que se compra no supermercado, as nossas intuições éticas vão no sentido de não matar nem comer esses animais. A cultura é um filtro poderoso, que nos pode cegar para o que é fácil compreender ser inaceitável, se o considerarmos imparcialmente. A escravatura é um caso extremo; o facto de estar culturalmente instituída fez pessoas que de outro modo eram eticamente justas ficar cegas para a injustiça do esclavagismo. O mesmo acontece no caso da desigualdade das mulheres, e dos seus direitos mais básicos, como o direito a votar. Assim, a cultura actual não nos cega em relação a cães e gatos, quando nos faz pensar ser eticamente inaceitável comê-los, ainda que eles não tenham direitos; ao invés, cega-nos, ao fazer-nos pensar que comer outros tipos de animais é eticamente aceitável.

O argumento da lei da selva

Um segundo tipo de argumento a favor de incluir animais na nossa alimentação é o seguinte: se nós não consumirmos os animais que consumimos, como vacas, porcos, peixe, galináceos e outros animais, serão os seus predadores naturais a comê-los. Assim, esses animais serão igualmente mortos, por vezes com bastante sofrimento, com a única diferença de que não serão mortos e criados por nós com vista a alimentar a nossa dieta. Dado que esses animais serão em qualquer caso mortos e comidos, não pode ser eticamente inaceitável que sejamos nós a matá-los e comê-los.

A resposta a este argumento é a seguinte: se deixarmos a natureza correr o seu curso, os seres humanos farão muitas vezes parte da ementa dos seus predadores naturais; mas daí não se segue que seja eticamente aceitável matar e comer seres humanos. Claro que se pode argumentar que isso acontece unicamente porque os seres humanos têm direitos ou interesses com peso moral, ao passo que os animais não os têm (relembre-se que esta é a nossa hipótese de partida). Contudo, apesar de sabermos que os cães e os gatos têm predadores naturais, não estamos por isso dispostos a matá-los para os comer. Não é por isso verdade que basta que os animais não tenham direitos ou interesses com peso moral e que tenham predadores naturais para que seja eticamente aceitável matá-los para os comer. O mundo da natureza é brutal e selvagem; faz parte da civilização e da reflexão ética adoptar práticas diferentes das do mundo da natureza, onde reina a lei do mais forte. Procurar orientação moral no mundo da natureza é algo que tanto os filósofos consequencialistas como os não consequencialistas não fazem. Na natureza, os animais fazem todo o tipo de coisas que não estamos dispostos a imitar, e não há razão para os imitar neste caso em particular só porque queremos comer um bife grelhado, que podemos facilmente substituir por uma boa feijoada vegetariana. Assim, também este argumento é insuficiente para justificar eticamente a nossa dieta baseada em carne e peixe.

O argumento da exequibilidade

Um terceiro tipo de argumento a favor da inclusão de animais na nossa dieta é o seguinte: em muitas culturas, como a esquimó, é pura e simplesmente impossível sobreviver sem comer e matar animais para todo o tipo de fins. Logo, o vegetarianismo falha em obedecer a um axioma fundamental da ética: o impossível não pode ser um dever moral.

A resposta a este argumento é a seguinte: colocados em certas situações, alguns seres humanos já se viram na necessidade de comer os seus mortos, ou de matar os seus companheiros para comer. Daqui não se segue que tais práticas se possam aceitar em geral; são talvez aceitáveis em certas situações, mas precisamente porque são em qualquer caso horríveis, procuramos orientar a nossa vida de modo a que não ocorram. Ora, o mesmo podemos dizer de culturas que dependem fortemente da crueldade. Grande parte da história da humanidade baseou-se na exploração cruel de escravos para conseguir feitos que hoje consideramos admiráveis, como as pirâmides do Egipto. Mas daqui não se segue que devemos preservar este tipo de culturas cruéis; pelo contrário, devemos reformar essas culturas de modo a que as suas práticas cruéis desapareçam, dando lugar a uma cultura mais humanitária. Por outro lado, o vegetarianismo é praticado em muitas culturas humanas. Uma das vantagens do estado de conhecimento geral das culturas humanas a que chegámos é o de podermos escolher as melhores práticas de entre elas. É verdade que em muitas situações um ser humano não pode subsistir sem comer carne ou peixe, por não ter à sua disposição produtos adequados para uma dieta vegetariana equilibrada. Mas numa sociedade da abundância como é o caso da ocidental, que é precisamente onde se come mais carne e peixe, é tão fácil ser vegetariano como não o ser: em ambos os casos, basta ir ao supermercado.

Argumentos remotos

Chamo “remotos” a um quarto tipo de argumentos a favor do consumo de animais; são remotos no sentido em que exploram possibilidades remotas. Eis alguns desses argumentos: ainda que nos abstivéssemos de matar animais para comer, poderíamos criar um sistema que nos permitisse comer os animais mortos pelos seus predadores naturais. Ou poderíamos distinguir entre os animais que provavelmente não têm a possibilidade de sentir dor ou sofrimento, que aceitaríamos matar e comer, e os outros. Assim, não mataríamos vacas, porcos, aves ou peixe, mas mataríamos moluscos para comer, por exemplo.

A resposta a este tipo de argumentos é sublinhar o facto de o consumo de animais ser perfeitamente supérfluo; os seres humanos não precisam de consumir animais para ter uma dieta variada, saudável e rica. Explorar algumas possibilidades remotas é pura e simplesmente inútil. Talvez os caracóis, por exemplo, não tenham um sistema nervoso suficientemente desenvolvido para sentir dor e sofrimento quando são cozidos vivos. Mas não há qualquer razão para os continuarmos a comer quando podemos comer muitos outros petiscos inteiramente vegetarianos. É neste sentido que afirmei que, num certo sentido, o melhor argumento a favor do vegetarianismo é um bom livro de receitas vegetariano, ou um bom restaurante vegetariano. Quando descobrimos a enorme variedade de pratos vegetarianos não sentimos pura e simplesmente qualquer necessidade de complementar a nossa dieta com produtos de origem animal. Só uma cultura excessivamente baseada em produtos de origem animal nos pode fazer pensar o contrário — como talvez nas culturas em que é normal comer cães seja difícil de conceber uma dieta que não os inclua.

Outro tipo de argumento remoto é defender que se não consumíssemos animais, existiriam muitíssimo menos galinhas, porcos e vacas do que existem. Uma vez mais, este argumento é insuficiente contra o vegetarianismo; sem dúvida que existiriam menos animais domésticos, mas existiria mais vida selvagem, cuja observação é cada vez mais uma fonte de grande prazer para grande parte dos seres humanos.

Conclusão

Em conclusão, não me parece que haja quaisquer razões a favor do consumo de animais, mesmo sob a hipótese de os animais não terem quaisquer direitos nem interesses com peso moral. Há dois factores que conduzem a esta conclusão: por um lado, é muito fácil ter uma dieta vegetariana rica, variada e saudável; por outro, matar animais para comer é um acto cruel. A conjunção destes dois factores torna muito difícil defender a ética do consumo de animais. Claro que não será impossível de defender; com um pouco de criatividade podemos encontrar argumentos para tudo, que, ainda que muito maus, podem parecer convincentes — basta pensar nos argumentos nazis a favor do Holocausto. É por isso que concluo com um argumento cautelar: ainda que se levantem alguns argumentos a favor do consumo de animais, o facto de uma dieta vegetariana ser tão fácil, variada, rica e saudável deve levar-nos a recusar o consumo de animais como uma medida de cautela moral. Mais vale errar porque podemos consumir alguns animais de que nos abstemos, do que errar porque consumimos alguns animais de que nos devíamos eticamente abster.

© Desidério Murcho
Comunicação apresentada no colóquio “A Ética e a Defesa dos Animais não Humanos” (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 21 e 22 de Maio de 2002)

Referências
Fox, Michael Allen (2002) “The Moral Community” in Ethics in Practice: An anthology, ed. by Hugh LaFollette, Blackwell, Oxford.
Oderberg, David (2000) “Animals” in his Applied Ethics: A non-consequentialist approach, Blackwell, Oxford.
Todos os direitos reservados. Só é permitido reproduzir este texto caso se cite a sua origem (“Texto originalmente publicado em http://www.criticanarede.com”) e caso seja reproduzido em publicações não-comerciais.

 

Carne e Produção de Massa



O que o consumo da carne tem a ver com as linhas de montagem de produção em
massa ?

Linhas de montagem é uma idéia que Henry Ford teve. As linhas de montagem
permitiram a produção em massa de automóveis. Essas linhas de montagem logo
foram copiadas para outras indústrias, tanto de bens como de serviços. A
difusão desse conceito, por sua vez, permitiu a existência da sociedade de
consumo em massa como a conhecemos hoje.

O que pouco se comenta é o fato de Henry Ford teve a idéia da linha de
montagem ao visitar uma espécie de linha de "desmontagem". Explicando
melhor:  segundo consta em sua autobiografia "My Life and Work" (1922),
Henry Ford teve essa idéia ao visitar um matadouro em Chicago.

As linhas de desmontagem dos matadouros e frigoríficos foram inventadas por
Gustavus Swift e Philip Armour, de acordo com um livro da Universidade de
Illinois, "Work and Community in the Jungle:  Chicago's Packinghouse Workers
1894-1922". Esses dois sim, foram os verdadeiros pioneiros da produção em
massa.

Nesses frigoríficos, os animais eram suspensos de cabeça para baixo por uma
corrente que corria presa à uma calha, passando de um funcionário para o
outro. Cada um executando uma tarefa específica no desmembramento da carcaça
(atordoamento, corte da cabeça, sangramento, escaldamento, retirada do
couro, corte dos membros, remoção das vísceras, lavagem, serragem, etc).

Aos olhos de Ford, esse procedimento era tão eficiente que ele reverteu o
processo de desmontagem no sentido de que em vez de fragmentar um animal,
ele criaria um produto com a linha de produção:  uma carcaça de automóvel
passaria de funcionário a funcionário, sendo uma ou mais peças integradas em
cada etapa, até atingir o produto final.

O que talvez ele não tivesse idéia ou não deu muita importância, é que, ao
mesmo tempo, nesse processo ele estaria desmontando o ser humano também.

Uma das coisas básicas que deve acontecer em um frigorífico (linha de
desmontagem) é que o animal deve ser tratado como um objeto inerte e
inconsciente, cujo valor ético e cujas necessidades são ignoradas. Da mesma
forma, o empregado da linha de montagem é tratado como um objeto
inconsciente, cujas necessidades emocionais e criativas são ignoradas.

A introdução da linha de montagem teve um efeito rápido e perturbador nas
pessoas. A padronização do trabalho e a separação do produto final se tornou
fundamental na experiência dos empregados. O resultado foi um aumento na
alienação dos trabalhadores em relação ao produto que eles construíam. Essa
espécie de automação isolou as pessoas do senso de realização através da
fragmentação de suas tarefas.

Para as pessoas que trabalham em frigoríficos, essa aniquilação do ser é
dupla:  não apenas elas têm que se conformar em executar a mesma operação
tediosamente horas e horas, como também terão que enxergar o animal como
"carne", coisa que a sociedade já faz, mas com a diferença que esses
funcionários estão lá vendo o animal vivo e por inteiro, pelo menos nos
estágios iniciais do processo.

Esses funcionários têm toda a probabilidade de se alienarem de seus próprios
corpos, à medida que precisam isolar a imagem da carne da imagem do corpo do
animal vivo. Corpo esse que é parecido com o corpo humano em muitos
aspectos. Isso pode ser um dos motivos pelos quais a rotatividade de emprego
é grande entre os trabalhadores de frigoríficos.

Henry Ford desmembrou o significado do trabalho, introduzindo produtividade
mas tirando a sensação dos empregados de estarem sendo produtivos. Esses
empregados, em vez de estarem sendo considerados como seres humanos
integrais, são considerados por tarefa, função e especialidade.

E tudo o que se deseja dos funcionários em uma empresa é o lucro que se
possa obter deles, assim como tudo que se deseja de um animal no matadouro é
o lucro que se possa obter de sua carne. O que os funcionários pensam,
sentem ou sofrem não é levado em conta, da mesma forma que o que os animais
sentem e sofrem também não é considerado.

E a metáfora acaba ficando evidente quando as pessoas usam certas expressões
para comunicar o cotidiano das relações entre empresa e empregados. O "corte
de cabeças" é usado para designar a eliminação de postos de trabalho. A
expressão "tirar o meu couro" é usada para explicar o trabalho desgastante.
Outros preferem dizer "tirar o meu sangue". Muitas pessoas reclamam:  "o
chefe está no meu pescoço". Recrutadores são chamados de "headhunters". As
baias ou cubículos dos escritórios imitam as cocheiras das fazendas-fábricas
de criação intensiva, onde os seres são privados de contato entre si e com o
mundo exterior. Até mesmo um jornal do sindicato dos bancários se chama
"O Massacre".

Upton Sinclair já havia percebido esses paralelos no início do século ao
escrever "The Jungle" (A Selva), usando o matadouro para descrever o destino
dos trabalhadores. Bertold Brecht também empregou a imagem do abate dos
animais para caracterizar a desumanidade nas grandes empresas em sua peça
"Saint Joan of the Stockyards" (Santa Joana dos Currais).

Assim, o ciclo se fecha e o matadouro se torna um símbolo da de-humanização
dos trabalhadores. E essa de-humanização, por sua vez, é consequência de um
sistema derivado de matadouros.

E no fundo disso tudo, está o vício pelo qual um ser humano encara todas as
coisas - natureza, seres sensíveis como os animais e seres criativos e
inteligentes como os humanos - como meros objetos para o seu abuso
egocêntrico.

[Baseado em "The Sexual Politics of Meat" de Carol J. Adams]

Internacionalização da Amazônia – Parte 1 (artigo de Cristovam Buarque)

O Mundo Para Todos

CRISTOVAM BUARQUE

Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da Internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro.

Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.

Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.

Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.

Cada museu do mundo é quardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um pais. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada.

Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. 
Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o pais onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.

Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.

CRISTOVAM BUARQUE é professor da UNB, 
autor do livro “A cortina de ouro”

ESSA CARTA CHEGOU ENCAMINHADA AO NOSSO E-MAIL. CONSIDERAMOS A MESMA DE EXTREMA RELEVANCIA, E ASSIM RESOLVEMOS PUBLICÁ-LA AQUI, NA ÍNTEGRA.

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PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E FOME

PRODUÇÃO DE ALIMENTOS, DEGRADAÇÃO AMBIENTAL E FOME
O Banco Mundial e a FAO estimam que, no início dos anos 80, entre 700 milhões e um bilhão de pessoas viviam em absoluta pobreza ao redor do mundo. Ao contrário do que muitos pensam, o pobre está ficando cada vez mais pobre a cada ano. Quarenta e três nações em desenvolvimento terminaram os anos 80 mais pobres do que eram no início da década.

No continente africano, cerca de um em cada quatro seres humanos é subnutrido. Na Ásia e no Pacífico, 28% da população passa fome. No Oriente Próximo, um em cada dez são subnutridos. A fome crônica afeta mais do que 1,3 bilhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Na América Latina, uma em cada oito pessoas vai para a cama com fome todas as noites. No Brasil mais de 30 milhões de pessoas são classificadas como indigentes pelas estatísticas oficiais. Em 1980, cerca de 44% da população vivia em estado de pobreza absoluta.

Certamente esta triste realidade está ligada a um sistema que exclui boa parte da população do acesso aos bens básicos necessários para assegurar-lhe uma vida digna. Investigar a questão da excludência passa necessariamente por uma análise profunda das premissas que fundamentam os sistemas dominantes no mundo, mas este tema foge ao escopo do presente trabalho. O que se quer aqui é chamar atenção para um importante aspecto da nossa vida diária, qual seja, nossos hábitos alimentares, e mostrar como eles se encontram hoje estreitamente ligados ao quadro de miséria, subnutrição e fome acima referido. Estão ligados também a um enorme desperdício, à degradação do meio ambiente e à má saúde da população como um todo.

Muitos estão preocupados com os graves problemas ambientais e sociais com os quais nos defrontamos a nível global, contudo, poucos estão cientes das enormes implicações que o simples ato de comer tem sobre vários destes problemas. Ao investigarmos esta questão, vemos que existem efeitos de amplo alcance na mudança fundamental das nações ocidentais, que se deu, sobretudo, depois da IIª Guerra Mundial, de uma dieta composta principalmente de alimentos de origem vegetal para uma dieta à base de alimentos de origem animal.

Por exemplo, em 1985 os norte-americanos consumiam a metade dos grãos e batatas que consumiam na virada do século, 33% mais lacticínios, 50% mais carne de gado e 280% mais frangos. Esta mudança resultou em uma dieta com um terço a mais de gordura, um quinto a menos de carboidratos e níveis de consumo de proteína que excediam grandemente as recomendações oficiais. Um dos problemas de uma dieta baseada em proteína animal está nas gorduras saturadas que a acompanham e na ausência de fibras. Tais gorduras estão associadas à maioria das ‘doenças da abundância’ (diseases of affluence – doenças cardíacas, câncer e diabetes), principais causas de morte nos países ricos.

Tradicionalmente, a alimentação humana centrou-se nos alimentos vegetais. Apenas muito recentemente os países ricos e a elite urbana de países pobres, começaram a basear sua alimentação na carne. Paralelamente, nas últimas décadas, houve um significativo aumento na produção de grãos como resultado do uso de fertilizantes químicos, pesticidas etc., enfim, o que é conhecido como revolução verde. Este excedente de grãos, contudo, não foi repassado para os que têm fome, mas para a criação de animais, que cada vez mais são criados confinados.

O estilo americano tem uma influência enorme na vida de muitos países, e isso não se dá de forma inocente ou espontânea, mas é reflexo de lobby, políticas de incentivo, marketing da indústria de alimentos entre outras medidas.

O Brasil não foge à regra ao importar esse estilo, que entra pesadamente tanto na maneira como são produzidos os alimentos, como nos hábitos que se alteram.

Quase metade dos cereais produzidos no Brasil são destinados a alimentar animais de criação. O feijão, tradicionalmente fonte importante de proteína de nossa dieta cede terreno ao soja (para alimentar animais e exportar). Seu preço em conseqüência se tornou muito elevado ficando fora do alcance de muitos.

Em seu lugar aparecem um sem-número de junky foods, macarrões vitaminados e outros produtos que, na verdade, não alimentam, apenas “enchem a barriga”. E os ricos estão ficando doentes por consumirem carne e seus derivados em demasia, o que resulta, como já mencionado, em problemas de saúde de vários tipos.

A crescente demanda por produtos animais resultou em uma vasta realocação de recursos, promoveu a degradação dos ecossistemas globais, desmantelou e deslocou culturas indígenas em todo o mundo. O impacto na saúde e na desnutrição de boa parcela da família humana tem sido igualmente devastador.

Rastreando estes problemas até suas raízes em nossos hábitos alimentares – nossa demanda por alimentos provenientes do reino animal – vemos que ao mudar nossas dietas podemos desempenhar um importante papel no sentido de ajudar a curar a Terra e a criar um mundo sustentável para nossos filhos.

Distribuição de Recursos Alimentares e Fome Mundial

A fome no mundo é uma realidade dolorosa, persistente e desnecessária. No momento, existe suficiente terra, energia e água para bem alimentar mais do que o dobro da população humana, contudo a metade dos grãos produzidos é destinado aos animais enquanto milhões de seres humanos passam fome. Em 1984, quando centenas de etíopes morriam diariamente de fome, a Etiópia continuava a cultivar e exportar milhões de dólares em alimento para o gado do Reino Unido e outras nações da Europa.

Número de pessoas que morreram como resultado de desnutrição e fome em 1992: 20.000.000

Número de crianças que morrem em decorrência da desnutrição e fome a cada dia: 38.000

Freqüência com que morre uma criança na terra como resultado de desnutrição e fome: a cada 2,3 segundos

Quantidade de cereal e soja, em quilos, necessária para produzir um quilo de carne hoje nos Estados Unidos: 7

Pessoas que podem ser nutridas usando a terra, a água e a energia que seriam liberadas se os norte-americanos reduzissem seu consumo de carne em 10%: 100.000.000

Utilização de Recursos

A criação de gado tem impactos enormes e de amplo alcance sobre a biosfera em razão dos alimentos animais serem muito menos eficientes em sua produção do que os alimentos vegetais. Muito daquilo com que alimentamos o gado se transforma em subprodutos não comestíveis ou simplesmente é desperdiçado nos processos metabólicos.

Devido a esta ineficiência básica, cultivar cereais e grãos para produzir alimentos animais para grande número de pessoas requer a alocação de vastas quantidades de terra, água e energia.

Nos Estados Unidos, mais de um terço de todo o material bruto – incluindo combustíveis fósseis – consumido de um modo geral é destinado à criação de gado.

No Brasil, 44% das culturas destinam-se a produzir alimentos para os animais, isto é, quase a metade de tudo que nosso solo produz é usado para alimentar animais, que, por um lado, ao serem transformados em alimentos só podem nutrir reduzida parcela da população, uma vez que a vasta maioria não tem poder aquisitivo para comprar carne e, por outro, geram bem menos quantidade de alimentos. 23% da terra cultivada no Brasil é usada atualmente para plantar soja, metade da qual é exportada.

Quantidade em quilos de grão e soja usados para produzir um quilo de alimento a partir de:

Carne de gado 7,2
Porco 2,7
Galinha/ovo 1,3
Quantidade de nutrientes desperdiçados ao reciclar grão e soja através do gado:
Proteína 90%
Carboidratos 99%
Fibra 100%
Quantidade de pessoas que poderiam ser alimentadas com cereais empregados na produção de um bife de 225 g: 40
Utilização da Terra

Criar gado requer o uso intensivo de vastas quantidades de terra tanto no caso dos animais serem alimentados com produtos obtidos na colheita ou deixados pastar em pastagens ou florestas. Em qualquer dos casos a terra é muitas vezes destituída de sua capacidade produtiva – às vezes de modo permanente.

Quantidade de terra no mundo destinada a pastagens para o gado: metade

No Brasil, um exemplo, em Santa Catarina 2,4 milhões de hectares são explorados por lavouras, 2,5 milhões por pastagens e 1,9 milhões por matas e florestas.

Quantidade de terra própria para o plantio destinada para produzir alimento para o gado nos Estados Unidos: 64%

Quantidade de terra própria para o plantio destinada à produção de frutas e vegetais nos Estados Unidos: 2%

Produtos comestíveis que podem ser produzidos em um hectare de terra boa em quilos:

Feijão 11.200
Maçã 22.400
Cenoura 34.900
Batata 44.800
Tomate 56.000
Carne 280
Consumo de Grãos

“Alimentar a população do mundo atual com uma dieta baseada no estilo americano requereria 2 ½ vezes a quantidade de grãos que os plantadores mundiais produzem para todos os fins. Um mundo futuro de 8 a 14 bilhões de pessoas alimentando-se com a ração americana de 220 gramas diários de carne gerada a partir do consumo de grão não passa de um vôo da fantasia”
Worldwatch Institute
Durante este século a mudança fundamental na dieta das nações ocidentais de alimentos vegetais para alimentos animais resultou em uma mudança paralela na produção mundial de grãos destinados à alimentação humana para grãos destinados à alimentação de animais. O consumo de grãos pelo rebanho animal está aumentando duas vez mais rapidamente do que o consumo de grãos pelas pessoas.

Quantidade de soja cultivada nos Estados Unidos consumida pelo gado: 90%

Quantidade de milho cultivado nos Estados Unidos consumido pelo gado: 80%

Quantidade de milho cultivado no Brasil consumido pelos animais de criação: 90%

Quantidade total de grãos produzidos nos Estados Unidos consumidos pelo gado: 70%

Quantidade de grãos exportados pelos Estados Unidos consumidos pelo gado: 66%

Quantidade da colheita mundial de grãos consumidos pelo gado durante os anos oitenta: Metade

Consumo de Energia

“O óleo é usado na indústria da carne como combustível para transporte e tratores, nos fertilizantes químicos e nos pesticidas de uma maneira tal que os produtos animais podem ser considerados subprodutos do petróleo”
Worldwatch Institute
A produção de ração é um processo que requer intenso consumo de energia. Os agricultores precisam bombear água, arar, cultivar e fertilizar os campos; depois colher e transportar a colheita. Fazer funcionar as indústrias que transformam estas enormes quantidades de colheita altamente consumidora de energia em carne, aves, lacticínios e ovos requer um consumo de energia ainda maior.

Calorias de combustível fóssil gastas para produzir 1 caloria de proteína de carne: 78

Calorias de combustível fóssil gastas para produzir 1 caloria de proteína de soja: 2

Quantidade total de energia gasta na agricultura dos Estados Unidos destinada à criação de gado: Quase a metade

Energia gasta para produzir um quilo de carne de gado alimentado com ração: Equivalente a 1,7 litros de gasolina

Consumo de Água

A produção de ração e de forragem para o gado requer enorme quantidade de água, resultando na escassez de água em certas áreas. Lençóis de água tais como o gigantesco aqüífero Ogalalla nos Estados Unidos, estão sendo rapidamente esgotados. No oeste americano, a escassez exige que setores industriais, comerciais e residenciais limitem o uso de água. Raramente os consumidores são advertidos de que as proibições de regar os gramados, lavar automóveis e outras devem-se, em parte, à grande quantidade de água que é extraída para o cultivo de grãos para o gado e outras criações.

Atividade responsável por mais da metade de toda a água consumida para todos os fins nos Estados Unidos: Criação de gado

Número de litros de água necessários, na Califórnia, para produzir 1 quilo comestível de:

Tomates 39
Alface 39
Batata 41
Trigo 42
Cenoura 56
Maçã 83
Laranja 111
Leite 222
Ovos 932
Galinha 1.397
Porco 2.794
Carne de gado 8.938
Tempo que leva para uma pessoa usar 20.000 litros de água no banho (5 duchas por semana, 5 minutos por banho, com um gasto em média de 15 litros por minuto): Um ano


Questões Populacionais

O aumento do consumo de carne, aves e lacticínios gerou uma explosão na população de gado no mundo todo. O número de cabeças de gado dobrou nos últimos 40 anos, e no mesmo período a população de aves triplicou.

População Mundial Atual:

Seres Humanos: 5,4 bilhões
Gado: 1,3 bilhões
Porcos, ovelhas, cabritos, cavalos, búfalos e camelos: 2,7 bilhões
Aves: 11 bilhões

Meio Ambiente
O uso inadequado do solo e dos recursos requeridos para suprir o mercado com alimentos provenientes do reino animal agravou e acelerou a crise ambiental.

Poluição da Água

O consumo excessivo de produtos animais desempenha papel proeminente na poluição da água. A explosão da população de animais de criação resultou em uma paralela explosão de resíduos animais. Os resíduos das fazendas-empresas, rapidamente inundaram os mercados de estrume resultando no acúmulo de montanhas de resíduos animais. O nitrogênio proveniente destes resíduos é convertido em amônia e nitrato e infiltra-se nas águas do subsolo e da superfície, poluindo poços, contaminando rios e riachos e matando a vida aquática. De acordo com a Agência de Proteção do Meio Ambiente dos Estados Unidos, cerca da metade dos poços e todos os córregos do país estão contaminados por poluentes oriundos da agricultura.

Na Holanda, os 14 milhões de animais que ocupam os estábulos do sul produzem tanto esterco que o nitrato e o fosfato saturam camadas da superfície do solo e contaminam a água. A amônia proveniente da indústria de criação de animais é sozinha a maior fonte de deposição ácida nos solos holandeses, provocando mais prejuízos que os automóveis e as fábricas, segundo o Instituto Nacional de Saúde Pública e Proteção Ambiental do país.

Produção de excremento pela criação de animais dos EUA: 104.000 quilos por segundo

Resíduos criados por um rebanho de 10.000 cabeças: igual a uma cidade de 110.000 habitantes

Poluição da água atribuível à agricultura, incluindo a vazão de solo, pesticidas e estrume: Maior do que todas as fontes industriais e municipais combinadas

Erosão do Solo

A utilização excessiva da terra causada pela criação de gado resultou na contínua perda da camada fértil da terra. Por todo o globo, a terra, que é a própria base da produção de alimentos, está sendo rapidamente erodida. Pressões da competição muitas vezes forçam os fazendeiros a optar por métodos de produção de baixo custo que deixam o solo exposto ou a submeter terras fracas à produção intensiva, resultando em sua ruína.

Perda corrente anual da camada fértil da terra na agricultura nos Estados Unidos: Mais de 5 bilhões de toneladas

Terra própria para o cultivo nos Estados Unidos que foi permanentemente removida devido à excessiva erosão: Um terço

Terra fértil perdida na produção de um quilo de carne: 77 quilos

Erosão do solo associada a culturas destinadas à alimentação do gado e à produção de pastagens: 85%

Camada superior de solo perdida anualmente no mundo em terras utilizadas para a agricultura: 26 bilhões de toneladas

Tempo necessário para a natureza formar cada 2,5 cm de terra fértil: 200 a 1000 anos

Causa mortis histórica de muitas grandes civilizações: Esgotamento do solo

Desertificação

O uso intensivo da terra encorajado pela necessidade de produzir alimentos de origem animal de modo competitivo fez com que a desertificação se espalhasse amplamente em muitos países. Desertificação é o empobrecimento de ecossistemas áridos, semi-áridos e sub-áridos pelo impacto das atividades humanas.
As regiões mais afetadas pela desertificação são as áreas produtoras de gado, inclusive o oeste americano, a América Central e do Sul, a Austrália e a África Subsaariana.

A desertificação dos campos e florestas deslocou a maior massa migratória na história do mundo. Na virada do século, mais de metade da população viverá em áreas urbanas.

Quantidade de terra tornada improdutiva pela desertificação anualmente no mundo: 21 milhões de hectares

Percentual da terra no mundo que sofre desertificação: 29%

Principais causas de desertificação:

Pastoreio excessivo
Cultivo intensivo da terra
Técnicas impróprias de irrigação
Desflorestamento
Falta de reflorestamento

Fator principal em todos os casos: Criação de gado

Florestas Tropicais

A cada ano cerca de 200.000 quilômetros quadrados de florestas tropicais são destruídas de forma permanente ocasionando a extinção de aproximadamente 1000 espécies de plantas e animais.

Na América Central as fazendas de gado destruíram mais florestas do que qualquer outra atividade.

90% dos novos fazendeiros da Amazônia abandonam as terras em menos de 8 anos, em razão do solo se encontrar totalmente esgotado.

Florestas derrubadas na América Central para dar lugar a fazendas de gado: 25%

Taxa atual da extinção das espécies devido à destruição das florestas tropicais e seus habitats: 1000/ano

Remédios disponíveis hoje derivados das plantas: um quarto

Obs. Este artigo é amplamente baseado em Our Food Our World – The Realities of an Animal-Based Diet, EarthSave Foundation, Santa Cruz, 1992. Tradução e adaptação de Marly Winckler.

Leituras afins:

1. Brown, Lester R. (org.), Salve o Planeta! Qualidade de Vida – 1990 – Worldwatch Institute. Ed. Globo, São Paulo, 1990.
2. Lappé, Frances Moore. Dieta Para um Pequeno Planeta, Ground, São Paulo, 1985.
3. Rifkin, Jeremy. Beyond Beef. The Rise and Fall of the Cattle Culture. A Dutton Book, New York, 1992.

http://www.vegetarianismo.com.br

 

 

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Energia e Floresta

Energia e Floresta

Paulo de GÓES

Se é verdade que a crise de energia hoje é atribuída à falta de investimentos a longo prazo na sua geração e transmissão, somada à seca atípica que assolou o Sudeste e o Nordeste do país, também é certo que essas não são as únicas causas. Considerando que a nossa eletricidade é gerada principalmente por usinas hidroelétricas, e que a reserva de água nos açudes é a principal escassez, pergunta-se: de onde vem essa água e quais os problemas nesse trajeto?

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O clima no Sudeste tem uma distribuição muito desigual das chuvas, que alcançam 200-300 mm/mês nos meses de verão, chegando em média a 20 mm/mês no período mais seco do inverno. Isso significa que as chuvas de verão abastecem os lençóis de água (água acumulada no solo) de forma a garantir a permanência de nosso rios através do período seco, abastecendo lagos, açudes e barragens.

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A constituição geológica do Sudeste funciona como uma esponja, que recebe e acumula água na época de chuvas intensas e a libera gradativamente no período de seca. Para que esse processo funcione bem, é essencial a abundante penetração das águas de verão no solo. A cobertura vegetal na superfície do solo é um fator determinante desse processo.

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Quando a cobertura é florestal, a chuva molha primeiro a folhagem, para depois ir lentamente chegando ao solo, penetrando gradativamente até atingir camadas mais profundas, O solo coberto com floresta garante maior permeabilidade, tornando-se capaz de absorver a água proveniente de chuvas torrenciais de verão. Já em solos desmatados, com baixa densidade de cobertura vegetal, essas chuvas alcançam rapidamente o solo, e este, por ter menor permeabilidade à água, permite que o excesso comece a escorrer pela superfície, gerando erosão e arrastando partículas de solo para o leito dos rios, processo chamado de assoreamento. O desmatamento tem como saldo um abastecimento menor dos lençóis de água, ao mesmo tempo em que acentua as enchentes, pelo escorrimento superficial com acréscimo rápido de grandes volumes de água aos leitos reduzidos pelo assoreamento.

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Na região Sudeste, o desmatamento da Mata Atlântica alcançou mais de 90% de sua área sendo hoje necessário recuperar essa perda através do reflorestamento, para garantir nossos mananciais hídricos. O desafio de como fazer isso passa pelo reconhecimento da importância do reflorestamento de grande porte, viabilizando politicamente seu financiamento, e buscando conciliá-lo com o uso agrícola e pastoril. A importância do reflorestamento é óbvia, pelo ganho do aumento dos recursos hídricos de que tanto carecemos para fins energéticos e de abastecimento, reduzindo os prejuízos das enchentes, preservando a biodiversidade, que necessita de matas, aumentando o estoque sustentável de madeira e por fim captando através da fotossíntese grande quantidade de CO2 da atmosfera, contribuindo assim para a redução do efeito estufa. Resta discutir melhor as estratégias de reflorestamento e como superar os empecilhos para sua concretização.

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Na região Sudeste, atualmente ressentida pela escassez de água, encontram-se as cabeceiras do Rio São Francisco e as bacias hidrográficas dos rios Paraíba do Sul e Doce. Grande parte dessa região de topografia acidentada chamada de “Mar de Morros” tem pouca agricultura e revela alta potencialidade o reflorestamento. O Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, usa aproximadamente 50% para pecuária e menos de 3% para agricultura. Sua indiscutível vocação florestal até agora sempre foi contrariada.
As prioridades na região montanhosa do Sudeste poderiam voltar-se para um reflorestamento calcado na produção de madeira, na exploração agroflorestal (que permite o uso agrícola combinado com a floresta), e com exploração extrativista. Em área de pastagem deveria ser feito um consórcio com plantio espaçado de determinadas espécies de árvores que beneficiariam o solo, e com isso, o gado. Nas regiões mais propícias à agricultura, o principal é preservar ou resgatar as matas ciliares que margeiam os rios e garantir o cumprimento dos percentuais da legislação nas propriedades. As matas ciliares são muito importantes porque retêm o assoreamento e constituem barreiras aos resíduos de agrotóxicos, evitando que alcancem os rios. Formam ainda corredores, entre fragmentos florestais, que permitem a sobrevivência de animais de maior porte, que de outra maneira seriam extintos. Uma possibilidade a mais são cercas reflorestadas para proteger as plantações do ressecamento pelo vento, beneficiando a produção agrícola.

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Se o reflorestamento tem tantas virtudes e pode ser feito de forma compatível com a exploração agropastoril, por que não é feito em larga escala? O reflorestamento, mesmo com eucalipto ou pinus, espécies para a qual dispomos de tecnologia eficiente, não representa um bom retorno de investimento, quando a madeira é utilizada em forma de lenha, a não ser que sua produção tenha um valor agregado, como é o caso da produção de celulose. Em outras palavras, não haverá um reflorestamento significativo se essa atividade for regulada somente pelas leis do mercado. O sucesso do reflorestamento no Brasil só ocorreu no período em que havia incentivos fiscais. Não podemos submeter a ação política apenas a cálculos econômicos, pois estão em jogo todas as nossas atividades, que hoje dependem de energia elétrica, assim como a qualidade de nosso meio ambiente.

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Um ambiente degradado resultará num novo equilíbrio da natureza. Por isso devemos decidir se continuamos a resolver os problemas de forma imediatista ou se procuramos estabelecer uma harmonização de nossas necessidades, respeitando o ambiente em que vivemos. Possibilidades temos e muitas. A questão é decidir qual o caminho a ser escolhido.

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Paulo de Góes é professor do Instituto de Microbiologia da UFRJ
Extraído do Jornal do Brasil de 5 de Junho de 2001

 

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