Associação brasileira de LABORATÓRIOS rebate declarações de Drauzio Varella sobre fitoterápicos

ALANAC rebate declarações de Drauzio Varella sobre fitoterápicos
Sex, 27 de Agosto de 2010 15:43
Os fitoterápicos e plantas medicinais são hoje as classes de produtos que possuem maior potencialidade de crescimento no Brasil devido a sua biodiversidade que, associada a uma rica diversidade étnica e cultural que detém um valioso conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais, tem o potencial necessário para desenvolvimento de pesquisas com resultados em tecnologias e terapêuticas apropriadas.

O uso desses medicamentos pelo mundo é muito antigo e está cada vez maior, e como exemplo temos a Alemanha, cujo mercado de fitoterápicos é enorme. Cerca de 60% dos médicos alemães prescrevem fitoterápicos à população, produtos estes registrados no EMEA, órgão regulador europeu que tem as exigências mais rigorosas para o registro, semelhantes às brasileiras.

Sobre esse assunto, o coordenador técnico da ALANAC – Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais, Douglas Duarte é categórico: “Como podemos criticar a política alemã de medicamentos, uma vez que o poder aquisitivo da grande maioria da população é muito superior à dos brasileiros?”. Segundo ele, não existe esta imagem de que a fitoterapia é para pobres. É apenas uma terapia alternativa à alopatia sintética.

A questão do preconceito com relação aos fitoterápicos – por falta de informação, mas principalmente por má informação – ainda é um fator limitante para a utilização maciça pela população brasileira, pois a classe médica ainda tem algumas restrições ao uso desses medicamentos devido à complexidade de atuação destes produtos quando administrados.

Dizemos isso, fazendo referência à matéria “Ervas medicinais: os conselhos de Drauzio Varella” (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI162899-15230,00.html), publicada na revista época e também, na série “É bom para quê?”, que estréia neste domingo, dia 29 de agosto, no Fantástico, que a Rede Globo exibe às 20h50, e que terá quatro episódios, gostaríamos de deixar registrada nossa discordância com relação às colocações do médico sobre os medicamentos fitoterápicos.

Quando chama a fitoterapia de “medicina extremamente popular”, Drauzio Varella ignora que as indicações terapêuticas permitidas pela ANVISA nos produtos fitoterápicos são oriundas de monografias de plantas e publicações científicas indexadas e ainda ensaios clínicos com as plantas estudadas e avaliadas pela ANVISA.

Ainda maior engano, comete quando diz que os “fitoterápicos são registrados na Anvisa como complemento alimentar. Ou seja: não passam pelo mesmo crivo de um medicamento”. Medicamentos fitoterápicos NÃO são registrados como complementos alimentares. Esta é uma política de registro utilizada pelo FDA (órgão dos EUA que regulam a área da saúde). No Brasil, os fitoterápicos são uma categoria de medicamentos, obedecendo todos os rigores regulamentados pela ANVISA, como os requisitos para registro, Boas Práticas de Fabricação e Controle, Farmacovigilância e demais requisitos, além da comprovação de segurança e eficácia, através da apresentação de estudos pré-clínicos e clínicos, de forma semelhante aos medicamentos químicos-sintéticos.

Para o membro do conselho da ALANAC, Josimar Henrique da Silva, Presidente da Hebron Farmacêutica, o médico Drauzio Varella não sabe o que diz: “Não sabe mesmo. Não sabe os rigores da ANVISA, bem mais rigorosa na aprovação de medicamentos que sua coirmã européia e a americana. Se soubesse disso, saberia que há registros de fitomedicamentos similares aos nossos na Europa e Estados Unidos, enquanto nós, brasileiros, não conseguimos esses registros no país, tampouco patenteá-los”, explica. “Para dar algum conhecimento a quem precisa de algum, a maioria dos estudos brasileiros com fitoterápicos, cumprindo todos os requisitos internacionais de pesquisa clínica, são colocados em um fila interminável de espera e exigências. Resta aos laboratórios, em parceria com centros de pesquisas, recorrerem à intermediação da justiça para fazerem o medicamento incluir-se em algum lugar de validade.”

Abaixo todos os tópicos levantados pelo médico Drauzio Varella, com as devidas correções feitas pelo departamento técnico da ALANAC.

Drauzio Varella – “Mais da metade dos medicamentos são derivados dos produtos naturais. A morfina e a aspirina são alguns exemplos. Ervas e chás são usados desde sempre. Galeno desenvolveu no século II uma poção que tinha mais de 70 ervas. Até carne de cobra tinha nessa poção. Era usada tudo o que você pode imaginar. Essa poção foi usada até o século XIX na Europa. Foram acrescentando outras coisas. Chegou a ter mais de cem plantas misturadas. Era uma panacéia. À medida que a química analítica foi se desenvolvendo, especialmente na Alemanha, eles começaram a procurar nessas plantas quais eram os princípios ativos. Da papoula, os alemães isolaram a morfina. De outra planta, isolaram a aspirina. Foi assim que a farmacologia se desenvolveu. Mas a tradição de usar chás sempre existiu. Todos nós temos na família um chá predileto. Uma coisa é dar um chá de camomila para criança. Isso é feito há séculos e a gente sabe que não faz mal nenhum. Ou chá de erva cidreira para acalmar, para dormir etc. Outra coisa é usar chás para tratar de doenças. Essa é uma medicina extremamente popular, mas é um problema”.

ALANAC: As indicações terapêuticas permitidas pela ANVISA nos produtos fitoterápicos são oriundas de monografias de plantas e publicações científicas indexadas e ainda ensaios clínicos com as plantas estudadas e avaliadas pela ANVISA.

ÉPOCA – O Ministério da Saúde elegeu oito plantas às quais se atribui alguma atividade e passou a distribuí-las no SUS. São elas: alcachofra, aroeira, cáscara sagrada, garra do diabo, guaco, isoflavona da soja e unha de gato. Isso é ruim?
Drauzio –
“Que tipo de medicina o governo cria com uma medida como essa? Ele institui duas medicinas: a do rico e a do pobre. As pessoas que têm acesso ao atendimento de saúde vão a médicos e compram remédios em farmácia. O que o governo fez foi criar uma medicina para pobres baseada em plantas que não têm atividade demonstrada cientificamente. Quando dizem que determinada planta tem atividade isso significa que em tubo de ensaio ela demonstrou ter determinada ação. Mas isso não basta. Para ter ação comprovada em seres humanos, falta muita coisa. A demonstração científica da atuação dos fitoterápicos para chegar às possíveis indicações terapêuticas estão sendo estudadas no mundo todo. Mesma resposta do texto acima.”

ALANAC: O Dr. Drauzio afirma que a lista de oito plantas definidas pelo Ministério da Saúde e pela ANVISA não têm atividade demonstrada cientificamente, quando na verdade existe vasto material com estudos publicados que comprova a eficácia e segurança destas plantas no tratamento de doenças. Estas oito plantas fazem parte de uma lista maior composta por 36 plantas, na qual a ANVISA definiu o registro simplificado para estas 36 espécies vegetais para as quais é dispensada a comprovação de eficácia e segurança, considerando justamente a quantidade de estudos que já foi publicado sobre cada uma dessas espécies. Se o solicitante do registro seguir todos os parâmetros especificados na lista citada, que são: parte da planta, forma de uso, quantidade de marcador, indicações, via de administração, dose diária e restrições de uso, fica dispensada a apresentação de comprovação de eficácia e segurança no processo de registro.

Drauzio – “Nosso objetivo é mostrar que esses fitoterápicos têm de ser estudados. Têm de ser submetidos ao mesmo escrutínio ao qual os remédios comuns são submetidos. Essas coisas são jogadas para o público sem passar por estudo nenhum. Hoje vemos órgãos públicos distribuindo esses chás e fazendo o que chamam de Farmácias Vivas. Estivemos em várias delas. Em Belém, Imperatriz (no Maranhão) e em Goiânia. Essas Farmácias Vivas não são nada mais do que hortas. As plantas são cultivadas ali e distribuídas para a população sem o menor critério. Muitas vezes são indicadas por pessoas que não entendem nada de medicina. Outras vezes, são prescritas por médicos. Quem não prefere tomar um chá desses em vez de um comprimido ou injeção? Essas Farmácias Vivas estão no país inteiro. São estimuladas pelo Ministério da Saúde e pelas secretarias estaduais.”

ALANAC: Os fitoterápicos devem continuar sendo estudados devido à complexidade de sua composição, mas isso não significa que hoje as empresas que os registram e comercializam não possuem informações sobre a segurança e eficácia destes produtos. A prescrição destas drogas deve ser realizada apenas por profissionais habilitados legalmente, que conhecem as indicações terapêuticas e diagnosticaram o paciente. Em raras ocasiões o uso de plantas medicinais pode substituir integralmente um tratamento medicamentoso, mas auxilia muito a diminuir a quantidade de medicamentos sintéticos utilizados em casos crônicos ou agudos, diminuindo também o número de eventos adversos.
As farmácias vivas são um Projeto de Governo abrangido pelo Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que já é realidade em muitos estados da Federação, tanto é que;° a ANVISA colocou em Consulta Pública (n° 85/2010) recentemente proposta de norma de âmbito federal para estabelecer as regras de funcionamento e dispensação de plantas medicinais para a população.
As Farmácias Vivas têm sim no terreno ao lado (ou nas proximidades) uma horta de plantas medicinais, na qual a regra define que a dispensação ocorra somente mediante prescrição médica, quando for o caso, pois há espécies vegetais que são de venda livre, e isso está mantido pela Consulta Pública supra citada.

“ÉPOCA – Os riscos e os benefícios dessas oito plantas eleitas pelo Ministério da Saúde não foram suficientemente determinados?
Drauzio –
Eles dizem que os riscos e os benefícios foram avaliados pelo uso tradicional. É para dar risada. A Anvisa dá uma relação dessas plantas e coloca qual é a alegação terapêutica. Apresentar a alegação terapêutica significa afirmar o seguinte “dizem que serve para tal coisa, mas ninguém comprovou”. É uma situação muito séria. Primeiro porque ninguém sabe de que forma essas plantas podem interagir com os remédios que a pessoa está tomando. Ninguém sabe o que pode acontecer. Outro problema grave é que as pessoas abandonam o tratamento convencional e ficam apenas com as ervas.”

ALANAC: Os riscos destas plantas podem ser estimados com muita segurança, baseados principalmente no fato de a maioria das substâncias ativas estarem presentes em concentrações muito abaixo dos limites de segurança estabelecidos por publicações indexadas. Desta forma, a chance de ocorrer uma intoxicação pelo uso de fitoterápicos é muito menor que com o uso de medicamentos sintéticos. O uso tradicional traz informações muito importantes quanto à eficácia, uma vez que o uso pela população por muitos anos sem que sejam identificados casos de intoxicação, e ainda reforçam as bases de eficácia, pois continuam sendo utilizados e recomendados pela população em geral.
O uso tradicional não só reforça a comprovação de eficácia, mas também constitui no melhor e mais seguro teste de eficácia que é soberano a qualquer pesquisa clínica de fase 03, pois são anos e anos de uso por uma população considerável de milhares a milhões de pessoas.

“ÉPOCA – A Organização Mundial da Saúde de certa forma incentiva o uso desses produtos naturais porque a maioria da população mundial não tem acesso à medicina. Nesse contexto, as ervas não têm um papel importante?
Drauzio –
Acho que esse é o cerne da discussão. É um absurdo dizer “olha, já que vocês não têm acesso à medicina se contentem tomando chazinho”. Isso é enganar a população. É dar a impressão de que as pessoas estão sendo tratadas quando na verdade não estão. Antes de oferecer essas ervas aos pacientes, é preciso avaliar a ação delas com rigor científico. Por exemplo: como saber se um determinado chá traz algum benefício contra a gastrite? É preciso separar dois grupos de pacientes. Um deles toma uma droga conhecida, como o omeprazol. O outro toma omeprazol e mais um chá que vem num sachê junto com uma bula que explique direitinho quantos minutos aquilo tem de ficar na água etc. Aí é comparar os resultados obtidos nos dois grupos. Não existe estudo assim. E ninguém está disposto a fazer. Os defensores dessa chamada medicina natural querem que o mundo aceite que é desse jeito e acabou. Sem nenhum estudo e sem passar por todo processo de avaliação científica que os medicamentos passam para poder ter a ação demonstrada.”

ALANAC: O uso de fitoterápicos pelo mundo é muito antigo e está cada vez maior, e como exemplo temos a Alemanha, cujo mercado de fitoterápicos é enorme. Cerca de 60% dos médicos prescrevem fitoterápicos à população, produtos estes registrados no EMEA, órgão regulador europeu que tem as exigências mais rigorosas para o registro, semelhantes às brasileiras. Como podemos criticar a política alemã de medicamentos, uma vez que o poder aquisitivo da grande maioria da população é muito superior à dos brasileiros? Não existe esta imagem de que a fitoterapia é para pobres. É apenas uma terapia alternativa à alopatia sintética. A planta medicinal que pode ser usado em substituição ao omeprazol é a Espinheira Santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss.) que é indicada como coadjuvante no tratamento de  gastrite e úlcera gastroduodenal, além de tratar dispepsias, na qual pela norma (Instrução Normativa 05/2008) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, a dispensação de Espinheira Santa é isenta de prescrição médica.

“ÉPOCAO Ministério da Saúde errou ao adotar essa política?
Drauzio
– Essa medida está totalmente errada. Isso não deveria ter sido feito de jeito nenhum. O que está por trás disso é uma questão política. Imagine se eu fosse o prefeito de uma pequena cidade do interior. Quanto custa um posto de saúde, médico, enfermagem, paramédicos etc? Custa caro. É muito mais barato fazer uma horta e mandar o médico receitar aquilo. E ainda inauguro o negócio com o nome de Farmácia Viva. Imagine só que nome mais inadequado. Fazer uma coisa dessa não custa quase nada. E os políticos adoram inaugurar essas hortas. Há centenas delas no Brasil.”

ALANAC: Este é um projeto de Governo que já é realidade em muitos estados da federação e que faz parte do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Ao contrário do que o Dr. Drauzio diz, as Farmácias Vivas são bem estruturadas, pois serão bem regulamentadas no que se refere às boas práticas de manipulação, equipamentos e procedimentos necessários, assim como o controle de qualidade, da matéria prima ao produto que será dispensado.

ÉPOCAVocê vai criticar hábitos arraigados na cultura brasileira. Está preparado para enfrentar as críticas?
Drauzio
– Todas as séries que fizemos no Fantástico foram séries que, de um modo geral, agradavam às pessoas. Falar sobre obesidade e hipertensão são coisas úteis. Todo mundo fica de acordo. Essa nova série vai ser diferente. Ela vai me criar roblema. Em geral, quem usa esse tipo de medicina (se é que podemos chamar isso de medicina) são pessoas ignorantes, crédulas e que acreditam em qualquer besteira que digam a elas. O que me desconcerta é ver pessoas muito cultas que também usam essas coisas.Tenho amigos que usam. Recomendam suco de berinjela para baixar o colesterol e outras bobagens. Toda hora ouvimos falar isso. Tenho um amigo que é seguramente a pessoa mais culta que eu conheço. Tem uma cultura absurda, mas acredita em todas essas idiotices. Às vezes as pessoas têm uma cultura gigantesca em outras áreas, mas em farmacologia são completamente ignorantes. Tão ignorantes quanto o coitado que não pôde aprender a ler e a escrever e credulamente vai atrás dessas coisas.”

ALANAC: A fitoterapia é uma ciência como as outras, com especialistas que dedicam seu tempo e em alguns casos a vida inteira para pesquisar e desenvolver estes produtos. Basta verificar nas Universidades públicas e privadas a quantidade de pesquisadores (Doutores, Pós-Doutores, Livre-Docentes e Titulares), especialistas em fitoterápicos e plantas medicinais, nas faculdades de farmácia. O programa Nacional da Política de Medicamentos Fitoterápicos tem a finalidade de implementar o uso seguro de fitoterápicos em nível nacional, considerando sempre o risco sanitário do uso destes produtos. Há um comitê instalado contando com a representação de diversos setores, inclusive membros da sociedade civil, que estão debatendo e apontando quais os caminhos a serem traçados para que o aumento da utilização de fitoterápicos gere uma demanda que fomente o desenvolvimento de novos produtos pelas empresas e universidades, para então alavancar o mercado.

ÉPOCAAlém dos chazinhos, existem produtos fitoterápicos registrados pela Anvisa e vendidos nas farmácias. Esses também não são submetidos a estudos para comprovar eficácia e riscos?
Drauzio – Eles são registrados na Anvisa como complemento alimentar. Ou seja: não passam pelo mesmo crivo de um medicamento. Se eu tivesse autoridade para isso, mandaria recolher do mercado todos os fitoterápicos cuja eficácia não tenha sido demonstrada cientificamente.”

ALANAC: Medicamentos fitoterápicos NÃO são registrados como complementos alimentares. Esta é uma política de registro utilizada pelo FDA (órgão dos EUA que regulam a área da saúde). No Brasil, os fitoterápicos são uma categoria de medicamentos, obedecendo todos os rigores regulamentados pela ANVISA, como os requisitos para registro, Boas Práticas de Fabricação e Controle, Farmacovigilância e demais requisitos, além da comprovação de segurança e eficácia, através da apresentação de  estudos pré-clínicos e clínicos, de forma semelhante aos medicamentos químicos-sintéticos.

ÉPOCAImagino que muita gente vai dizer que você está defendendo os grandes laboratórios. Como vai responder a essa crítica?
Drauzio
– Não tenho a menor dúvida de que esse tipo de comentário vai surgir. Minha resposta é simples. Não estamos fazendo defesa de nenhum medicamento. Não estamos beneficiando nenhum laboratório. Essa é uma questão filosófica. Enquanto a medicina era baseada em chazinhos, as pessoas viviam apenas 30 ou 40 anos. As pessoas falam tanto da medicina chinesa, não é? Elas justificam a eficácia da medicina chinesa dizendo que é milenar. Mas no início do século XIX os chineses (que contavam com essa medicina há muito tempo) morriam, em média, aos 30 anos. Quem provocou esse salto na qualidade e na duração da vida foi a medicina moderna: as vacinações, os antibióticos, o controle da pressão arterial, do diabetes etc. Na verdade, esse é um argumento ideológico recorrente. Dizem que é preciso dar chazinhos porque as multinacionais fazem remédios caros, que envenenam as pessoas etc. Criam uma teoria da conspiração. Todo mundo sabe que teoria da conspiração é uma coisa que pega.”

ALANAC: A pesquisa de medicamentos fitoterápicos por parte das grandes empresas não progride pois não há interesse comercial destas empresas (interesses estes normalmente definidos nas matrizes nos países de origem) no Brasil, pois é um mercado muito pequeno perto do faturamento global que estas empresas possuem.

ÉPOCAÉ possível conciliar o tratamento convencional com algum fitoterápico? Quando o paciente pergunta se pode fazer o tratamento e continuar tomando uns chazinhos ou umas cápsulas o que você responde?
Drauzio
– A resposta certa é: eu não sei. Não sabemos se existem interações. Documentar interação entre medicamentos tradicionais (com dose fixa e tudo) já é difícil. Imagine um chá desses que tem dezenas ou centenas de substâncias. Como você pode garantir que não existe nenhum antagonismo? Esse é o primeiro ponto. Digo para os pacientes não perderem tempo com essas coisas. O segundo ponto é que a medicina não pode ser feita com drogas que temos que provar que fazem mal. Temos provar que fazem bem. Se não isso não tem fim. Não chegamos a lugar nenhum. É errado dizer que o fitoterápico, pelo menos, vai fazer bem psicologicamente, que vai produzir um efeito placebo etc. Isso é enganar as pessoas. É o mesmo que dizer: vou te dar uma coisa que não serve para nada, mas como você é boba vai achar que serve e vai ficar feliz.”

ALANAC: Reiteramos que o fitoterápico é sim um medicamento registrado na ANVISA sob regras técnicas e científicas amparadas no marco regulatório estabelecido pelas principais agências reguladoras, como EMEA, FDA e OMS. A Europa apresenta hoje o maior índice de utilização de medicamentos fitoterápicos no mundo, consumo este baseado principalmente na tradicionalidade e segurança que estes produtos apresentam ao serem usados durante décadas, por vezes séculos sem apresentar casos de intoxicação, e alta margem de eficácia. Não podemos ignorar o efeito placebo, mas certamente os fitoterápicos apresentam ação comprovada por diversos estudos científicos indexados.
ÉPOCAO que mais o surpreendeu durante a preparação da série?
Drauzio
– Fiquei surpreso ao ver que o uso das ervas é feito sem nenhum controle e ainda é referendado por órgãos públicos, ligados ao Ministério da Saúde ou à Embrapa. Fiquei ainda mais surpreso com o discurso que existe por trás dessas coisas. Dizem que o uso das ervas tem fundamento científico. O fundamento científico é nenhum. Muitas vezes esse fundamento científico é uma tese de mestrado que alguém fez na faculdade de farmácia e que demonstrou que em determinada cultura de células ou em determinado animal uma fração daquele extrato tem alguma ação. Isso é apresentado como prova inequívoca da eficácia do extrato ou do chá. É um absurdo.”

ALANAC: Não é um absurdo, é apenas parte da evolução natural da pesquisa, como entre muitas e muitas áreas que começam a ser regulamentadas. Este início deve ocorrer em algum momento. Todas as ciências, inclusive a medicina, farmácia, odontologia e outras voltadas ao cuidado à saúde passam por marcos evolutivos, onde é necessária uma mudança de pensamentos e a quebra de alguns paradigmas através do incremento do rigor das regras, que passam a estimular e regular melhor o mercado. No caso das plantas utilizadas nas Farmácias Vivas, encontra-se vasto material com estudos que comprovam a segurança e eficácia para o tratamento de doenças e males, o uso destas plantas não está baseado em cima de uma simples dissertação de mestrado, equivoca-se o Dr. Drauzio .
ÉPOCAO que ouviu dos doentes?
Drauzio
– Essa é a parte mais triste. Muitas pessoas param de se tratar porque acreditam nessas coisas. Encontrei uma senhora em Goiânia que descobriu um tumor de mama quando ele tinha 1,5 cm. Ficou tomando chás e fazendo tratamento com argila e quando foi operada o tumor já tinha dez centímetros. E ainda disseram para ela: “ainda bem que a senhora tomou as ervas, isso fez o tumor crescer devagar. Se não tivesse tomado, o tumor teria crescido mais depressa”.

ALANAC: A fitoterapia nunca foi divulgada, prescrita ou utilizada como meio definitivo para tratamento e cura de doenças e eventos médicos. A utilização extremista de fitoterápicos como a descrita acima é prejudicial, assim como seria prejudicial à utilização única e excessiva de qualquer outro tipo de produto ou mesmo alimentação, sem que sejam observados e acompanhados os dados clínicos do paciente.

ÉPOCAMuitas vezes esse outro explica o que o médico não teve paciência de explicar, não é mesmo?
Drauzio
– Dá uma explicação estapafúrdia, mas aquilo adquire uma lógica para quem sofre. Em alguns lugares do SUS que tratam com fitoterápicos, a consulta dura 40 minutos. É um grande diferencial. É algo muito atrativo. Mas é um mundo totalmente absurdo. A preparação dos chás é muito variável. Por quanto tempo as folhas foram fervidas? O chá ficou na geladeira? Isso tudo altera a concentração da substância presente ali. Na Farmácia Viva lá de Belém tem uma plantinha chamada insulina. Usam para diabetes. Chega lá a pobre ignorante e dizem para ela não tomar a insulina que o médico receitou. Mandam tomar a plantinha.Tem outra plantinha chamada Novalgina.”

ALANAC: A prática ilegal da medicina deve ser fiscalizada pelos conselhos, e denunciada pela população quando necessário. Existem médicos que prescrevem fitoterápicos por conhecer os estudos clínicos e acreditar que a terapia indicada por ele terá efeito no quadro clínico do paciente. A ANVISA fiscaliza a colidência de nomes comerciais que possam causar confusão na dispensação ou prescrição, mas não há como interferir em alguns regionalismos como estes citados.

Drauzio – Aí temos que testar cada fração para ver qual delas é a responsável pela atividade. Essa fração é que vai em frente. Vai ser testada em animais, depois em humanos etc. É tudo muito complexo. Não cabe às autoridades responsáveis pela saúde adotar métodos de tratamento que não têm eficácia demonstrada. As autoridades não podem criar uma medicina para rico e outra para pobre baseada em tratamentos baratinhos e sem ação. Vamos tentar mostrar como funciona o método científico. Como se prova que uma coisa é boa para a saúde ou não. Não podemos aceitar que as pessoas continuem sendo enganadas.”

ALANAC: O desenvolvimento destes fitoterápicos efetuado desta forma estão sendo feitos através de PPPs e outros meios de cooperação que consigam atingir os objetivos propostos, porém os processos citados acima são apenas algumas das possibilidades de comprovar a eficácia e segurança dos fitoterápicos.
Atuação da Associação
A ALANAC atua junto à ANVISA, discutindo todas as revisões da regulamentação que estão em curso, expondo as contribuições e dificuldades do setor industrial farmacêutico nacional, visando sempre garantir a segurança dos medicamentos fitoterápicos. Participamos também do Comitê Nacional de Fitoterápicos e Plantas Medicinais, onde participam onze Ministérios entre outros órgãos federais, representantes da sociedade civil e a academia, trabalhando para a implementação da Política Nacional de Fitoterápicos e Plantas Medicinais, que tem a finalidade de implementar o uso seguro de fitoterápicos em nível nacional, considerando sempre o risco sanitário do uso destes produtos. Esta política tem como objetivo difundir o uso destes produtos, principalmente através do SUS, oferecendo mais alternativas terapêuticas e incentivando a produção e pesquisa. Há um comitê instalado contando com a representação de diversos setores, inclusive membros da sociedade civil, que estão debatendo e apontando quais os caminhos a serem traçados para que o aumento da utilização de fitoterápicos gere uma demanda que fomente o desenvolvimento de novos produtos pelas empresas e universidades, para então alavancar o mercado.

Sobre a ALANAC
A ALANAC é a legítima representante dos laboratórios nacionais, e vem demonstrando a sua importância enfrentando desafios há mais de  25 anos, buscando demonstrar para a sociedade que a existência de uma indústria farmacêutica nacional forte e desenvolvida é fundamental para a soberania de um país.

FONTE: http://www.alanac.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4787:alanac-rebate-declaracoes-de-drauzio-varella-sobre-fitoterapicos&catid=:em-acao

Foi isso mesmo que eu li, Dr. Varella?

Pelo que vemos no texto abaixo, não é de agora que o Dr. Drauzio faz colocações infelizes e que no mínimo se parecem BEM tendenciosas. É de autoria de Wilson Bueno, publicado no Blog do Wilson em 2008, e republicado aqui sob autorização expressa de seu autor.

Foi isso mesmo que eu li, dr. Drauzio Varella?

Eu sempre li e ouvi o dr. Drauzio Varella com muito interesse e respeito, mas acho que, desta vez, devo estar com os olhos cheios de grãos de poeira ou não estou raciocinando direito.

Vejamos, meu amigo, minha amiga. Confira comigo e depois me diga se estou errado ou vendo fantasmas. Tenho aqui em mãos uma entrevista do nosso doutor midiático na revista Diversa, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em novembro de 2008, por ocasião do Congresso Nacional de Saúde. A entrevista vai razoavelmente bem até a pergunta seguinte: Como o senhor vê a agressiva publicidade de medicamentos?
Aí vem a resposta, a meu ver absolutamente esclarecedora e surpreendente, do dr. Drauzio Varella:
“Este é um debate internacional. O mundo inteiro está preocupado com esse assunto, que tem sido tratado por editoriais de revistas médicas. É um questão com dois lados. De um lado, os laboratórios têm colaborado muito para o desenvolvimento da medicina e para o preparo dos médicos. A maioria dos médicos que viajam para o exterior têm suas despesas pagas pelos laboratórios. Hoje, encontro em congressos internacionais médicos recém-formados que não teriam condições de bancar com recursos próprios o custo de uma participação em eventos do gênero. Eu mesmo nunca recebi esse tipo de auxílio e até hoje arco com as despesas.
De qualquer forma, a medicina, em especial a oncologia, avançou muito por causa dessas possibilidades. Mas não existe uma pressão direta dos laboratórios. Algo do tipo: “paguei sua viagem, você tem que aceitar meu remédio”. Isso não existe. O que os laboratórios esperam é que o médico indique uma droga ao perceber que ela age melhor em certa doença. Por outro lado, a pressão da publicidade é algo terrível, principalmente nos Estados Unidos. Ela força os pacientes a pressionarem os médicos a prescreverem determinados medicamentos.”
Calma, meu amigo, minha amiga. Foi isso mesmo que você leu e que ele disse (ou será que a revista interpretou mal?). Vamos resumir com outras palavras: 1) Os laboratórios, segundo o dr. Drauzio Varella, são generosos e pagam, sem desejar nada em troca, viagens para os médicos freqüentarem os congressos internacionais; 2) Os laboratórios, segundo o dr. Drauzio Varella, só assediam os médicos porque querem que eles prescrevam o melhor medicamento para os seus pacientes; 3) O problema maior é a publicidade porque induz os pacientes a pedirem remédios para os médicos.
O dr. Drauzio Varella deve estar vivendo num outro mundo (tem gente que entra pelo tubo da televisão e perde a noção de realidade, vai ver que é isso) e deve conhecer alguns laboratórios diferentes dos que eu conheço, o Cremesp conhece, o Sindicato dos Médicos conhece e as revistas internacionais sérias conhecem e assim por diante. Tudo bem que ele queira fazer média com a Big Pharma, mas não precisava exagerar desse jeito. Vai ver que ele teve uma recaída (todo mundo tem, até doutor tem) ou ele está querendo, como a gente diz no interior, “tirar um sarro” de todos nós. Não é possível mesmo que ele acredite piamente no que disse à revista da UFMG.
Estou, de agora em diante, com um pé atrás com o dr. Drauzio Varella porque esta declaração de confiança irrestrita nos laboratórios me deixou bastante desconfiado. Será que existe alguma coisa que não sabemos respaldando a pesquisa da Unip na Amazônia? Puxa, nunca pensei nisso, mas agora fiquei com a pulga atrás da orelha. Não, não pode ser, devo estar sendo assaltado pela “teoria da conspiração”.
Você pode não se lembrar, mas a Novartis, um dos laboratórios que nada têm de generoso, muito pelo contrário, tentou avançar gananciosamente em cima da nossa biodiversidade (tente checar BioAmazônia como palavra-chave no Google!) há um tempo atrás e, se não tivesse todo mundo de olhos bem abertos, inclusive a comunidade científica, teria conseguido o seu intento. Depois, chegou a patrocinar a revista da FAPESP, com direito a sobrecapa para mailing exclusivo, anúncio na página dedicada aos leitores (uma falta de sensibilidade enorme, mas você já viu a Big Pharma ter alguma sensibilidade que não seja para a grana?) etc. Laboratórios avançam sobre as universidades, sobre sociedades científicas e associações profissionais, avançam sobretudo onde há gente doente. Gostam como loucos de dinheiro. Há exceções, certamente, mas elas confirmam a regra.
Eu quero acreditar que o dr. Drauzio Varella estivesse brincando quando deu essa declaração de amor irrestrito à indústria farmacêutica, mas acho que, se a revista não fez uma besteira enorme, foi isso mesmo que ele quis dizer e que todos nós acabamos de ler (eu agora mais uma vez).
É por essa falta de espírito crítico, de adesão à estratégia predadora da Big Pharma, que estamos neste buraco imenso na área da saúde, com corporações explorando os que já estão fragilizados, máfias de medicamentos pipocando em todo lugar e uma relação promíscua entre laboratórios e parte da comunidade da saúde. Puxa, você não viu matéria do Estadão sobre o controle que os laboratórios exercem inclusive sobre as receitas que permanecem nas farmácias? Puxa, você não anda vendo como se recolhe remédio a torto e a direito, depois de matar e inutilizar tanta gente? Viu falar em Vioxx, Acomplia etc? E da Pfizer com o seu pare de fumar que levou muita gente parar de fazer quase tudo? Um lobby imenso e que certamente não atua em nome da nossa saúde.
Os médicos jovens que se cuidem. Essas viagens vão custar caro um dia, a não ser que já tenham decidido, abrindo mão do juramento tradicional, colocar-se do outro lado.
Mais ainda: pera aí, dr. Drauzio Varella (de novo, se a revista não desvirtuou as declarações dele!) não existe publicidade brotando do nada: são os laboratórios que pagam os anúncios, são eles que induzem os pacientes a se auto-medicarem, a buscarem os medicamentos em qualquer lugar. O senhor não sabia disso? Acha que é a televisão, é o rádio, são os jornais e as revistas que pagam os anúncios de remédios?
São, dr. Drauzio Varella, os mesmos laboratórios que pagam as viagens dos médicos jovens, que escrevem artigos e pagam propina para que pesquisadores os assinem e encaminhem para revistas especializadas, que desrespeitam pra burro a legislação da propaganda (o senhor precisa consultar a ANVISA, que faz o monitoramento da propaganda de remédios para obter alguns dados!).
Se o dr. Drauzio Varella disse isso mesmo, não acreditem nele, não é verdade. Talvez ele seja ingênuo ou gosta de fazer média com a Big Pharma. Ele tem o direito, todo mundo tem o direito de escolher os seus parceiros. Por aqui, preferimos seguir a corrente crítica, descomprometida, que sabe quais são as verdadeiras intenções da indústria farmacêutica, em particular as grandes corporações da saúde (O governo precisa vigiar esta farra da pesquisa clínica que grassa por aqui , com médicos entregando para laboratórios e empresas de pesquisa de mercado o cadastro de seus pacientes!).
Sei lá, vou até torcer para que a revista tenha se equivocado. Se não, não quero mais saber do Drauzio Varella. Vou procurar gente mais ligada no que está acontecendo no mundo. Os laboratórios adoram inocentes úteis. Não nasci com essa vocação.
Vou continuar assim mesmo respeitando o dr. Drauzio Varella. Como médico, certamente já ajudou muita gente e a campanha contra o tabagismo foi excelente (ele deveria ser crítico com a indústria farmacêutica como foi com a indústria tabagista, que produz drogas), mas não é fonte boa, isenta sobre laboratórios, está longe disso. Anda muito desatualizado (a não ser que a revista tenha errado tudo). É vivendo e, às vezes, lendo entrevista de celebridades que a gente aprende.
Tem gente que ainda acredita que existem amostras grátis. Aquelas que muitos médicos distribuem com alguns comprimidos , recomendando aos pacientes que não deixem de comprar os demais. E os laboratórios se fartam com tanta generosidade!
A Big Pharma deve estar rindo pra valer. Aquele riso hipócrita, cínico, safado, aprovado pelo FDA, sem recall.