Embrapa esclarece sobre a instituição após lamentáveis afirmações de Drauzio Varella

Esclarecimento (18/08/2010)

Em resposta à entrevista concedida pelo médico Drauzio Varella à Revista Época, a Embrapa vem a público esclarecer que:

A Embrapa Amazônia Oriental, Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, vem trabalhando, ao longo dos seus 70 anos de história, na geração, adaptação e validação de conhecimentos e tecnologias, respeitando os saberes e tradições do povo brasileiro.

Como instituição de referência na pesquisa com Plantas Medicinais, a Unidade da Embrapa, sediada em Belém-Pará, possui uma linha de pesquisa que trata de recursos genéticos, com trabalhos científicos nas áreas de etnobotânica e biotecnologia voltados às plantas medicinais. Esses estudos envolvem a coleta de material genético e formação de bancos de germoplasma; caracterização fitoquímica de plantas; conservação in situ e ex situ; identificação botânica; e melhoramento genético.

O Horto de Plantas Medicinais da instituição é uma coleção de plantas (banco de germoplasma) utilizada para o desenvolvimento de pesquisas e transferência de tecnologias para preservar a variabilidade genética das plantas amazônicas; caracterizar as espécies de plantas; garantir a sua identificação correta; e assegurar seu cultivo e manipulação adequados por parte das comunidades amazônicas. Não se trata, portanto, de uma farmácia viva.

O trabalho coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental e apresentado ao médico Drauzio Varella, em Belém-PA, faz parte de projeto que envolve uma equipe multidisciplinar de médicos, engenheiros agrônomos, farmacêuticos, fisioterapeutas, biólogos e bioquímicos da Embrapa, Universidade Federal do Pará, Universidade Federal de Lavras e Centro Universitário do Pará. Não há ideologia, o trabalho é pautado no conhecimento científico aliado ao conhecimento tradicional.

O engenheiro agrônomo citado na entrevista do médico possui graduação em Agronomia pela Universidade Federal Rural da Amazônia, mestrado em Agronomia (Fitotecnia) pela Universidade Federal de Lavras, Especialização em Biotecnologia de Plantas pela JICA-Japão e doutorado em Agronomia (Fitotecnia-Biotecnologia de Plantas) pela Universidade Federal de Lavras (MG), já tendo recebido três Prêmios Finep de Inovação Tecnológica em diferentes categorias. Tem larga experiência na área de Fitotecnia, Recursos Genéticos e Biotecnologia, com ênfase em Biologia Celular e Propagação de Plantas, atuando principalmente nos seguintes temas: micropropagação, plantas medicinais, cultura de tecidos vegetal e conservação genética. É professor do curso de doutorado em Agroecossistemas da Amazônia, da Universidade Federal Rural da Amazônia, do curso de especialização lato sensu Cultivo, Manejo e Manipulação de Plantas Medicinais da Universidade Federal de Lavras.

O pesquisador trabalha há 18 anos com plantas medicinais e, entre suas diversas publicações, lançou recentemente a obra “Plantas Medicinais: do cultivo, manipulação e uso à recomendação popular”, em parceria com a Universidade Federal de Lavras. A obra é uma reunião de informações científicas atuais, balizadas no conhecimento de várias áreas do conhecimento (medicina, fisioterapia, farmácia e bioquímica, biologia e agronomia), aliadas à sabedoria popular relacionada à tradição de agricultores, caboclos e índios da Amazônia.

As informações apresentadas ao médico Drauzio Varella por ocasião de sua vinda à sede da Embrapa em Belém, não se tratam portanto de informações sem pesquisa, sem conhecimento, sem ciência. Elas são fruto de um trabalho desenvolvido em uma das mais antigas instituições de pesquisa do Brasil, protagonista da produção de Ciência e Tecnologia em prol da sociedade brasileira.

 

Área de Comunicação Empresarial

Embrapa Amazônia Oriental

Contatos: (91) 3204-1152 / 9112-4688

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O TEXTO ACIMA É DE USO E RESPONSABILIDADE DA ÁREA DE COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL DA EMBRAPA AMAZÔNIA ORIENTAL.


Dráuzio Varella e a Fitoterapia no Brasil II

Dráuzio Varella e a Fitoterapia no Brasil II

“Não há porque envergonhar-se de tomar do povo o que pode ser útil à arte de curar.”

Hipócrates (460-380  a.C.)

Há muito tempo a Antropologia se recusa a utilizar categorias inadequadas para estudar e compreender o pensamento popular à respeito da saúde e da medicina. Os folcloristas no passado se referiam à medicina popular como superstições, crendices, práticas consideradas abomináveis por médicos ou pessoas de formação acadêmica. Esta rejeição pejorativa do pensamento popular ocorre sem nenhuma análise de sua função social, já que as práticas da medicina popular necessitam melhores observações e não podemos destacá-las pura e simplesmente sem estudar o seu contexto cultural, sem participar da vida, da interação com aqueles que nos deram os informes, geralmente extraídos e exibidos em função de sua estranheza ou seu exotismo. (1)

Muitas práticas consideradas crendices no passado, atualmente são plenamente explicáveis cientificamente. O uso da laranja mofada ou do queijo embolorado, por exemplo, para tratar feridas tem sido uma prática muito mais antiga do que a descoberta da penicilina por Alexander Fleming (1881-1955)  em 1932. Atualmente sabemos que a laranja abandonada no fundo do quintal, quando apodrece é atacada por um fungo do mesmo gênero (*) do bolor utilizado por Fleming para produzir o primeiro antibiótico. E o raizeiro raspa a casca da laranja onde estava o bolor e passa externamente nas feridas crônicas. Em pouco tempo a inflamação cede e começa o processo de recuperação do paciente. Da mesma forma, em Cesárea, antiga cidade fundada pelos romanos, os armênios tratavam as feridas atônicas, cobrindo-as com queijo mofado, também produzido por um bolor semelhante ao bolor que deu origem à penicilina. (2)

A vacinação anti-variólica, descoberta por Edward Jenner (1749-1823) em 1798, responsável pela erradicação da varíola em todo o mundo, uma doença extremamente virulenta e mortal, somente foi possível graças aos próprios camponeses na Inglaterra que, pelo menos, a partir de 1675, se vacinavam, inoculando em si mesmos as secreções do gado atingido pela varíola bovina. Isto porque eles sabiam que a cow-pox (varíola bovina) era benigna e não matava como a varíola humana. Inclusive o próprio Jenner, médico que, ao atender uma camponesa, e suspeitar de que estivesse com varíola humana, obteve como resposta, e com extrema segurança, o seguinte: “ Não posso ter varíola, porque já tive cow-pox.” Esta foi a informação que Jenner necessitava para descobrir o princípio da vacina e iniciar o combate a esta terrível doença de maneira rigorosamente científica. Graças à uma crendice de origem popular, Dr. Dráuzio Varella!

Mas não somente os camponeses ingleses conheciam esta técnica. A inoculação da varíola a fim de provocar uma forma atenuada da mesma era conhecida secularmente na China. A crosta de uma  pústula era pulverizada e introduzida no nariz ou insuflada por meio de um tubo de bambu até que se formasse uma erupção local. Os armênios também se vacinavam muitos séculos antes de Jenner. O padre Lucas Indjidjian, em seu livro “Darap atum” (História dos Séculos), publicado em 1827, descreve as minúcias do método nos seguintes termos: “Os armênios praticavam, há muito tempo, a vacinação contra a varíola, de modo empírico. Consistia seu método em recolher as crostas das pústulas de varíola na fase de descamação e conservá-las nos resíduos de passas de uvas. No momento oportuno, administravam-se essas passas às pessoas que se pretendia preservar da varíola. Mais tarde, os armênios puseram em prática o método de inoculação por incisão ou fricção, procurando levar o agente portador da varíola por baixo da pele do indivíduo são. Este método profilático foi introduzido em Constantinopla por emigrantes armênios no ano de 1718. Lady Montague, esposa do embaixador inglês junto ao sultão, experimentou sua utilidade em seu próprio filho”. (2)

Assim os exemplos são inumeráveis de supostas crendices populares que, com o desenvolvimento da ciência, e a superação dos preconceitos por parte dos cientistas, acabam sendo esclarecidas e enaltecendo a grandeza do pensamento médico popular. O próprio Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) afirmava que “sábios tem menos preconceitos do que os ignorantes, porém ficam mais presos aos que possuem.” Por isso é muito difícil convencer um médico preconceituoso e limitado como Dráuzio Varella. O paradigma cartesiano está tão profundamente arraigado e internalizado em seu pensamento que o torna obcecado pelas suas convicções pseudo-científicas.

Sabemos hoje que inúmeras plantas medicinais tiveram suas propriedades medicinais descobertas em ambiente não-científico. A planta chinesa ma huang (**) que contém efedrina (alcalóide utilizado como agente cardiovascular) foi empregada empiricamente pelos médicos nativos, hoje em dia, chamados de médicos de pés-descalços, durante mais de 5.000 anos! O receituário chinês menciona que a planta é útil como antipirética, sudorífica, estimulante circulatório e sedativo da tosse. E eu pergunto, isto também era uma crendice, Dr. Dráuzio Varella?

Na Inglaterra, as folhas da dedaleira (***) era utilizada sob a forma de infusão para o tratamento da hidropisia (ascite) provocada pela insuficiência cardíaca. Esta prática popular foi recolhida pelo médico inglês William Withering (1741-1799) em 1771, que documentou toda esta experiência em livro publicado na época. Entretanto somente em 1910 a ação da digitalina (hoje digoxina), glicóside contido na planta, sobre o músculo cardíaco foi   explicada de forma científica e até hoje vem sendo aplicada com grande aceitação pela medicina científica e até mesmo pelo médico Dráuzio Varella.

O isolamento da vitamina C e a definitiva explicação das causas do escorbuto são atribuídas a Albert Szent-Gyorgi (1893-1986) e Charles King (1896-1988)  em 1932. Entretanto, o tratamento do escorbuto com cítricos era conhecido desde 1498, quando os marinheiros de Colombo foram acometidos de escorbuto, os homens quase moribundos, pediram para serem deixados numa ilha. Quando meses depois, Colombo retornou à ilha, encontrou seus homens vivos e saudáveis. Durante o período tinham se alimentado de frutos tropicais existentes na ilha e por isso a ilha passou a ser chamada de “Curaçao”. Em 1593, Pietro Mathiolus (1501-1577) publicou, na Europa, uma receita em que preconiza o emprego dos frutos da rosa silvestre (****) contra as hemorragias dentárias, assegurando que o pó dentifrício de rosa silvestre fortalece as gengivas. Hoje sabemos que o fruto da rosa silvestre possui altos teores de vitamina C (900 mg). Portanto uma crendice fitoterápica perfeitamente esclarecida.

Um fitoquímico brasileiro, Prof. Walter Mors, inclusive, reconheceu que na verdade só podemos admirar a experiência milenar de povos primitivos que, muito antes do surgimento da ciência moderna, descobriram, por exemplo, todas as plantas portadoras de cafeína: o chá na Ásia, o café e a noz-de-cola na África, o guaraná e o  mate na América. E o efeito estimulante da cafeína nem é tão flagrante que possa ser reconhecido num simples mascar de folhas ou sementes. (3)

Segundo Jan Muszynski, atualmente conhecemos 12.000 espécies de plantas medicinais que são usadas por diferentes povos em todo o mundo. Convém acrescentar que essas espécies são as selecionadas por diversos povos durante milhares de anos. A ciência moderna não descobriu nenhuma planta nova medicinal ou comestível, mas somente estuda e introduz as já conhecidas popularmente. (4)

Apesar de tudo, o menosprezo pelo saber popular permanece. Para a ciência cartesiana, o único saber válido que existe é apenas o pensamento científico e com isso os demais saberes são na verdade não-ciência, e se um raizeiro descobre alguma propriedade medicinal em uma planta com que convive há anos, este conhecimento faz parte da biodiversidade na qual está inserido, portanto passível de expropriação por quem possua direitos sobre a área. Tal como no período dos grandes descobrimentos, os direitos são concedidos muito antes da conquista efetiva através da ocupação do território. (5)

Entretanto a história da ciência tem mostrado que as grandes descobertas científicas ocorrem fora do espaço teórico-científico ou acadêmico. No século XIX, todos os historiadores da química reconheceram o furor experimental dos alquimistas e acabaram rendendo homenagem a alguns descobrimentos positivos, tais como o ácido sulfúrico e o oxigênio, ainda que para eles não fosse uma descoberta. René Dubos, inclusive, talvez o  mais importante biólogo e cientista do século XX, afirma que as principais invenções que deram impulso surpreendente à ciência foi promovida por mecânicos, curiosos, bricoleurs, inventores, etc. (6)

No livro “O Pensamento Selvagem”, Claude Lévi-Strauss reconhece a legitimidade e a grandeza do saber indígena e popular.  Segundo ele, o pensamento selvagem não é uma estréia, um começo, um esboço, parte de um todo não realizado; na verdade forma um sistema bem articulado; independente, neste ponto, desse outro sistema que constituirá a ciência (cartesiana). Cada uma dessas técnicas, muitas delas oriundas do período neolítico, a cerâmica, a tecelagem, agricultura, o tratamento de doenças com plantas  e a domesticação de animais supõe séculos de observação ativa e metódica, hipóteses ousadas e controladas, para serem rejeitadas ou comprovadas por meio de experiências incansavelmente repetidas. Por isso foi preciso, não duvidamos, uma atitude de espírito verdadeiramente científica, uma curiosidade assídua e sempre desperta, uma vontade de conhecer pelo prazer de conhecer, porque uma pequena fração apenas das observações e das experiências poderia dar resultados práticos e imediatamente utilizáveis. As diferenças entre o saber científico e o saber selvagem ou popular se situam não ao nível dos resultados, mas sim quanto à estratégia para chegar ao conhecimento, o saber popular muito perto da intuição sensível e o outro mais afastado. (7)

E com isso toda a criatividade desenvolvida por raizeiros, parteiras, mateiros, pajés, pais-de-santo, rezadores, curadores de cobra, ao longo de uma vivência pessoal acumulada através dos anos, sem nenhum apoio externo institucional, agora está sendo valorizada e expropriada com tenacidade pelos grandes laboratórios. Afinal de contas, uma tradição não expressa senão a longa e penosa experiência de um povo. Nasce da batalha travada para manter a sua integridade ou, para dizê-lo com mais simplicidade, da sua luta para sobreviver, buscando na Natureza remédio para seus males.

Com certeza o aumento da longevidade ocidental e oriental se deve ao avanço da ciência e do conhecimento, mas não apenas dos medicamentos farmacêuticos, pois os recursos terapêuticos da medicina alopática tiveram um papel muito pequeno nos resultados obtidos. O conjunto dos atos médicos modernos é impotente para reduzir a morbidade global. (8)

Na verdade, as moléstias infecciosas, tais como, tuberculose, disenteria, tifo que dominaram o nascimento da era industrial vinham gradativamente reduzindo sua incidência, depois da Segunda Guerra  Mundial, antes do emprego dos antibióticos.  Quando a etiologia dessas moléstias foi compreendida e lhes foi aplicada uma terapêutica específica, elas já tinham perdido muito de sua atualidade. É possível que a explicação se deva em parte à queda natural de virulência dos microrganismos e à melhoria das condições de habitação e da disseminação de redes de esgoto e de água tratada, mas ela reside, sobretudo, e de maneira muito nítida, numa maior resistência individual, devida à melhoria da nutrição e conseqüentemente do fortalecimento do sistema imunológico humano.

Portanto o Dr. Dráuzio Varella se equivoca quando atribui a maior expectativa dos povos orientais aos avanços da medicina e aos antibióticos. As estatísticas mostram que  os índices de morbidade dos povos orientais  são bastante inferiores aos padrões ocidentais. A diferença fundamental reconhecida mundialmente está no regime alimentar e no estilo de vida e principalmente no consumo maior de proteínas de origem vegetal.

Por outro lado, é necessário reconhecer os grandes avanços tecnológicos obtidos pela biomedicina no mundo inteiro. Porém sabemos todos, que as pesquisas e os investimentos são realizados por grandes empresas que monopolizam o mercado mundial e, como tem propósitos lucrativos, somente investem no tratamento de doenças que lhes permitam elevada lucratividade. Por isso as doenças mais comuns dos países do terceiro mundo recebem pouca atenção e pesquisas no sentido de produzir novos medicamentos eficazes para combatê-las. Na verdade os medicamentos utilizados no tratamento de doenças degenerativas, como o câncer, o diabetes, as doenças cardio-vasculares, e os equipamentos eletrônicos de monitoramento de pacientes terminais são o grande foco da indústria farmacêutica e médica.  E o raciocínio de seus dirigentes chega a ser bastante simplório, tal como a declaração de um financista da indústria farmacêutica, numa entrevista ao jornal Herald Tribune (01/03/2003): “O primeiro desastre é se você mata pessoas. O segundo desastre é se as cura. As boas drogas de verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo.” Sem comentários. (9)

Com relação à avaliação da eficácia dos medicamentos fitoterápicos promovida pelo quadro “É Bom pra Quê?” do Fantástico, é realmente lamentável que um médico como Dráuzio Varella não saiba que em epidemiologia é necessário analisar uma grande quantidade de resultados para se chegar a uma conclusão. Inclusive, sabemos todos, que uma clínica não pode ser avaliada pelo número absoluto de óbitos.  Deve-se comparar os resultados com o número médio de óbitos mensal para saber se  alguma anormalidade  está ocorrendo. Apenas quando o número de óbitos está muito acima da média, as autoridades médicas acionam o alarme e começam a investigar os motivos que extrapolaram à média esperada.

Trata-se de desonestidade intelectual condenar o uso da babosa (Aloe Vera) no tratamento do câncer utilizando um caso negativo isolado. Medicina não é matemática. Para obter uma avaliação válida do uso da babosa no tratamento de câncer, o médico/repórter Dráuzio Varella deveria buscar os resultados médios obtidos nos diferentes postos de saúde que a utilizam ou até mesmo na extensa bibliografia existente não somente no Brasil, mas no mundo inteiro.

Se fosse necessário avaliar os resultados do tratamento de uma doença por um medicamento sintético teríamos, no campo da ciência, de agir desta maneira. Porque no caso da fitoterapia é diferente? Dois pesos e duas medidas.

Com relação à necessidade de pesquisas com as plantas medicinais a Universidade Brasileira desenvolve, há vários anos, padrões de avaliação científica das plantas medicinais. Desde a realização do 1o Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil em 1967, quando foram apresentados 22 trabalhos científicos até o XVII o Simpósio em Cuiabá em 2002, que recebeu 870 trabalhos científicos, houve um incremento de 3800 % (10). Talvez ainda seja muito pouco, para um país com as dimensões do Brasil. Mas estamos buscando um caminho, com dificuldades, é claro. Portanto são inúmeros os pesquisadores no Brasil habilitados para elaborar projetos e pesquisas sobre plantas medicinais. E nós não necessitamos da ajuda do Dr. Drauzio e muito menos do Fantástico para fazer esse trabalho de avaliação. E, além disso, o Dr. Dráuzio é um simples médico/repórter sem experiência e habilitação para fazer esse tipo de trabalho, inclusive sem título de mestrado. Na verdade sua formação de médico não lhe permite isso. A pesquisa nesta área é fundamentalmente multidisciplinar e o Dr. Dráuzio teria com certeza um espaço para atuar na equipe, se tivesse alguma especialização na área, e se examinarmos seu currículo Lattes, verificamos uma escassa experiência de pesquisas com plantas medicinais. Sua alegação de que pesquisa há 15 anos na Amazônia, não lhe garante direito algum para decidir o que deve ser feito. E porque estas pesquisas não são publicadas? Por isso as posições do Dr. Dráuzio são ridículas.

Qualquer pesquisador da área reconhece a necessidade de várias etapas de pesquisa para validar a ação medicinal de uma planta. Mas quem vai decidir sobre a metodologia adequada para sua validação não pode ser o Dr. Dráuzio. Trata-se de uma inversão de valores e de interesses escusos.

A enorme quantidade de críticas surgidas após a entrevista do Dr. Dráuzio à revista Época de 13/08/2010 explicitam a indignação de pacientes e profissionais da área de pesquisa de plantas medicinais no Brasil.

Como a motivação pela pesquisa de plantas medicinais e sua defesa é muito grande devemos reconhecer que todos objetivam encontrar uma alternativa válida para cuidar de nossa saúde. E diga-se a verdade, não somente com plantas medicinais, mas também buscando técnicas terapêuticas milenares, como a acupuntura, o shiatsu, a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica, a auto-hemoterapia, a iridologia, a homeopatia,  a antroposofia, o psicodrama, o naturismo, a aromaterapia, a musicoterapia, a meditação transcendental, a yoga, a biodança e inúmeras outras terapias.  E essa procura não ocorre por acaso, não é mesmo?

Trata-se apenas da busca desesperada de uma nova filosofia médica que compreenda o ser humano de maneira integral.

As pessoas não suportam mais serem fragmentadas e segmentadas tal como  as inúmeras peças de um quebra-cabeça. Segundo a Organização Mundial da Saúde a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doenças. Eu complementaria acrescentando ao texto o bem estar cultural e espiritual.

E a biomedicina alopática ou convencional ao invés de atender a estas necessidades fundamentais do ser humano fragmenta ainda mais, criando novas especialidades médicas apenas para atender às necessidades do médico e nunca as do paciente e, com isso,  a cada dia existem mais médicos que sabem muito sobre muito poucas coisas e que acabam por perder de vista o todo, o homem enfermo. Poder-se-ia chamar isso de fragmentação da responsabilidade frente ao paciente. (11) Com isso estabelecem um campo cirúrgico no corpo do paciente e esquecem todo o resto. O paciente é apenas um objeto que carrega uma enfermidade.

Quando alguém adoece, seu sistema imunológico está em baixa, com pouca resistência aos micróbios ou germes invasores de seu corpo que se aproveitam da fragilidade para se reproduzir e com isso gerando os sintomas da doença.  Como consequência a doença depende do que Louis Pasteur (1822-1895) definia, pouco antes de falecer, das condições do “terreno”, favorável ou não ao desenvolvimento das colônias microbianas.

A partir desta noção, aceita pelos que defendem as medicinas integrais, o paciente necessita urgentemente nesse momento de buscar a restauração do equilíbrio de todo o organismo e não apenas da supressão de sintomas incômodos, aparentemente o mais afetado pela enfermidade. E é por isso que não basta suprimir sintomas, combater as dores ou a febre com analgésicos, levantar o paciente da cama, ou no jargão economicista, restaurar apenas a força de trabalho, característica fundamental da terapêutica alopática. ´

É necessário buscar terapêuticas que ajudem a recuperar o sistema imunológico. E as medicinas integrais caminham neste sentido e, com certeza, serão a medicina do futuro, que cada vez fica mais próximo. Quem viver, verá.

Prof. Douglas Carrara

Antropólogo, Professor, Pesquisador de medicina popular e fitoterapia no Brasil

www.bchicomendes.com

djcarrara@hotmail.com

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Bibliografia Consultada:

(1) ARAUJO, Alceu Maynard (1913-1974):

1979 – Medicina Rústica – Cia. Ed. Nacional – São Paulo – 301 p.

(2) MISSAKIAN, B.:

1951 – A Medicina Popular Armênia – in Actas Ciba – Ano XVIII – N. 1 – ABR/1951 – pp. 33-38

(3) MORS, Walter (1920-2008):

1982 – Plantas Medicinais – in Ciência Hoje – n. 3 – NOV/DEZ/1982 – Rio – pp. 14-19.

(4) MUSZYNSKI, Jan:

1948 – Volta à Fitoterapia na Terapêutica Moderna – in Revista da Flora Medicinal – Ano XV – n. 9 – SET/1948 – Rio – pp. 363/384.

(5) SHIVA, Vandana:

2001 – Biopirataria – A Pilhagem da Natureza e do Conhecimento – Ed. Vozes – Petrópolis – 152 p.

(6) DUBOS, René (1901-1982):

1972 – O Despertar da Razão – Ed. Melhoramentos/Edusp – São Paulo – 194 p.

(7) LÉVI-STRAUSS, Claude (1908-2009):

1970 – O Pensamento Selvagem – Cia. Ed. Nacional – São Paulo – 331 p.

(8) ILLICH, Ivan (1926-2002):

1975 – A Expropriação da Saúde – Nêmesis da Medicina – Ed. Nova Fronteira – Rio – 196 p.

(9) ALMEIDA, Eduardo & Luís PEAZÊ:

2007 – O Elo Perdido da Medicina – Ed. Imago – Rio – 250 p.

(10) FERNANDES, Tânia Maria:

2004 – Plantas Medicinais – Memória da Ciência no Brasil – Fiocruz – Rio de Janeiro – 260 p.

(11) JORES, Arthur (1901-1982):

1967 – La Medicina em la Crisis de Nuestro Tiempo – XXI Ed. – México – 80 p.

CARRARA, Douglas:

1995 – Possangaba – O Pensamento Médico Popular – Ribro Soft – Maricá – 260 p.

DIEPGEN, Paul:

1932 – Historia de la Medicina – Ed. Labor – Barcelona – 435 p.

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(*) Penicillium digitatum

(**) Ephedra vulgaris

(***) Digitalis purpurea

(****) Rosa canina

Drauzio Varella e a Graviola – Por Douglas Carrara

Dráuzio Varella e a Graviola  – Annona muricata L. (1753)

A medicina moderna tem muito que aprender com o apanhador de ervas.

Halfdan Mahler

Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde (1973-1988)

A graviola é uma árvore que cresce até 10 m. de altura, quase sempre apenas a metade ou ainda menos, dependendo da região e do clima.  A casca do caule é aromática, as folhas são alternas e crescem até 15 cm de comprimento por 7 cm de largura, verdes e vernicosas na página superior e com bolsas na axila das nervuras laterais na página inferior, ligeiramente tomentosas. Inflorescência cauliflora, brotando da casca velha do caule e dos ramos. Pedúnculos robustos. Cálice com lobos triangulares e agudos. Flores axilares, solitárias, sub-globosas, amareladas com seis pétalas grossas e carnosas. O fruto é uma baga de forma irregular, mais ou menos ovóide, até 30 cm de comprimento e 12 cm de largura, com epiderme verde escura, espessa, areolada (carpelos soldados), cada aréola ou saliência cônica tendo no ápice um espinho comprido, mole e recurvado, verde, enquanto jovem, depois castâneo-ferrugíneo e com as extremidades quase pretas. O fruto pode atingir grandes dimensões, mas raramente excede 2 kg. (1)

Esta planta, que é a espécie típica do gênero, porquanto foi a primeira descrita e desenhada, já era objeto de cultura antes das chegada dos europeus, no processo de conquista e colonização do Brasil. Numerosos autores asseguram que ainda hoje é encontrada silvestre nas matas de várias ilhas antilhanas (Cuba, Haiti, Jamaica, Porto Rico), na América Central e até na Venezuela, sendo levada para outras regiões da terra, como África, Ásia, inclusive o Brasil, que provavelmente recebeu as primeiras mudas em 1750, procedentes da Jamaica e introduzida no Pará por iniciativa de Manuel Mota de Siqueira. Entretanto Gabriel Soares de Sousa já fazia referência à existência desta excelente fruteira na Bahia em 1587, com o nome de araticu. (2) Em outros países onde foi introduzida tornou-se subespontânea (inclusive na Amazônia) e em todo o mundo é mais ou menos cultivada, sempre frutificando desde o terceiro ano de idade.

No Brasil é mais conhecida com o nome de graviola. Na Bahia é chamada também de curaçau e ata- de-lima ou jaca-de-pobre em Camamu, assim como araticum. Em Minas Gerais é chamada de ata, coração-de-rainha, jaqueira-mole.  No Haiti é conhecida como anon, em Cuba e no México como guanábana. Na África, onde também foi introduzida é conhecida como sap-sap. Na ilha de São Tomé é conhecida como coração-da-Índia ou coração-de-preto (1) (3) (4) (5)

Os frutos, em estado verde são usados para combater a disenteria e úteis contra as aftas das crianças (sapinhos). No Brasil, come-se como legume, cozidos, assados no forno ou fritos em fatias. Depois de maduros, a polpa tem um aroma agradabilíssimo, misto de maçã e de pêra, e o sabor, ligeiramente ácido, lembra o perfume do abacaxi e do morango. Quem conhece o fruto corta-o no sentido vertical, tira-lhe a polpa e abandona a parte externa, que é fedorenta, dura e coriácea, tendo paladar amargo e desagradável, terebintáceo. Essa polpa, parecendo algodão em rama molhado e tendo consistência semelhante à manteiga, é comestível, porém constituída por celulose quase pura e de difícil digestão e por isso o seu melhor aproveitamento consiste em extrair o suco, para o preparo de bebidas refrigerantes e sorvetes, reconhecidamente deliciosos, bem como para geléias e marmeladas, consideradas peitorais, antiescorbúticas, diuréticas e febrífugas. (1) O óleo essencial extraído das folhas e dos frutos verdes tem cheiro pouco agradável, mas misturado ao óleo de amêndoas ou de amendoim, é indicado em fricções nos casos de nevralgias e reumatismo. (9)

Segundo Theodoro Peckolt, o pioneiro fitoquímico de origem alemã, que estudou as plantas medicinais no Brasil, as folhas contusas e misturadas com azeite quente servem para resolver os furúnculos e abcessos. A casca da raiz é indicada como tinguijante de peixes. Os frutos verdes, externamente, reduzidos à consistência pastosa servem para curar as aftas de crianças (sapinhos). (10)

Em levantamente etnobotânico realizado pela Prof. Maria Elisabet van den Berg no Pará, a graviola foi indicada para o tratamento de diabetes, e como calmante e anti-espasmódico. (19)

Hoehne também reconhece que as folhas são prescritas para eliminar vermes intestinais e em forma de decocção para resolver abcessos.  Frederico Carlos Hoehne, grande botânico brasileiro, reconhecido internacionalmente, não tinha formação acadêmica. Quando acompanhou a Comissão Rondon em 1908, Hoehne foi nomeado apenas como ajudante de botânica, numa comissão que não possuía nenhum botânico, quando na verdade era apenas jardineiro-chefe do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Todo o trabalho de botânica da primeira expedição foi realizado exclusivamente por Hoehne! Pois bem, Hoehne é um dos mais prolíficos autores botânicos brasileiros, produzindo desde 1910 até sua morte em 1959, 478 títulos bibliográficos, artigos e livros, produzindo um total de 11.000 páginas! Do herbário da Comissão Rondon foi responsável pela coleta de 10.000 exsicatas. Hoehne descobriu novos gêneros e novas espécies ao longo de toda a sua carreira, sendo responsável pela identificação de aproximadamente 400 novas espécies.  (11) (18)

Narciso Soares da Cunha, farmacêutico e doutor em medicina,  afirmava em 1941 que as folhas da graviola eram indicadas para combater a glicosúria e o diabetes. (12) Também o Dr. Flavio Rotman reconhece que a infusão das folhas da graviola são muito utilizadas pelos diabéticos para baixar a glicose sanguínea elevada. (14)

O botânico Caminhoá, no século XIX, reconhece que os frutos verdes são adstringentes e úteis contra a disenteria, assim como contra as aftas e que as folhas, fritas com óleo ou fervidas são úteis no tratamento do reumatismo.

O Prof. Dias da Rocha, reconhece em seu formulário editado pela primeira vez em 1919, que as folhas da graviola são sudoríficas e peitorais. Indica nesses casos a infusão das folhas, 3 g. para 200 ml. de água fervente, na tosse e em todas as suas manifestações, durante uma semana.  Apesar de não ser médico, como naturalista autodidata, coletava exemplares da flora, fauna, rochas, minerais e peças indígenas do Ceará e, além disso, como homeopata atendia em sua residência vasta clientela, composta de gente pobre, para quem receitava gratuitamente e às vezes fornecia o remédio. A sua especialidade era tratar de crianças. Hoje em dia todo o seu acervo constitui o Museu Dias da Rocha em Fortaleza.

Em análises de plantas oriundas da República Dominicana foi verificada a existência de ácido cianídrico na raiz, no fruto verde, nas folhas e nas flores. (1)  Outros autores também confirmam estas análises, já que na África a casca da raiz contém ácido cianídrico e por isso são usados como venenos para pescar. (6)

Os índios Waimiri Atroari cultivam também a árvore.  A infusão das folhas é usada para reduzir os níveis de glicose no sangue e na Guiana Francesa são usadas como sedativo. Na República Dominicana os frutos são usados como cataplasma para estimular lactação nas mulheres que estão amamentando. Extratos das folhas tem poderoso efeito hipotensor em cobaias.   (6) (7)

A decocção dos rebentos novos das folhas é usada em Cuba contra a tosse para desobstruir os brônquios ou em fomentos contra as inflamações externas e para lavar os pés inchados. O refresco do fruto é indicado para hematúria (sangue na urina), assim como facilita a secreção urinária e alivia a uretrite. A infusão das folhas é considerada sudorífica. No eczema, coloca-se as folhas sob a forma de emplastro e se cobre com um pano.  Segundo Grousourdy, em Cuba, as folhas e os brotos tem propriedades antiespasmódicas e estomáquicas e constituem um remédio popular muito útil contra as indigestões, já que facilitam as digestões difíceis. Os nativos, segundo Groussourdy, utilizam as folhas tenras molhadas com saliva nas carnosidades que aparecem no entorno das cauterizações, eliminando-as em muito pouco tempo e sem dor, não deixando cicatrizes. A polpa do fruto aplicada como cataplasma, durante 3 dias, sem trocar, nas feridas provocadas pelos bichos-do-pé (Tunga penetrans) elimina-os. Ao retirar a cataplasma, as chagas apresentam melhor aspecto e curam com maior facilidade. O pó das sementes trituradas é eficaz para matar piolhos. A tintura macerada com as sementes trituradas em bebidas destiladas tem propriedades vomitivas muito enérgicas.  (4)

Na Venezuela, segundo Pittier, a graviola é conhecida também como guanábano, e as folhas, em infusão, são usadas para combater a diarréia. (8)

Em Angola, na África, os curandeiros negros empregam, em casos de disenteria e diarréia, a decocção das sementes trituradas.   (5)

Em pesquisas mais recentes, o Prof. Edile de Medeiros Sampaio e colaboradores da Universidade Federal do Ceará (1974), reconheceram o potente efeito hipoglicemiante das folhas de graviola. (13)

No livro mais atualizado que existe no Brasil sobre plantas medicinais, o livro do Prof. Matos e de Harri Lorenzi, se reconhece os diversos usos medicinais baseados na tradição popular, registrados na literatura etnofarmacológica. Acrescenta que recentemente tem crescido muito o uso do chá das folhas como agente emagrecedor e medicação contra alguns tipos de câncer.

No citado livro, o estudo fitoquímico mostrou que as folhas contém até 1,8% de óleo essencial rico em beta-cariofileno, gama-cadineno e alfa-elemeno, enquanto que o obtido do fruto ésteres e compostos nitrogenados como substâncias responsáveis pelo seu aroma. Na composição química do fruto estão presentes açúcares, tanino, ácido ascórbico, pectinas e vitaminas A (beta-caroteno), C e do complexo B, enquanto nas folhas, casca e raiz desta planta vários alcalóides foram identificados descritos como reticulina, coreximina, coclarina e anomurina. Nas sementes, nas folhas, casca e raízes desta planta foram encontrados o ciclopeptídeo anomuricatina A e várias acetogeninas.

As acetogeninas formam uma nova classe de compostos naturais de natureza  policetídica de grande interesse para farmacologistas e químicos de produtos naturais em todo o mundo, por serem farmacologicamente muito ativas como antitumoral e inseticida, sendo a mais ativa delas a anonacina; uma outra substância desta classe mostrou intensa atividade contra o adenocarcinoma do cólon (intestino grosso), numa concentração 10.000 vezes menor do que a adriamycina, quimioterápico usado para tratamento deste tipo de tumor.  Descobertas como estas tem provocado uma grande procura por folhas de graviola, cuja negociação pelas empresas de cultivo com os laboratórios de pesquisa e de produção de fitoterápicos especialmente do exterior, alcança quantidades da ordem de toneladas. O amplo emprego desta planta nas práticas caseiras da medicina popular e seus resultados positivos, além da grande disponibilidade de material no Brasil, são motivos suficientes para sua escolha como tema de estudos químicos, farmacológicos e clínicos mais aprofundados, visando sua validação como medicamento antitumoral. (15) (16)

No XVI Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil em outubro de 2000, foi apresentado um trabalho mostrando um novo método de extração de acetogeninas das sementes da graviola, já que pelo processo clássico de extração por solventes as dificuldades são grandes em função da riqueza de ácidos graxos neutros contidos nas sementes. No entanto se obtém um índice de extração de acetogeninas de 17% através da extração por fluido supercrítico (SFE). (20) Evidentemente busca-se eficiência na extração das acetogeninas em função de sua atividade antitumoral comprovada.

Em 16 de julho de 2007 o Globo Repórter (http://www.youtube.com/watch?v=u7Z6cEUshDQ) fez uma reportagem sobre a graviola, entrevistando inicialmente a empresária e fitoterapeuta (*) Leslie Taylor que importa 400 toneladas de folhas de graviola do Brasil, do Peru e do Equador, para produzir o fitoterápico N-Tense, um composto de graviola com mais 7 plantas brasileiras. O produto é utilizado no tratamento do câncer e a empresa Raintree, com sede em Austin, distribui o medicamento para 400 médicos nos Estados Unidos, que vem obtendo bons resultados com o produto. Não podem anunciar os resultados porque a vigilância sanitária nos EUA não permite que sejam divulgados os tratamentos feitos com medicamentos oriundos de plantas medicinais. Na Alemanha, o Dr. Helmut Keller utiliza o mesmo medicamento produzido nos EUA com resultados surpreendentes. Um paciente conseguiu fazer desaparecer um câncer da bexiga em 3 semanas de tratamento! A empresária obteve as informações sobre a graviola de um grande laboratório nos Estados Unidos que desistira de patenteá-lo porque não tinha conseguido sintetizar a substância ativa, no caso, uma das acetogeninas.

Atualmente a graviola é cultivada em várias partes do mundo, desde o sul da Flórida até a China, África e Austrália. Essa extraordinária dispersão mundial da graviola é, naturalmente uma decorrência do excelente sabor e aroma de seus frutos, assim como das propriedades medicinais de diferentes partes da planta.

Pode-se observar que, analisando o mosaico de aplicações em diferentes países, as indicações são muito semelhantes a partir do levantamento etnobotânico promovido em diferentes épocas e em diferentes países.

Portanto, Dr. Dráuzio, a experiência popular com a graviola tem pelo menos 400 anos, já que em 1578 a planta e seu saboroso fruto já eram conhecidos na Bahia. Além disso os ensaios fitoquímicos e fitofarmacológicos existem há pelo menos há 35 anos! Realmente ainda são necessárias mais pesquisas para consolidar as propriedades terapêuticas da planta, mas tudo indica que a pomada de graviola produzida pelo Prof. Frazão tem fundamento e deve estar produzindo efeitos benéficos nos pacientes.

Esta é a planta que o Dr. Dráuzio Varella afirmou que não serve para nada com uma pesquisa de apenas alguns dias, com o objetivo de denegrir a imagem de um professor, que, ainda de maneira embrionária, busca com honestidade encontrar medicamentos a partir de plantas para tratar as pessoas que não possuem recursos para adquirir medicamentos sintéticos e de efeito duvidoso.

A escassa documentação protocolar da pesquisa do Prof. Frazão não invalida o seu trabalho. Se fosse assim teríamos que invalidar toda a experiência de origem indígena e popular que gera inúmeras substâncias extremamente úteis para a ciência, tais como, alcalóides e glucósides, descobertos empiricamente em experiências populares e indígenas, quase sempre anônimas. O que o Prof. Frazão necessita é de apoio financeiro e da colaboração de pesquisadores com melhor aparato cientifico para aperfeiçoar sua pesquisa feita ao longo de anos de dedicação, com o exclusivo objetivo de ajudar quem precisa. Além disso a reportagem não informou que os medicamentos preparados pelo Prof. Frazão são entregues gratuitamente aos pacientes e as entrevistas com os pacientes que foram curados com a pomada de graviola …

Agora cabe ao público escolher entre a pesquisa apressada do Dr. Dráuzio e a longa experiência popular, indígena, científica e inclusive a experiência do Prof. Frazão a respeito da graviola.

Prof. Douglas Carrara

Antropólogo, Professor, Pesquisador de medicina popular e fitoterapia no Brasil

www.bchicomendes.com

djcarrara@hotmail.com

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Bibliografia Consultada:

(1) CORRÊA, Manoel Pio (1874-1934):

1952 – Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas – Vol. III – Ministério da Agricultura – Rio  – pp. 486

(2) SOUSA, Gabriel Soares de (1540? – 1591):

1974 – Notícia do Brasil – Comentários e Notas de Varnhagen, Pirajá da Silva e Edelweiss – MEC – Rio – pp. 363

(3) CAMINHOÁ, Joaquim Monteiro (1836-1896):

1877 – Elementos de Botânica Geral e Médica – Tip. Nacional – Rio – pp. 2317

(4) MESA, Juan Tomás Roig y (1877-1971):

1988 – Plantas Medicinales, Aromáticas o Venenosas de Cuba – 2 vol. – Ed. Cientifico-Tecnica – La Habana – pp. 161

(5) FICALHO, Conde de (1837-1903):

1947 – Plantas Úteis da África Portuguesa – Agência Geral das Colônias – Lisboa – pp. 76

(6) MILLIKEN, William; Robert P. Miller; Sharon R. Pollard & Elisa V. WANDELLI:

1992 – The Ethnobotany of the Waimiri Atroari Indians of Brazil – Royal Botanic Gardens – London – pp. 50

(7) CAVALCANTE, Paulo B. (1922-2006):

1996 – Frutas Comestíveis da Amazônia – 6a. Ed. – Museu Paraense Emilio Goeldi – Belém – pp. 109.

(8) PITTIER, H.:

1926 – Manual de las Plantas Usuelles de Venezuela – Lit. Del Comercio – Caracas – pp. 245

(9) PENNA, Meira:

1946 – Dicionario Brasileiro de Plantas Medicinais – Ed. Kosmos – Rio – pp. 33

(10) PECKOLT, Theodoro (1822-1912) e Gustavo:

1914 – Historia das Plantas Medicinaes e Úteis do Brazil – Pap. Modelo – Rio – pp. 62

(11) HOEHNE, F. C.: (1882-1959):

1939 – Plantas e Substâncias Vegetais Tóxicas e Medicinais – Dpt. de Botânica de SP – S. Paulo – pp. 123

(12) CUNHA, Narciso Soares da:

1941 – De von Martius aos Ervanários da Bahia – Pap. Dois Mundos – Salvador – pp. 42

(13) BRAGANÇA, Luiz Antonio Ranzeiro de:

1996 – Plantas Medicinais Antidiabéticas – Eduff – Niterói – pp. 170.

(14) ROTMAN, Flávio:

1984 – A Cura Popular pela Comida – Ed. Record – Rio – pp. 199

(15)  LORENZI, Harri & F. J. Abreu MATOS (1924-2008):

2008 – Plantas Medicinais no Brasil Nativas e Exóticas – 2a. Ed. – Ed. Plantarum – Nova Odessa – pp. 67

(16) TAYLOR, L.:

1998 – Herbal Secrets of the Rainforest – Prima Health Publ. – Rocklin, CA, 315 p.

(17) MATOS, Francisco Jose de Abreu Matos (1924-2008):

1987 – O Formulário Fitoterápico do Professor Dias da Rocha (1869-1960) – Esam – Mossoró – pp. 208

(18) HOEHNE, F.C. (1882-1959):

1951 – Relatório Anual do Instituto de Botânica – São Paulo – 155 p

(19) BERG, Maria Elisabeth van den:

1982 – Plantas Medicinais na Amazônia – Museu Paraense Emilio Goeldi – Belém – pp. 22

(20) MAUL, Aldo Adolar et all:

2000 – Extração Supercrítica das Sementes de Graviola (Annona muricata L.), Annonaceae) in Livro de Resumos do XVI Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil – Recife – PE – Brasil. – pp. 174

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(*) Nos Estados Unidos, a profissão de naturopata é reconhecida legalmente e existem cursos de formação para quem deseja exercer a profissão.

PUBLICADO PELO PORTAL VERDE SOB AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO AUTOR

Associação brasileira de LABORATÓRIOS rebate declarações de Drauzio Varella sobre fitoterápicos

ALANAC rebate declarações de Drauzio Varella sobre fitoterápicos
Sex, 27 de Agosto de 2010 15:43
Os fitoterápicos e plantas medicinais são hoje as classes de produtos que possuem maior potencialidade de crescimento no Brasil devido a sua biodiversidade que, associada a uma rica diversidade étnica e cultural que detém um valioso conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais, tem o potencial necessário para desenvolvimento de pesquisas com resultados em tecnologias e terapêuticas apropriadas.

O uso desses medicamentos pelo mundo é muito antigo e está cada vez maior, e como exemplo temos a Alemanha, cujo mercado de fitoterápicos é enorme. Cerca de 60% dos médicos alemães prescrevem fitoterápicos à população, produtos estes registrados no EMEA, órgão regulador europeu que tem as exigências mais rigorosas para o registro, semelhantes às brasileiras.

Sobre esse assunto, o coordenador técnico da ALANAC – Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais, Douglas Duarte é categórico: “Como podemos criticar a política alemã de medicamentos, uma vez que o poder aquisitivo da grande maioria da população é muito superior à dos brasileiros?”. Segundo ele, não existe esta imagem de que a fitoterapia é para pobres. É apenas uma terapia alternativa à alopatia sintética.

A questão do preconceito com relação aos fitoterápicos – por falta de informação, mas principalmente por má informação – ainda é um fator limitante para a utilização maciça pela população brasileira, pois a classe médica ainda tem algumas restrições ao uso desses medicamentos devido à complexidade de atuação destes produtos quando administrados.

Dizemos isso, fazendo referência à matéria “Ervas medicinais: os conselhos de Drauzio Varella” (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI162899-15230,00.html), publicada na revista época e também, na série “É bom para quê?”, que estréia neste domingo, dia 29 de agosto, no Fantástico, que a Rede Globo exibe às 20h50, e que terá quatro episódios, gostaríamos de deixar registrada nossa discordância com relação às colocações do médico sobre os medicamentos fitoterápicos.

Quando chama a fitoterapia de “medicina extremamente popular”, Drauzio Varella ignora que as indicações terapêuticas permitidas pela ANVISA nos produtos fitoterápicos são oriundas de monografias de plantas e publicações científicas indexadas e ainda ensaios clínicos com as plantas estudadas e avaliadas pela ANVISA.

Ainda maior engano, comete quando diz que os “fitoterápicos são registrados na Anvisa como complemento alimentar. Ou seja: não passam pelo mesmo crivo de um medicamento”. Medicamentos fitoterápicos NÃO são registrados como complementos alimentares. Esta é uma política de registro utilizada pelo FDA (órgão dos EUA que regulam a área da saúde). No Brasil, os fitoterápicos são uma categoria de medicamentos, obedecendo todos os rigores regulamentados pela ANVISA, como os requisitos para registro, Boas Práticas de Fabricação e Controle, Farmacovigilância e demais requisitos, além da comprovação de segurança e eficácia, através da apresentação de estudos pré-clínicos e clínicos, de forma semelhante aos medicamentos químicos-sintéticos.

Para o membro do conselho da ALANAC, Josimar Henrique da Silva, Presidente da Hebron Farmacêutica, o médico Drauzio Varella não sabe o que diz: “Não sabe mesmo. Não sabe os rigores da ANVISA, bem mais rigorosa na aprovação de medicamentos que sua coirmã européia e a americana. Se soubesse disso, saberia que há registros de fitomedicamentos similares aos nossos na Europa e Estados Unidos, enquanto nós, brasileiros, não conseguimos esses registros no país, tampouco patenteá-los”, explica. “Para dar algum conhecimento a quem precisa de algum, a maioria dos estudos brasileiros com fitoterápicos, cumprindo todos os requisitos internacionais de pesquisa clínica, são colocados em um fila interminável de espera e exigências. Resta aos laboratórios, em parceria com centros de pesquisas, recorrerem à intermediação da justiça para fazerem o medicamento incluir-se em algum lugar de validade.”

Abaixo todos os tópicos levantados pelo médico Drauzio Varella, com as devidas correções feitas pelo departamento técnico da ALANAC.

Drauzio Varella – “Mais da metade dos medicamentos são derivados dos produtos naturais. A morfina e a aspirina são alguns exemplos. Ervas e chás são usados desde sempre. Galeno desenvolveu no século II uma poção que tinha mais de 70 ervas. Até carne de cobra tinha nessa poção. Era usada tudo o que você pode imaginar. Essa poção foi usada até o século XIX na Europa. Foram acrescentando outras coisas. Chegou a ter mais de cem plantas misturadas. Era uma panacéia. À medida que a química analítica foi se desenvolvendo, especialmente na Alemanha, eles começaram a procurar nessas plantas quais eram os princípios ativos. Da papoula, os alemães isolaram a morfina. De outra planta, isolaram a aspirina. Foi assim que a farmacologia se desenvolveu. Mas a tradição de usar chás sempre existiu. Todos nós temos na família um chá predileto. Uma coisa é dar um chá de camomila para criança. Isso é feito há séculos e a gente sabe que não faz mal nenhum. Ou chá de erva cidreira para acalmar, para dormir etc. Outra coisa é usar chás para tratar de doenças. Essa é uma medicina extremamente popular, mas é um problema”.

ALANAC: As indicações terapêuticas permitidas pela ANVISA nos produtos fitoterápicos são oriundas de monografias de plantas e publicações científicas indexadas e ainda ensaios clínicos com as plantas estudadas e avaliadas pela ANVISA.

ÉPOCA – O Ministério da Saúde elegeu oito plantas às quais se atribui alguma atividade e passou a distribuí-las no SUS. São elas: alcachofra, aroeira, cáscara sagrada, garra do diabo, guaco, isoflavona da soja e unha de gato. Isso é ruim?
Drauzio –
“Que tipo de medicina o governo cria com uma medida como essa? Ele institui duas medicinas: a do rico e a do pobre. As pessoas que têm acesso ao atendimento de saúde vão a médicos e compram remédios em farmácia. O que o governo fez foi criar uma medicina para pobres baseada em plantas que não têm atividade demonstrada cientificamente. Quando dizem que determinada planta tem atividade isso significa que em tubo de ensaio ela demonstrou ter determinada ação. Mas isso não basta. Para ter ação comprovada em seres humanos, falta muita coisa. A demonstração científica da atuação dos fitoterápicos para chegar às possíveis indicações terapêuticas estão sendo estudadas no mundo todo. Mesma resposta do texto acima.”

ALANAC: O Dr. Drauzio afirma que a lista de oito plantas definidas pelo Ministério da Saúde e pela ANVISA não têm atividade demonstrada cientificamente, quando na verdade existe vasto material com estudos publicados que comprova a eficácia e segurança destas plantas no tratamento de doenças. Estas oito plantas fazem parte de uma lista maior composta por 36 plantas, na qual a ANVISA definiu o registro simplificado para estas 36 espécies vegetais para as quais é dispensada a comprovação de eficácia e segurança, considerando justamente a quantidade de estudos que já foi publicado sobre cada uma dessas espécies. Se o solicitante do registro seguir todos os parâmetros especificados na lista citada, que são: parte da planta, forma de uso, quantidade de marcador, indicações, via de administração, dose diária e restrições de uso, fica dispensada a apresentação de comprovação de eficácia e segurança no processo de registro.

Drauzio – “Nosso objetivo é mostrar que esses fitoterápicos têm de ser estudados. Têm de ser submetidos ao mesmo escrutínio ao qual os remédios comuns são submetidos. Essas coisas são jogadas para o público sem passar por estudo nenhum. Hoje vemos órgãos públicos distribuindo esses chás e fazendo o que chamam de Farmácias Vivas. Estivemos em várias delas. Em Belém, Imperatriz (no Maranhão) e em Goiânia. Essas Farmácias Vivas não são nada mais do que hortas. As plantas são cultivadas ali e distribuídas para a população sem o menor critério. Muitas vezes são indicadas por pessoas que não entendem nada de medicina. Outras vezes, são prescritas por médicos. Quem não prefere tomar um chá desses em vez de um comprimido ou injeção? Essas Farmácias Vivas estão no país inteiro. São estimuladas pelo Ministério da Saúde e pelas secretarias estaduais.”

ALANAC: Os fitoterápicos devem continuar sendo estudados devido à complexidade de sua composição, mas isso não significa que hoje as empresas que os registram e comercializam não possuem informações sobre a segurança e eficácia destes produtos. A prescrição destas drogas deve ser realizada apenas por profissionais habilitados legalmente, que conhecem as indicações terapêuticas e diagnosticaram o paciente. Em raras ocasiões o uso de plantas medicinais pode substituir integralmente um tratamento medicamentoso, mas auxilia muito a diminuir a quantidade de medicamentos sintéticos utilizados em casos crônicos ou agudos, diminuindo também o número de eventos adversos.
As farmácias vivas são um Projeto de Governo abrangido pelo Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que já é realidade em muitos estados da Federação, tanto é que;° a ANVISA colocou em Consulta Pública (n° 85/2010) recentemente proposta de norma de âmbito federal para estabelecer as regras de funcionamento e dispensação de plantas medicinais para a população.
As Farmácias Vivas têm sim no terreno ao lado (ou nas proximidades) uma horta de plantas medicinais, na qual a regra define que a dispensação ocorra somente mediante prescrição médica, quando for o caso, pois há espécies vegetais que são de venda livre, e isso está mantido pela Consulta Pública supra citada.

“ÉPOCA – Os riscos e os benefícios dessas oito plantas eleitas pelo Ministério da Saúde não foram suficientemente determinados?
Drauzio –
Eles dizem que os riscos e os benefícios foram avaliados pelo uso tradicional. É para dar risada. A Anvisa dá uma relação dessas plantas e coloca qual é a alegação terapêutica. Apresentar a alegação terapêutica significa afirmar o seguinte “dizem que serve para tal coisa, mas ninguém comprovou”. É uma situação muito séria. Primeiro porque ninguém sabe de que forma essas plantas podem interagir com os remédios que a pessoa está tomando. Ninguém sabe o que pode acontecer. Outro problema grave é que as pessoas abandonam o tratamento convencional e ficam apenas com as ervas.”

ALANAC: Os riscos destas plantas podem ser estimados com muita segurança, baseados principalmente no fato de a maioria das substâncias ativas estarem presentes em concentrações muito abaixo dos limites de segurança estabelecidos por publicações indexadas. Desta forma, a chance de ocorrer uma intoxicação pelo uso de fitoterápicos é muito menor que com o uso de medicamentos sintéticos. O uso tradicional traz informações muito importantes quanto à eficácia, uma vez que o uso pela população por muitos anos sem que sejam identificados casos de intoxicação, e ainda reforçam as bases de eficácia, pois continuam sendo utilizados e recomendados pela população em geral.
O uso tradicional não só reforça a comprovação de eficácia, mas também constitui no melhor e mais seguro teste de eficácia que é soberano a qualquer pesquisa clínica de fase 03, pois são anos e anos de uso por uma população considerável de milhares a milhões de pessoas.

“ÉPOCA – A Organização Mundial da Saúde de certa forma incentiva o uso desses produtos naturais porque a maioria da população mundial não tem acesso à medicina. Nesse contexto, as ervas não têm um papel importante?
Drauzio –
Acho que esse é o cerne da discussão. É um absurdo dizer “olha, já que vocês não têm acesso à medicina se contentem tomando chazinho”. Isso é enganar a população. É dar a impressão de que as pessoas estão sendo tratadas quando na verdade não estão. Antes de oferecer essas ervas aos pacientes, é preciso avaliar a ação delas com rigor científico. Por exemplo: como saber se um determinado chá traz algum benefício contra a gastrite? É preciso separar dois grupos de pacientes. Um deles toma uma droga conhecida, como o omeprazol. O outro toma omeprazol e mais um chá que vem num sachê junto com uma bula que explique direitinho quantos minutos aquilo tem de ficar na água etc. Aí é comparar os resultados obtidos nos dois grupos. Não existe estudo assim. E ninguém está disposto a fazer. Os defensores dessa chamada medicina natural querem que o mundo aceite que é desse jeito e acabou. Sem nenhum estudo e sem passar por todo processo de avaliação científica que os medicamentos passam para poder ter a ação demonstrada.”

ALANAC: O uso de fitoterápicos pelo mundo é muito antigo e está cada vez maior, e como exemplo temos a Alemanha, cujo mercado de fitoterápicos é enorme. Cerca de 60% dos médicos prescrevem fitoterápicos à população, produtos estes registrados no EMEA, órgão regulador europeu que tem as exigências mais rigorosas para o registro, semelhantes às brasileiras. Como podemos criticar a política alemã de medicamentos, uma vez que o poder aquisitivo da grande maioria da população é muito superior à dos brasileiros? Não existe esta imagem de que a fitoterapia é para pobres. É apenas uma terapia alternativa à alopatia sintética. A planta medicinal que pode ser usado em substituição ao omeprazol é a Espinheira Santa (Maytenus ilicifolia Mart. ex Reiss.) que é indicada como coadjuvante no tratamento de  gastrite e úlcera gastroduodenal, além de tratar dispepsias, na qual pela norma (Instrução Normativa 05/2008) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, a dispensação de Espinheira Santa é isenta de prescrição médica.

“ÉPOCAO Ministério da Saúde errou ao adotar essa política?
Drauzio
– Essa medida está totalmente errada. Isso não deveria ter sido feito de jeito nenhum. O que está por trás disso é uma questão política. Imagine se eu fosse o prefeito de uma pequena cidade do interior. Quanto custa um posto de saúde, médico, enfermagem, paramédicos etc? Custa caro. É muito mais barato fazer uma horta e mandar o médico receitar aquilo. E ainda inauguro o negócio com o nome de Farmácia Viva. Imagine só que nome mais inadequado. Fazer uma coisa dessa não custa quase nada. E os políticos adoram inaugurar essas hortas. Há centenas delas no Brasil.”

ALANAC: Este é um projeto de Governo que já é realidade em muitos estados da federação e que faz parte do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Ao contrário do que o Dr. Drauzio diz, as Farmácias Vivas são bem estruturadas, pois serão bem regulamentadas no que se refere às boas práticas de manipulação, equipamentos e procedimentos necessários, assim como o controle de qualidade, da matéria prima ao produto que será dispensado.

ÉPOCAVocê vai criticar hábitos arraigados na cultura brasileira. Está preparado para enfrentar as críticas?
Drauzio
– Todas as séries que fizemos no Fantástico foram séries que, de um modo geral, agradavam às pessoas. Falar sobre obesidade e hipertensão são coisas úteis. Todo mundo fica de acordo. Essa nova série vai ser diferente. Ela vai me criar roblema. Em geral, quem usa esse tipo de medicina (se é que podemos chamar isso de medicina) são pessoas ignorantes, crédulas e que acreditam em qualquer besteira que digam a elas. O que me desconcerta é ver pessoas muito cultas que também usam essas coisas.Tenho amigos que usam. Recomendam suco de berinjela para baixar o colesterol e outras bobagens. Toda hora ouvimos falar isso. Tenho um amigo que é seguramente a pessoa mais culta que eu conheço. Tem uma cultura absurda, mas acredita em todas essas idiotices. Às vezes as pessoas têm uma cultura gigantesca em outras áreas, mas em farmacologia são completamente ignorantes. Tão ignorantes quanto o coitado que não pôde aprender a ler e a escrever e credulamente vai atrás dessas coisas.”

ALANAC: A fitoterapia é uma ciência como as outras, com especialistas que dedicam seu tempo e em alguns casos a vida inteira para pesquisar e desenvolver estes produtos. Basta verificar nas Universidades públicas e privadas a quantidade de pesquisadores (Doutores, Pós-Doutores, Livre-Docentes e Titulares), especialistas em fitoterápicos e plantas medicinais, nas faculdades de farmácia. O programa Nacional da Política de Medicamentos Fitoterápicos tem a finalidade de implementar o uso seguro de fitoterápicos em nível nacional, considerando sempre o risco sanitário do uso destes produtos. Há um comitê instalado contando com a representação de diversos setores, inclusive membros da sociedade civil, que estão debatendo e apontando quais os caminhos a serem traçados para que o aumento da utilização de fitoterápicos gere uma demanda que fomente o desenvolvimento de novos produtos pelas empresas e universidades, para então alavancar o mercado.

ÉPOCAAlém dos chazinhos, existem produtos fitoterápicos registrados pela Anvisa e vendidos nas farmácias. Esses também não são submetidos a estudos para comprovar eficácia e riscos?
Drauzio – Eles são registrados na Anvisa como complemento alimentar. Ou seja: não passam pelo mesmo crivo de um medicamento. Se eu tivesse autoridade para isso, mandaria recolher do mercado todos os fitoterápicos cuja eficácia não tenha sido demonstrada cientificamente.”

ALANAC: Medicamentos fitoterápicos NÃO são registrados como complementos alimentares. Esta é uma política de registro utilizada pelo FDA (órgão dos EUA que regulam a área da saúde). No Brasil, os fitoterápicos são uma categoria de medicamentos, obedecendo todos os rigores regulamentados pela ANVISA, como os requisitos para registro, Boas Práticas de Fabricação e Controle, Farmacovigilância e demais requisitos, além da comprovação de segurança e eficácia, através da apresentação de  estudos pré-clínicos e clínicos, de forma semelhante aos medicamentos químicos-sintéticos.

ÉPOCAImagino que muita gente vai dizer que você está defendendo os grandes laboratórios. Como vai responder a essa crítica?
Drauzio
– Não tenho a menor dúvida de que esse tipo de comentário vai surgir. Minha resposta é simples. Não estamos fazendo defesa de nenhum medicamento. Não estamos beneficiando nenhum laboratório. Essa é uma questão filosófica. Enquanto a medicina era baseada em chazinhos, as pessoas viviam apenas 30 ou 40 anos. As pessoas falam tanto da medicina chinesa, não é? Elas justificam a eficácia da medicina chinesa dizendo que é milenar. Mas no início do século XIX os chineses (que contavam com essa medicina há muito tempo) morriam, em média, aos 30 anos. Quem provocou esse salto na qualidade e na duração da vida foi a medicina moderna: as vacinações, os antibióticos, o controle da pressão arterial, do diabetes etc. Na verdade, esse é um argumento ideológico recorrente. Dizem que é preciso dar chazinhos porque as multinacionais fazem remédios caros, que envenenam as pessoas etc. Criam uma teoria da conspiração. Todo mundo sabe que teoria da conspiração é uma coisa que pega.”

ALANAC: A pesquisa de medicamentos fitoterápicos por parte das grandes empresas não progride pois não há interesse comercial destas empresas (interesses estes normalmente definidos nas matrizes nos países de origem) no Brasil, pois é um mercado muito pequeno perto do faturamento global que estas empresas possuem.

ÉPOCAÉ possível conciliar o tratamento convencional com algum fitoterápico? Quando o paciente pergunta se pode fazer o tratamento e continuar tomando uns chazinhos ou umas cápsulas o que você responde?
Drauzio
– A resposta certa é: eu não sei. Não sabemos se existem interações. Documentar interação entre medicamentos tradicionais (com dose fixa e tudo) já é difícil. Imagine um chá desses que tem dezenas ou centenas de substâncias. Como você pode garantir que não existe nenhum antagonismo? Esse é o primeiro ponto. Digo para os pacientes não perderem tempo com essas coisas. O segundo ponto é que a medicina não pode ser feita com drogas que temos que provar que fazem mal. Temos provar que fazem bem. Se não isso não tem fim. Não chegamos a lugar nenhum. É errado dizer que o fitoterápico, pelo menos, vai fazer bem psicologicamente, que vai produzir um efeito placebo etc. Isso é enganar as pessoas. É o mesmo que dizer: vou te dar uma coisa que não serve para nada, mas como você é boba vai achar que serve e vai ficar feliz.”

ALANAC: Reiteramos que o fitoterápico é sim um medicamento registrado na ANVISA sob regras técnicas e científicas amparadas no marco regulatório estabelecido pelas principais agências reguladoras, como EMEA, FDA e OMS. A Europa apresenta hoje o maior índice de utilização de medicamentos fitoterápicos no mundo, consumo este baseado principalmente na tradicionalidade e segurança que estes produtos apresentam ao serem usados durante décadas, por vezes séculos sem apresentar casos de intoxicação, e alta margem de eficácia. Não podemos ignorar o efeito placebo, mas certamente os fitoterápicos apresentam ação comprovada por diversos estudos científicos indexados.
ÉPOCAO que mais o surpreendeu durante a preparação da série?
Drauzio
– Fiquei surpreso ao ver que o uso das ervas é feito sem nenhum controle e ainda é referendado por órgãos públicos, ligados ao Ministério da Saúde ou à Embrapa. Fiquei ainda mais surpreso com o discurso que existe por trás dessas coisas. Dizem que o uso das ervas tem fundamento científico. O fundamento científico é nenhum. Muitas vezes esse fundamento científico é uma tese de mestrado que alguém fez na faculdade de farmácia e que demonstrou que em determinada cultura de células ou em determinado animal uma fração daquele extrato tem alguma ação. Isso é apresentado como prova inequívoca da eficácia do extrato ou do chá. É um absurdo.”

ALANAC: Não é um absurdo, é apenas parte da evolução natural da pesquisa, como entre muitas e muitas áreas que começam a ser regulamentadas. Este início deve ocorrer em algum momento. Todas as ciências, inclusive a medicina, farmácia, odontologia e outras voltadas ao cuidado à saúde passam por marcos evolutivos, onde é necessária uma mudança de pensamentos e a quebra de alguns paradigmas através do incremento do rigor das regras, que passam a estimular e regular melhor o mercado. No caso das plantas utilizadas nas Farmácias Vivas, encontra-se vasto material com estudos que comprovam a segurança e eficácia para o tratamento de doenças e males, o uso destas plantas não está baseado em cima de uma simples dissertação de mestrado, equivoca-se o Dr. Drauzio .
ÉPOCAO que ouviu dos doentes?
Drauzio
– Essa é a parte mais triste. Muitas pessoas param de se tratar porque acreditam nessas coisas. Encontrei uma senhora em Goiânia que descobriu um tumor de mama quando ele tinha 1,5 cm. Ficou tomando chás e fazendo tratamento com argila e quando foi operada o tumor já tinha dez centímetros. E ainda disseram para ela: “ainda bem que a senhora tomou as ervas, isso fez o tumor crescer devagar. Se não tivesse tomado, o tumor teria crescido mais depressa”.

ALANAC: A fitoterapia nunca foi divulgada, prescrita ou utilizada como meio definitivo para tratamento e cura de doenças e eventos médicos. A utilização extremista de fitoterápicos como a descrita acima é prejudicial, assim como seria prejudicial à utilização única e excessiva de qualquer outro tipo de produto ou mesmo alimentação, sem que sejam observados e acompanhados os dados clínicos do paciente.

ÉPOCAMuitas vezes esse outro explica o que o médico não teve paciência de explicar, não é mesmo?
Drauzio
– Dá uma explicação estapafúrdia, mas aquilo adquire uma lógica para quem sofre. Em alguns lugares do SUS que tratam com fitoterápicos, a consulta dura 40 minutos. É um grande diferencial. É algo muito atrativo. Mas é um mundo totalmente absurdo. A preparação dos chás é muito variável. Por quanto tempo as folhas foram fervidas? O chá ficou na geladeira? Isso tudo altera a concentração da substância presente ali. Na Farmácia Viva lá de Belém tem uma plantinha chamada insulina. Usam para diabetes. Chega lá a pobre ignorante e dizem para ela não tomar a insulina que o médico receitou. Mandam tomar a plantinha.Tem outra plantinha chamada Novalgina.”

ALANAC: A prática ilegal da medicina deve ser fiscalizada pelos conselhos, e denunciada pela população quando necessário. Existem médicos que prescrevem fitoterápicos por conhecer os estudos clínicos e acreditar que a terapia indicada por ele terá efeito no quadro clínico do paciente. A ANVISA fiscaliza a colidência de nomes comerciais que possam causar confusão na dispensação ou prescrição, mas não há como interferir em alguns regionalismos como estes citados.

Drauzio – Aí temos que testar cada fração para ver qual delas é a responsável pela atividade. Essa fração é que vai em frente. Vai ser testada em animais, depois em humanos etc. É tudo muito complexo. Não cabe às autoridades responsáveis pela saúde adotar métodos de tratamento que não têm eficácia demonstrada. As autoridades não podem criar uma medicina para rico e outra para pobre baseada em tratamentos baratinhos e sem ação. Vamos tentar mostrar como funciona o método científico. Como se prova que uma coisa é boa para a saúde ou não. Não podemos aceitar que as pessoas continuem sendo enganadas.”

ALANAC: O desenvolvimento destes fitoterápicos efetuado desta forma estão sendo feitos através de PPPs e outros meios de cooperação que consigam atingir os objetivos propostos, porém os processos citados acima são apenas algumas das possibilidades de comprovar a eficácia e segurança dos fitoterápicos.
Atuação da Associação
A ALANAC atua junto à ANVISA, discutindo todas as revisões da regulamentação que estão em curso, expondo as contribuições e dificuldades do setor industrial farmacêutico nacional, visando sempre garantir a segurança dos medicamentos fitoterápicos. Participamos também do Comitê Nacional de Fitoterápicos e Plantas Medicinais, onde participam onze Ministérios entre outros órgãos federais, representantes da sociedade civil e a academia, trabalhando para a implementação da Política Nacional de Fitoterápicos e Plantas Medicinais, que tem a finalidade de implementar o uso seguro de fitoterápicos em nível nacional, considerando sempre o risco sanitário do uso destes produtos. Esta política tem como objetivo difundir o uso destes produtos, principalmente através do SUS, oferecendo mais alternativas terapêuticas e incentivando a produção e pesquisa. Há um comitê instalado contando com a representação de diversos setores, inclusive membros da sociedade civil, que estão debatendo e apontando quais os caminhos a serem traçados para que o aumento da utilização de fitoterápicos gere uma demanda que fomente o desenvolvimento de novos produtos pelas empresas e universidades, para então alavancar o mercado.

Sobre a ALANAC
A ALANAC é a legítima representante dos laboratórios nacionais, e vem demonstrando a sua importância enfrentando desafios há mais de  25 anos, buscando demonstrar para a sociedade que a existência de uma indústria farmacêutica nacional forte e desenvolvida é fundamental para a soberania de um país.

FONTE: http://www.alanac.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4787:alanac-rebate-declaracoes-de-drauzio-varella-sobre-fitoterapicos&catid=:em-acao

Foi isso mesmo que eu li, Dr. Varella?

Pelo que vemos no texto abaixo, não é de agora que o Dr. Drauzio faz colocações infelizes e que no mínimo se parecem BEM tendenciosas. É de autoria de Wilson Bueno, publicado no Blog do Wilson em 2008, e republicado aqui sob autorização expressa de seu autor.

Foi isso mesmo que eu li, dr. Drauzio Varella?

Eu sempre li e ouvi o dr. Drauzio Varella com muito interesse e respeito, mas acho que, desta vez, devo estar com os olhos cheios de grãos de poeira ou não estou raciocinando direito.

Vejamos, meu amigo, minha amiga. Confira comigo e depois me diga se estou errado ou vendo fantasmas. Tenho aqui em mãos uma entrevista do nosso doutor midiático na revista Diversa, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em novembro de 2008, por ocasião do Congresso Nacional de Saúde. A entrevista vai razoavelmente bem até a pergunta seguinte: Como o senhor vê a agressiva publicidade de medicamentos?
Aí vem a resposta, a meu ver absolutamente esclarecedora e surpreendente, do dr. Drauzio Varella:
“Este é um debate internacional. O mundo inteiro está preocupado com esse assunto, que tem sido tratado por editoriais de revistas médicas. É um questão com dois lados. De um lado, os laboratórios têm colaborado muito para o desenvolvimento da medicina e para o preparo dos médicos. A maioria dos médicos que viajam para o exterior têm suas despesas pagas pelos laboratórios. Hoje, encontro em congressos internacionais médicos recém-formados que não teriam condições de bancar com recursos próprios o custo de uma participação em eventos do gênero. Eu mesmo nunca recebi esse tipo de auxílio e até hoje arco com as despesas.
De qualquer forma, a medicina, em especial a oncologia, avançou muito por causa dessas possibilidades. Mas não existe uma pressão direta dos laboratórios. Algo do tipo: “paguei sua viagem, você tem que aceitar meu remédio”. Isso não existe. O que os laboratórios esperam é que o médico indique uma droga ao perceber que ela age melhor em certa doença. Por outro lado, a pressão da publicidade é algo terrível, principalmente nos Estados Unidos. Ela força os pacientes a pressionarem os médicos a prescreverem determinados medicamentos.”
Calma, meu amigo, minha amiga. Foi isso mesmo que você leu e que ele disse (ou será que a revista interpretou mal?). Vamos resumir com outras palavras: 1) Os laboratórios, segundo o dr. Drauzio Varella, são generosos e pagam, sem desejar nada em troca, viagens para os médicos freqüentarem os congressos internacionais; 2) Os laboratórios, segundo o dr. Drauzio Varella, só assediam os médicos porque querem que eles prescrevam o melhor medicamento para os seus pacientes; 3) O problema maior é a publicidade porque induz os pacientes a pedirem remédios para os médicos.
O dr. Drauzio Varella deve estar vivendo num outro mundo (tem gente que entra pelo tubo da televisão e perde a noção de realidade, vai ver que é isso) e deve conhecer alguns laboratórios diferentes dos que eu conheço, o Cremesp conhece, o Sindicato dos Médicos conhece e as revistas internacionais sérias conhecem e assim por diante. Tudo bem que ele queira fazer média com a Big Pharma, mas não precisava exagerar desse jeito. Vai ver que ele teve uma recaída (todo mundo tem, até doutor tem) ou ele está querendo, como a gente diz no interior, “tirar um sarro” de todos nós. Não é possível mesmo que ele acredite piamente no que disse à revista da UFMG.
Estou, de agora em diante, com um pé atrás com o dr. Drauzio Varella porque esta declaração de confiança irrestrita nos laboratórios me deixou bastante desconfiado. Será que existe alguma coisa que não sabemos respaldando a pesquisa da Unip na Amazônia? Puxa, nunca pensei nisso, mas agora fiquei com a pulga atrás da orelha. Não, não pode ser, devo estar sendo assaltado pela “teoria da conspiração”.
Você pode não se lembrar, mas a Novartis, um dos laboratórios que nada têm de generoso, muito pelo contrário, tentou avançar gananciosamente em cima da nossa biodiversidade (tente checar BioAmazônia como palavra-chave no Google!) há um tempo atrás e, se não tivesse todo mundo de olhos bem abertos, inclusive a comunidade científica, teria conseguido o seu intento. Depois, chegou a patrocinar a revista da FAPESP, com direito a sobrecapa para mailing exclusivo, anúncio na página dedicada aos leitores (uma falta de sensibilidade enorme, mas você já viu a Big Pharma ter alguma sensibilidade que não seja para a grana?) etc. Laboratórios avançam sobre as universidades, sobre sociedades científicas e associações profissionais, avançam sobretudo onde há gente doente. Gostam como loucos de dinheiro. Há exceções, certamente, mas elas confirmam a regra.
Eu quero acreditar que o dr. Drauzio Varella estivesse brincando quando deu essa declaração de amor irrestrito à indústria farmacêutica, mas acho que, se a revista não fez uma besteira enorme, foi isso mesmo que ele quis dizer e que todos nós acabamos de ler (eu agora mais uma vez).
É por essa falta de espírito crítico, de adesão à estratégia predadora da Big Pharma, que estamos neste buraco imenso na área da saúde, com corporações explorando os que já estão fragilizados, máfias de medicamentos pipocando em todo lugar e uma relação promíscua entre laboratórios e parte da comunidade da saúde. Puxa, você não viu matéria do Estadão sobre o controle que os laboratórios exercem inclusive sobre as receitas que permanecem nas farmácias? Puxa, você não anda vendo como se recolhe remédio a torto e a direito, depois de matar e inutilizar tanta gente? Viu falar em Vioxx, Acomplia etc? E da Pfizer com o seu pare de fumar que levou muita gente parar de fazer quase tudo? Um lobby imenso e que certamente não atua em nome da nossa saúde.
Os médicos jovens que se cuidem. Essas viagens vão custar caro um dia, a não ser que já tenham decidido, abrindo mão do juramento tradicional, colocar-se do outro lado.
Mais ainda: pera aí, dr. Drauzio Varella (de novo, se a revista não desvirtuou as declarações dele!) não existe publicidade brotando do nada: são os laboratórios que pagam os anúncios, são eles que induzem os pacientes a se auto-medicarem, a buscarem os medicamentos em qualquer lugar. O senhor não sabia disso? Acha que é a televisão, é o rádio, são os jornais e as revistas que pagam os anúncios de remédios?
São, dr. Drauzio Varella, os mesmos laboratórios que pagam as viagens dos médicos jovens, que escrevem artigos e pagam propina para que pesquisadores os assinem e encaminhem para revistas especializadas, que desrespeitam pra burro a legislação da propaganda (o senhor precisa consultar a ANVISA, que faz o monitoramento da propaganda de remédios para obter alguns dados!).
Se o dr. Drauzio Varella disse isso mesmo, não acreditem nele, não é verdade. Talvez ele seja ingênuo ou gosta de fazer média com a Big Pharma. Ele tem o direito, todo mundo tem o direito de escolher os seus parceiros. Por aqui, preferimos seguir a corrente crítica, descomprometida, que sabe quais são as verdadeiras intenções da indústria farmacêutica, em particular as grandes corporações da saúde (O governo precisa vigiar esta farra da pesquisa clínica que grassa por aqui , com médicos entregando para laboratórios e empresas de pesquisa de mercado o cadastro de seus pacientes!).
Sei lá, vou até torcer para que a revista tenha se equivocado. Se não, não quero mais saber do Drauzio Varella. Vou procurar gente mais ligada no que está acontecendo no mundo. Os laboratórios adoram inocentes úteis. Não nasci com essa vocação.
Vou continuar assim mesmo respeitando o dr. Drauzio Varella. Como médico, certamente já ajudou muita gente e a campanha contra o tabagismo foi excelente (ele deveria ser crítico com a indústria farmacêutica como foi com a indústria tabagista, que produz drogas), mas não é fonte boa, isenta sobre laboratórios, está longe disso. Anda muito desatualizado (a não ser que a revista tenha errado tudo). É vivendo e, às vezes, lendo entrevista de celebridades que a gente aprende.
Tem gente que ainda acredita que existem amostras grátis. Aquelas que muitos médicos distribuem com alguns comprimidos , recomendando aos pacientes que não deixem de comprar os demais. E os laboratórios se fartam com tanta generosidade!
A Big Pharma deve estar rindo pra valer. Aquele riso hipócrita, cínico, safado, aprovado pelo FDA, sem recall.

Drauzio Varella e a Fitoterapia no Brasil – Uma crítica consistente: Para pensar!

Dráuzio Varella e a Fitoterapia no Brasil

Prof. Douglas Carrara

Sou antropólogo e pesquisador de medicina popular e fitoterapia há vários anos no Brasil. Imaginem a surpresa e a indignação ao ler a matéria na revista Época de Agosto/2010 sobre a prática da fitoterapia no serviço público no Brasil. No entanto é necessário agradecer ao Dr. Dráuzio Varella pela iniciativa. Agora temos um representante da indústria farmacêutica com quem dialogar. Sinal dos tempos! A fitoterapia e o projeto Farmácias Vivas já começam a incomodar e a causar prejuízos à indústria farmacêutica …

Analisando os países mais avançados do mundo e que utilizam em grande escala os medicamentos produzidos pela indústria farmacêutica, verificamos que os resultados obtidos pela medicina considerada científica são pífios. Os Estados Unidos possuem os índices de câncer de mama e de próstata mais elevados do mundo. Em 1993 haviam nos EUA, 8 milhões de diabéticos, uma das mais altas do mundo. Com relação às doenças cardio-vasculares também os americanos são campeões.  Nesse país onde se utiliza a “medicina de rico”, no entender esclarecido do Dr. Dráuzio Varella, os pacientes são tratados com medicamentos de última geração e equipamentos modernos de alto custo. Investe-se muito em medicina e quase nada em saúde da população.

Por outro lado, nos países onde se pratica a “medicina de pobre”, para citar novamente o ilustre médico Dr. Dráuzio Varella, os índices de doenças degenerativas, tais como, cânceres, doenças cardio-vasculares, diabetes, são baixíssimos. Nos EUA, ocorrem 120 casos de câncer de mama por 100.000 habitantes, enquanto na China apenas 20.

Inclusive as imigrantes  chinesas que vivem nos Estados Unidos, acabam atingindo os índices absurdos e epidêmicos da população americana. Em São Francisco, a cada ano surgem 160 casos de câncer de mama por 100.000 habitantes que migraram da cidade de Xangai, na China, enquanto, na mesma faixa etária, as que permaneceram, apenas 40 casos surgiram da mesma doença.

Portanto a medicina avançada dos países do primeiro mundo não colabora em nada para promover a saúde de seus habitantes. Por que então importarmos a mesma medicina que não se preocupa com a promoção da saúde e que parece considerar a doença um negócio melhor do que a saúde?

O que diferencia as populações dos países asiáticos é a prática de terapêuticas de origem milenar: fitoterapia, acupuntura, shiatsu, assim como os medicamentos alopáticos, sempre que necessário.

Portanto, Dr. Dráuzio Varella, que modelo de medicina devemos escolher e utilizar no tratamento das doenças da população brasileira de baixa renda? O modelo americano ou o asiático? Como confiamos na sua boa formação matemática e que as estatísticas epidemiológicas não são mentirosas, o melhor caminho para o Brasil forçosamente terá que ser o modelo asiático.

Mesmo sabendo que todos os profissionais da saúde, pesquisadores, fitoquímicos, fitofarmacologistas, etnobotânicos, farmacêuticos, fitoterapeutas e antropólogos da saúde são ignorantes, segundo a douta opinião do Dr. Dráuzio Varella, acreditamos que um dia vamos conseguir atingir os índices baixos de morbidade obtidos atualmente pelos países asiáticos.

Para melhorar o nível de nossos profissionais, pesquisadores da área de plantas medicinais, basta que o próprio governo aumente as verbas para pesquisa com plantas medicinais, que há séculos vem sendo utilizadas sem nenhum apoio do governo no tratamento de seus problemas de saúde pela população pobre, sem recursos, que conta apenas com a experiência de seus ancestrais para tratar de suas doenças. Esta é a realidade da nossa população humilde de interior, cujos serviços de saúde, todos sabemos, são precários e péssimos.

Imagine o Dr. Dráuzio Varella, se a população simples do interior não possuísse nenhum conhecimento da ação das plantas medicinais. Se toda vez que alguém adoecesse tivesse que procurar o serviço de saúde de seu município. Imagine o caos que seria. Em primeiro lugar, porque a maioria dos médicos está concentrada nas capitais dos estados. Em segundo lugar, porque na medida em que nos afastamos dos grandes centros, os recursos na área da saúde diminuem. E por isso faltam medicamentos, faltam leitos de hospital, faltam médicos e enfermeiros. Ainda assim os poucos profissionais que existem no interior foram mal formados na faculdade. As faculdades atualmente se preocupam em formar médicos especialistas em  monitoramento de UTI’s. Enfim são formados para exercer a “medicina de rico”. São pouquíssimos os médicos clínicos disponíveis capacitados para receitar fitoterápicos, mesmo porque não se estuda fitoterapia nas faculdades de medicina no Brasil! E muito menos dispomos de faculdade de fitoterapia, tais como, as que existem na Inglaterra, na França, na Índia, na China.

Não estranhamos, portanto que o Dr. Dráuzio Varella, tenha encontrado muita ignorância nos projetos de Farmácias Vivas estabelecidos em diversas regiões do país. Há, na verdade, uma carência muito grande pesquisas na área de plantas medicinais no Brasil. Por outro lado, a ignorância encontrada pelo ilustre médico  não é decorrente do descaso ou por falta de amor pelo paciente. Além de não ter recebido nenhuma informação, e, muito menos formação, na faculdade onde estudou, o médico que atua nos atendimentos fitoterápicos não dispõe de nenhum apoio logístico. Para praticar a fitoterapia as informações são escassas e mesmo as pesquisas que a Universidade brasileira promove, que o Dr. Drázio Varella, se referiu com tanto desprezo, dificilmente chegam ao seu conhecimento.

Portanto tudo o que o douto Dráuzio Varella considera idiotices são deficiências que ocorrem em um país que até hoje escolheu o modelo da “medicina rica” que promove a doença e não investe na saúde da população. Ao acusar um médico que receita fitoterápicos de idiota, porque não conhece farmacologia, teria que acusar também os demais médicos brasileiros que também não conhecem, porque todos sabemos que a farmacologia moderna é uma caixa preta, cujo conhecimento é de domínio exclusivo dos grandes laboratórios. Para o médico chega apenas a bula dos medicamentos…

Mas agora sabemos que o único cidadão brasileiro que não é idiota e que sabe farmacologia em profundidade é o Dr. Dráuzio Varella, porque provavelmente recebeu informações confidenciais dos grandes laboratórios e pode falar com conhecimento de causa. Como percebeu a deficiência na formação dos médicos que entrevistou, vai agora colaborar e esclarecer e orientar os idiotas, profissionais de saúde, que atuam nos projetos de Farmácias Vivas, idealizado pelo provavelmente também idiota, Dr. Francisco José de Abreu Matos, farmacêutico químico e professor da Universidade Federal do Ceará, infelizmente falecido em 2008. Se estivesse vivo com certeza explicaria as dificuldades para desenvolver e implantar o projeto de Farmácias Vivas no Ceará, com uma experiência profissional de 50 anos.

Sabemos que, segundo o Aurélio, idiota é um indivíduo pouco inteligente, estúpido, ignorante, imbecil e em alguns casos, até mesmo, uma categoria psiquiátrica, a idiotia. Portanto não consideramos correto e muito menos ético, considerar idiotas inúmeros profissionais da área da saúde,  que atuam nos projetos de Farmácias Vivas no Brasil. As deficiências por ventura encontradas pelo ilustre médico deveriam, com certeza, ser avaliadas, mas evidentemente com o respeito que qualquer indivíduo merece, independente de sua formação intelectual.

Quanto à experimentação dos fitoterápicos, a que o Dr. Drázio Varella se referiu, gostaríamos de questionar porque inúmeros medicamentos alopáticos são proibidos e retirados do mercado, após causar inúmeros danos aos pacientes. Por acaso a talidomida que gerou inúmeras crianças defeituosas no mundo inteiro foi submetida a experimentação científica antes de ser colocada á venda no mercado? Quantos aditivos e demais produtos químicos são colocados no mercado, expondo seres humanos e seres vivos aos seus efeitos cancerígenos que somente são percebidos depois que contaminaram todo o planeta. Basta lembrar dos PCB’s, os bifenilos policlorados, óleo conhecido no Brasil como ascarel, que quando foram produzidos em 1929 não se sabia nada de seus efeitos altamente nocivos para os seres vivos e para o meio ambiente. Sua fabricação foi proibida em 1976, mas os efeitos maléficos cumulativos e persistentes que atingiram toda a cadeia alimentar do planeta, não. A contaminação continua até os dias de hoje e, provavelmente o ilustre médico Dr. Dráuzio Varella também deve estar contaminado com PCB’s, o que explicaria sua atitude pouco ou nada cortês com demais indivíduos de sua espécie. Este é apenas um trágico exemplo, mas existem mais de 800 aditivos químicos ainda não estudados utilizados na fabricação de alimentos. São proibidos apenas quando, após experiências com animais, se descobre que são cancerígenos. Nesse caso, as cobaias não foram os pobres camondongos, foram os seres humanos que, sem  serem consultados, foram submetidos à experimentação.

Também consideramos necessário experimentar previamente as plantas medicinais. Os ensaios toxicológicos são evidentemente necessários, inclusive para estabelecer uma posologia adequada para um possível atendimento fitoterápico. Por outro lado, a etnobotãnica e a antropologia da saúde fornecem uma contribuição muito importante para a ciência ao estudar o conhecimento de raizeiros e pajés indígenas que conhecem os efeitos de cada planta a partir da experiência recebida de seus ancestrais e da utilização da planta por si mesmo. Podemos dispor desse modo de uma informação preciosa a respeito de plantas potencialmente tóxicas e perigosas. Na verdade tudo o que sabemos de cada planta considerada medicinal, tem origem na medicina popular, indígena, ou através dos conhecimentos trazidos pelas etnias africanas introduzidas no Brasil como escravos desde o início do processo de conquista e colonização do Brasil.

Na verdade todas as plantas medicinais estudadas pela Universidade no Brasil são oriundas da medicina popular. Não existe nenhuma planta medicinal cujo conhecimento não seja difundido entre a população.  Portanto quem decide o que estudar em termos de ação medicinal, são os intelectuais existentes nas comunidades simples do interior brasileiro, os raizeiros, os mateiros, as parteiras, os rezadores, os umbandistas, os curadores de cobra, etc.  São eles que informam aos etnobotânicos e antropólogos da saúde o que vale a pena estudar no reino vegetal. Se não fosse assim porque a Universidade iria formar etnobotânicos, etnofarmacologistas, especialistas em estudar o pensamento médico popular, com o objetivo de encontrar plantas, com grande potencial terapêutico. E tal fato vem acontecendo no mundo inteiro. A planta medicinal, Stevia rebaudiana foi descoberta pelos índios guarani do Paraguai e classificada pelo cientista suíço Moisés Bertoni. Pois bem, a estévia é um adoçante 300 vezes mais potente do que o açúcar de cana e não produz diabetes. Não por acaso foi proibido o seu uso nos Estados Unidos!

Assim necessitamos cada vez mais reduzir nossa ignorância aprendendo com quem sabe: os praticantes da medicina popular, porque ninguém é totalmente sábio ou totalmente ignorante. O acesso ao saber é um processo contínuo de busca e por isso para deixar de ser ignorante é necessário trilhar sempre o caminho da pesquisa e humildemente reconhecer que, mesmo quando avançamos, sabemos apenas que sabemos pouco ou quase nada.

Entretanto quando julgamos os que realmente pesquisam e buscam o conhecimento, totalmente ignorantes e idiotas, estamos reconhecendo que nada sabemos do que necessita ser conhecido.

Pelo menos o Dr. Dráuzio Varella reconheceu que o atendimento fitoterápico é profundamente diferente do atendimento alopático. O médico fitoterapeuta escuta durante muito tempo as queixas e o histórico do paciente e faz uma anamnese correta e completa. Nenhuma novidade nisso. Todo médico deve fazer isso. “O doente vai ao médico e ele nem olha na cara”, segundo Dr. Dráuzio Varella. Realmente esta é a realidade da “medicina de rico” aplicada ao pobre.  O médico de formação alopata não olha o paciente, porque não necessita individualizar o paciente, basta receitar um analgésico ou antibiótico qualquer, para despedir seu paciente. Este é o modelo que o Dr. Dráuzio Varella defende em sua entrevista. Parabéns pela inteligência do Dr. Dráuzio Varella!

Enfim, vamos aguardar a reportagem do dia 29/08/2010 na Globo, para avaliar melhor a proposta do Dr. Dráuzio Varella.